terça-feira, 10 de novembro de 2015

Lipovetsky: indiferença e motivação

A propósito de indiferença...

"A indiferença não se identifica com a ausência de motivação". Lipovetsky, A Era do Vazio


Uma confusão comum é trocar "indiferença" com "motivação", mas correspondem a categorias diferentes. Lipovetsky viu isto muito bem: a indiferença pode andar associada até mesmo a um "sobre-investimento" do indivíduo. Ora: é justamente este o nosso caso, na nossa sociedade, nesta era do vazio.


Por isso, pode ser difícil reconhecer a indiferença contemporânea - e é muito fácil confundir fenómenos semelhantes. A indiferença actual é um fenómeno transversal e banal. Não é uma indiferença regional.


De facto, por vezes tem-se a tentação de justificar o nosso tempo dizendo que não é verdadeiramente indiferente na medida em que se tornou indiferente, sim, em relação a valores do passado, ao mesmo tempo que inventou e se fixou noutros.


Mas tudo isso é ilusão de óptica. Como Kierkegaard viu muito bem - e Lipovetsky parece que também - não se trata apenas de a maioria das pessoas não se fixar já a categorias éticas e religiosas, as quais, noutros tempos, parecem ter sido as que orientavam e julgavam a vida. Não se trata só disso. Pois poderia suceder que os sujeitos se desligassem das categorias éticas e religiosas e se fixassem em categorias estéticas. Na verdade, é disso que o homem contemporâneo gosta de se elogiar a si mesmo: da sua seriedade relativamente a categorias estéticas. O próprio Kierkegaard dá, por vezes, a ideia de estar a dizer que o homem natural se fixa em categorias estéticas - por oposição ao homem ético e ao religioso que se fixam em categorias ético-religiosas... Mas o ponto é que o homem natural - portanto, no estado propriamente estético - vive na indiferença, e esta indiferença é, afinal, a forma mais marcante da sua existência, independentemente das categorias pelas quais julga estar a viver.


A seriedade do homem contemporâneo - de nós, de nós na sociedade de massas - e, segundo Kierkegaard, do homem de todos os paganismos, do homem tal como ele sempre foi de início e na maioria das vezes - a seriedade do homem tal como ele é naturalmente é flirt, puro flirt com categorias... e o que é próprio da nossa era, do nosso tempo é que o flirt se tornou objecto de seriedade... Não há apenas um flirt que tem aparência de seriedade, o que ainda não seria tão mau porque bastaria, então, mostrar ao sujeito que a seriedade é outra coisa... A nossa situação é mais grave: o flirt é aquilo a que nós nos apegámos. Nós fixámo-nos no flirt. Hoje em dia um sujeito que não tenha visto os cinco continentes e mais a Lua, não tenha experimentado uma infinidade de aventuras, não tenha assumido um sem-numero de identidades e que, no intervalo de 15 minutos de uma das mil telenovelas não tenha feito zapping por entre 500 canais diferentes - esse sujeito é considerado desinteressante, quase ameaçador, um perfeito violador da ética da diversão e da fun morality!


A indiferença não se opõe à motivação. Não se opõe ao empenhamento. Nós, hoje, somos a prova de que uma motivação pulverizada e um empenhamento vazio podem exacerbar-se ao cúmulo do exagero enquanto se afundam na indiferença mais abjecta.


A nossa indiferença é tão grave que nem sequer se pode falar de "excesso" de indiferença... Também isto Lipovetsky viu muito bem: o deserto contemporâneo não padece de excesso de indiferença, mas sim de um "defeito de indiferença". Uma indiferença standard que constitui o estado em que estamos por defeito - mas nem sequer em excesso. Olhamos à nossa volta e não vemos casos extremos de indiferença: as pessoas continuam a movimentar-se, a correr pelos seus desejos, a buscar satisfação como um corpo morto que, já sem alma, continuasse a executar os seus movimentos.

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