quinta-feira, 15 de março de 2012

Breve análise filosófica d' "O feitiço do tempo"


A propósito de tempo...

No filme "o feitiço do tempo", Phil Connors é uma personagem arrogante que fica retida no dia 2 de Fevereiro... Por volta das seis da manhã acorda, invariavelmente, no mesmo dia.

No início do filme, Phil é uma personagem com qual poucos de nós quereríamos ter algo que ver. Insensível, convencido, snob, Phil repele quem com ele convive. Pensa apenas no seu umbigo e está-se nas tintas para os outros.

Retido no mesmo dia, acordando vezes sem conta no mesmo dia, Phil começa a acordar para a vida. O primeiro embate é chocante. O tempo surge-lhe como incomodativo e sente-se intempestivo, escorraçado, como se o dia em que ficou preso não fosse o seu habitat.

De início reage mal. Chega a suicidar-se. Mas nem a morte o salva da situação em que se encontra. A sua única esperança - suicidar-se - não é mais uma esperança e isso é para si o supremo desespero. "A sua vontade própria é destruir-se, mas é o que ela não pode fazer, e a sua própria impotência é uma segunda forma da sua destruição, na qual o desespero pela segunda vez erra o seu alvo, na destruição do eu."[i]

Esse desespero de não “poder libertar-se” não se mostra inicialmente senão como repulsa perante algo que vem de fora: a repetição incessante do mesmo dia. Curiosamente, a repetição do mesmo dia não implica necessariamente a repetição do mesmo em absoluto. Há variações, ele pode variar o que faz.

Enquanto ele tinha confiança na vida, ou melhor, no curso habitual da vida, essa confiança não deixava que se levantasse o problema do desespero. A vida corria e ele corria ao sabor da vida, sem que surgisse qualquer necessidade óbvia de questionar o modo como a sua vida era levada, precisamente por ele mesmo.

O que vem ao de cima então, quando Phil se encontra preso na sua vida – efectivamente, num dia da sua vida – é que há um problema nisso mesmo que é o levar em diante a vida. Precisamente, há muitas formas, muitos modos, muitas maneiras de estar na vida. Percebe-se então que quando a confiança na vida se quebrou, a sua esperança virou-se para a própria morte. O desespero para com a vida tornou-se desespero para consigo mesmo: a morte, o fim de tudo, tornou-se a sua esperança. O desespero cresceu então ainda mais quando nem sequer pôde morrer. Mas este desespero tem uma diferença que não é meramente quantitativa: é um desespero inevitável – sendo a única esperança, e não sendo possível, o desespero é total.

Então Phil percebe uma coisa muito importante: perante o mal extremo e inevitável há ainda várias atitudes que são possíveis. Tal como, apesar de viver o mesmo dia vezes sem conta pode ainda viver cada repetição de uma maneira diferente, também, apesar de ser inevitável o encontro com a sua própria vida e consigo mesmo, pode relacionar-se de várias maneiras possíveis consigo e com a sua vida. A sua vida e ele próprio para si mesmo, são algo com o qual se pode relacionar. E é esta distância de si à sua vida que lhe permite tomar a sua vida nas próprias mãos.

Phil percebe então que, já que tem que viver e não tem outra forma de estar senão vivendo, deve fazer com que cada momento conte. É o que se empenha em fazer: que cada momento seja decisivo. As suas decisões vêm a partir de agora de toda uma diferente forma de ver a vida e de se compreender a si mesmo na vida. A vida já não é apenas qualquer coisa garantida, adiável. Não pode adiar a sua vida porque não pode passar em diante sem viver o dia. O dia em que está é a vida que tem, e de repente aquilo que verdadeiramente interessa torna-se-lhe urgente. Diferente das urgências vagamente cómodas e adquiridas pela forma do curso da vida – as urgências que agora o confrontam impõem-se-lhe pela necessidade urgente de viver a sua vida.

Esta urgência é simbolizada no facto de perceber que estava apaixonado pela rapariga que o acompanhava na sua profissão. Mas mais importante do que isso, percebeu que a sua vida é um cuidar permanente, um cuidar de si mesmo que não pode ser trocado ou despedido. Isso não significa, como ele pensava antes, que devesse levar uma vida egoísta e egocêntrica. No mundo e na vida, Phil é inevitavelmente na vida e no mundo com outros.

A preciosidade da vida revela-se-lhe. E nesta revelação revela-se-lhe ainda a preciosidade dos outros e do trato com os outros. O modo como leva a sua vida alterou-se: quer que cada momento conte, conte com tudo, fazendo das tripas coração, tornando cada instante excelente: o melhor que podia ser. E percebe que, pelo menos para si, isso implica fazer coisas pelos outros: coisas que ele sabe que são o seu destino, como coisas que só ele pode fazer.

Inicialmente, esta forma de ver o mundo e a vida é ainda atabalhoada e sente-se capaz de ser tudo. Chegou mesmo a salvar um senhor de uma morte inesperada por engasgamento… Como sabia que isso iria acontecer pôde chegar a tempo de o salvar. Assim como podia ajudar muitas pessoas pois em todas as vezes que viveu o mesmo dia encontrou muita gente a precisar de ajuda, de ajuda que ele podia dar. Mas ser o melhor que se pode ser não significa ser omnipotente. É o que vem a compreender de forma aguda quando tenta ajudar um sem-abrigo que acaba por morrer no hospital. Os próximos dias (as próximas repetições do mesmo dia) são então passados a tentar salvar esse sem-abrigo. Mas a morte revela-se-lhe a possibilidade inadiável: tentou de tudo, mas o sem abrigo morreu sempre… Até que compreendeu que não tinha um poder ilimitado, não dispunha de possibilidades ilimitadas: na verdade não só não podia salvar ninguém da própria morte (em sentido absoluto), como não estava nas suas mãos definir o que estava disponível para usar nesse dia a que estava confinado.

Até aqui Phil já fizera um percurso imenso: no início pensava que tudo estava bem na sua vida; quando ficou preso no mesmo dia pensou que tudo estava mal na sua vida; pensou então que uma vez que por mais que tentasse não sairia daquele dia, nada valia a pena, nem sequer viver, pois nada na vida mudaria isso de estar preso ali, naquele dia, naquela vila, para sempre; se tudo iria dar no mesmo resultado, se tudo teria um resultado idêntico, tudo era igual, tudo era nada, e nada valia a pena; ao descobrir que nem a morte o salvaria da sua vida, o desespero levou-o a descobrir que, se estava limitado àquilo que lhe calhara em sorte, então o que mais valia era dar o melhor uso possível às possibilidades que estavam disponíveis naquele dia, naquela vila, com aquelas pessoas; finalmente percebeu que ele não controlava aquilo que lhe era oferecido, que não podia de facto mudar o quinhão de vida que lhe restava, mas que podia fazer com isso a excelência. Ser excelente em cada decisão, em cada momento, com cada possibilidade que tinha – esse foi o rasgo de iluminação que, como um relâmpago, o envolveu.

“Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser/ Alguém? O que é não ser Ninguém? O humano é o sonho de/ uma sombra./ Mas quando chega o esplendor dispensado por um deus, há/ uma luz brilhante entre os homens e a vida torna-se doce.”[ii] O ser humano está exposto ao que os dias lhe trazem, e perante esta inevitabilidade tem a consistência de um sonho de uma sombra. Não é que o humano seja uma sombra: é o sonho de uma sombra. Um sonho, um projecto, algo que ainda não é, algo que sempre ainda não é o que tem para ser. Mas, de vez em quando, um esplendor que ele não controla ilumina tudo: a sombra, claro está, torna-se mais consistente, mais sólida. Quando há mais sol também as sombras são mais espessas: pelo contraste. Contudo, parece que assim se fica sem margem de manobra, que tudo está fora das nossas possibilidades. O que Phil compreendeu foi que, apesar de estar inevitavelmente exposto ao que a vida lhe trazia, o que interessava era a identificação e a constituição de uma postura perante a vida que lhe permitisse não ser dominado por isso e que, resignando-se ao inevitável, não fugisse disso, mas abraçasse com todas as forças o projecto de fazer da sua vida o melhor possível.

Phil tornou-se assim um ser humano consciente das suas decisões – já não passivamente exposto à procura do prazer e à fuga do sofrimento, mas activamente empenhado em viver na justa medida da sua excelência.

Pitágoras disse uma vez: "Ὁ βίος βραχὺς, ἡ δὲ τέχνη μακρὴ” – ou seja: a vida é curta, a técnica é longa. De facto, a vida é curta, tão curta que a tendência inicial é vivê-la o mais depressa possível, sem paragens, sem jamais questionar o que seja viver. O ser curta dificulta a constituição daquilo que Pitágoras chama τέχνη [tekhné]. Este termo grego foi traduzido para o latino ars, ou seja, arte. O que está aí em causa, na τέχνη, na ars, é um saber-fazer adequado a cada região da produção e do manuseamento: o sapateiro sabe uma arte na qual pode ser mais ou menos exímio. Neste sentido, há também uma τέχνη da vida. O problema parece ser então a curteza da vida. É o próprio ser curta da vida que na maioria das vezes impede a constituição de um olhar técnico sobre a vida: na sua curteza, a vida impele o vivente a correr de uma ocupação para outra. Mas este carácter, a curteza da vida, responsável pela correria, é também a maior razão que se tem para que se pare para pensar como deve ser vivido esse tempo que nos é dispensado. Contudo, Pitágoras realça precisamente que pode acontecer que a vida seja demasiado curta para que uma τέχνη adequada possa ser desenvolvida. Pode acontecer que o tempo necessário para saber viver adequadamente extravase a curteza da vida humana.

O que aconteceu a Phil representa o que acontece com todos nós: tal como ele só em casos extremos (aliás, muitas vezes só tarde de mais) paramos para pensar; corremos na vida sem pensarmos no significa de facto viver; temos um tempo de vida limitado que não depende de nós e nesse tempo estamos expostos ao que o dia que é a vida nos traz; isso incomoda-nos e tentamos fugir de enfrentar essa realidade; primeiro fugimos simplesmente não abrindo os olhos para ver o que todos os dias se manifesta; depois, quando a vida encalha, fugimos de forma extrema, maldizemos a vida e no limite confiamos no suicídio. Contudo, Phil foi confrontado com algo que não acontece connosco: viver diversas vezes a mesma situação até acertar. É que connosco, como diz Pitágora, a oportunidade é estreita (“ὁ δὲ καιρὸς ὀξὺς”). Não temos segundas hipóteses: vivemos uma vida curta que nos impele a correr nela, a corrê-la, a consumi-la, e em cada trago vai-se um momento irrecuperável onde jamais voltaremos para tentarmos outra vez. É que só se vive uma vez cada momento que, na maioria das vezes, vem até nós a correr, na nossa pressa de viver a vida que é curta. Por isso a experiência é difícil, escorregadia, perigosa (“ἡ δὲ πεῖρα σφαλερὴ”) e a escolha tão difícil (“ἡ δὲ κρίσις χαλεπή”)[iii].

É que todos nós somos capazes de perceber que a compreensão final de Phil é a mais correcta, provavelmente a mais adequada. Mas também percebemos que essa maneira de ter a vida só é possível mediante uma decisão nossa, uma decisão que, precisamente, é difícil de tomar. A autenticidade é difícil.


[i] Vide KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano, Martin Claret, São Paulo, 2002, trad. Alex Martins, p. 24.
[ii] Vide PÍNDARO. Odes. Quetzal, Lisboa, 2010, trad. António C. Caeiro, p. 64.
[iii] Vide Hp. Aph. 1.1.


1 comentário:

  1. Sensacional esse post, parabéns pela sutileza da análise. Acabei de assistir o filme. Ele é fantástico, sem dúvida. O mais impressionante foi a mudança de 'estado de espírito" de Phil. Ele acabou percebendo o quanto seu mundo era voltado para a si mesmo, e quanto era egoísta e egocêntrico. Foi então que ele foi 'iluminado'. Descobriu que a essência da vida: o Amor. Ele descobriu o amor pelo próximo, altruísta. Percebeu que ele poderia fazer diferença ajudando pessoas que ele não conhecia como se fossem as pessoas mais importantes do mundo. Descobriu a arte, a poesia, a música.
    Phil percebeu que para amar não era tentar ser perfeito, com frases e atitudes calculadas. Era fazer dos momentos simples, grandes.
    Esse filme sem dúvida é uma lição de vida.

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