terça-feira, 17 de novembro de 2015

Em defesa da Fraternidade

A propósito da ideia de que há ideias intrinsecamente mais capazes de provocar a adesão dos sujeitos...


Quem acredita que a humanidade está irreversivelmente num processo de melhoramento moral - ou que, apesar de retrocessos pontuais, há um processo contínuo de paulatino aprimoramento moral da humanidade - está iludido...




Esta é uma das últimas crenças do ocidente e demorará, provavelmente, muito tempo até percebermos que, na realidade, não há nada intrínseco aos conteúdos que os tornem preferíveis a outros, como também não há nada intrínseco aos humanos que os tornem naturalmente mais propensos a aderirem a certos conteúdos em vez de outros...


Ao contrário do que possa parecer a quem ainda tem este tipo de ilusões, não se trata aqui de relativismo - muito menos de defender qualquer relativismo! Pelo contrário. O que está em causa é, justamente, que os humanos são capazes de aderir a qualquer coisa, de modo que qualquer coisa se pode tornar uma religião de massas: seja o capitalismo, seja o marxismo; seja o sacrifício infantil, seja a defesa da infância...

E a incapacidade para perceber isto - tal como a incapacidade para perceber que perceber isto não corresponde a nenhuma defesa do relativismo - significa a incapacidade para perceber que o processo de adesão se assemelha a uma manipulação. Ideias como a de que "há crenças racionais" e crenças "irracionais", que é possível estabelecer um processo de "iluminismo", "aclaramento" ou "esclarecimento" com base em "pressupostos imparciais, universais e impessoais" - são ideias que continuam a impedir-nos de ver que o nosso ponto de vista está sempre dependente de conteúdos linguísticos e conceptuais que são - e não podem deixar de ser - regionais, datados e localizados, fruto de um processo histórico e cultural... Nem há um ponto de vista puro, livre de conteúdos pressupostos, nem há conteúdos cuja estrutura intrínseca os tornem mais ou menos capazes de provocar a adesão... não há nada na noção de "igualdade", nem na de "fraternidade", por exemplo, que as tornem mais resistentes ao processo histórico, que as tornem intrinsecamente mais capazes de provocar a adesão... Isto não significa que a noção de "fraternidade" seja equivalente, do ponto de vista moral, à noção de "vingança" - pelo contrário: significa que aqueles que efectivamente se vêem a si mesmos por esta ideia e unidos por esta ideia têm de pôr as mãos à obra, praticar a "fraternidade" e procurar difundi-la por todos os meios próprios à própria ideia de fraternidade em vez de acreditar num milagroso deus ex machina que fará com que a fraternidade acabe por ganhar à vingança!



Mas isto deve, também, lembrar-nos que a Fraternidade não ganhará se andarmos a gritar a palavra aos oito ventos, a cunharmos nas moedas, a projectarmos nos monumentos mas praticarmos activamente a Vingança.

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