sábado, 28 de abril de 2012

Virgem ou Jovem? - Isaías 7:14 e Mateus 1:23: a polémica!

A propósito da Bíblia...

O conhecido caso da virgindade da Virgem Maria aparece em filmes e livros. Por exemplo no filme Snach - Porcos e Diamantes, ou no livro O último segredo, de José Rodrigues dos Santos.

O caso parece ser simples de explicar: a virgindade de Maria resulta do escrúpulo dos evangelistas em tentarem fornecer a cada momento suporte no Antigo Testamento que sustente as suas pretensões quanto ao estatuto messiânico de Jesus. Ou seja, citando e interpretando o Antigo Testamento, tentam apontar indícios de que Jesus estava justificado pelos profetas. Desse modo, Jesus era apresentado como tendo sido profetizado no Antigo Testamento.

Onde se encontra a afirmação de que Jesus nascera de uma virgem? De facto esta informação é-nos fornecida por São Mateus 1:23 e também em São Lucas 1:34.

Contudo, São Marcos, mais antigo que São Mateus e São Lucas, bem como São Paulo, cujas cartas são ainda anteriores ao próprio São Marcos, não mencionam esta peculiaridade.

Em termos de credibilidade a virgindade de Maria fica seriamente abalada por estas omissões. Por que haveriam, São Marcos e São Paulo, cujos textos são cronologicamente anteriores a São Mateus e São Lucas, de esquecer um facto tão marcante quanto a virgindade de uma mãe? A questão não é saber se realmente Maria era virgem, pois mesmo que todas as fontes o afirmassem, provavelmente não teríamos ainda encontrado uma prova suficiente. Neste ponto lidamos com matéria de fé, pois no nosso mundo de hoje apenas a fé, que não busca provas, poderia aceitar um facto deste tipo. O ponto é saber se a tradição da virgindade da mãe de Jesus estava já instituída, ou não, à data da formação do Evangelho segundo São Marcos e da escrita das epístolas de Paulo. Parece que não.

De onde, então, surgiu essa tradição? Ou, porquê?
São Marcos parece mais preocupado em descrever acontecimentos. Utiliza-os como forma de assegurar a autoridade de Jesus. Multiplica os milagres, mas não estabelece propriamente um pensamento teológico, como o faria São João, ou como também o soube fazer São Paulo. São Marcos não se preocupou tanto como Mateus em encontrar na tradição apoio, pois preferiu afirmar a novidade de Jesus. Mas São Mateus tem preocupações mais amplas e começa desde logo por assegurar uma linhagem a Cristo, estabelecendo a sua genealogia. E prossegue referenciando abundantemente o Antigo Testamento, com um zelo que não foi o de Marcos. Por outro lado, Paulo parece simplesmente ignorar a afirmação da virgindade de Maria. Tanto quanto podemos dizer, Paulo nunca ouviu tal.

E assim, com a intenção de encontrar as profecias que financiassem a autoridade de Jesus, apresentando-o como um destino sabiamente predito pelos profetas da tradição judaica, São Mateus citaria Isaías, mais concretamente, capítulo sétimo, versículo décimo-quarto. Esta citação encontra-se em São Mateus 1:23, e no grego reza assim:

ἰδοὺ ἡ παρθένος ἐν γαστρὶ ἕξει καὶ τέξεται υἱόν, καὶ καλέσουσιν τὸ ὄνομα αὐτοῦ Ἐμμανουήλ, ὅ ἐστιν μεθερμηνευόμενον Μεθ' ἡμῶν ὁ θεός.

Ora, podemos traduzir estas palavras assim:

“«Olhai, a virgem ficará de barriga e trará ao mundo um filho e chamar-lhe-ão o seu nome: Emmanuel», o que é traduzido por: «Deus connosco».”

A negrito realçamos a palavra que nos interessa: virgem. É isso que consta no grego: παρθένος, parthénos. A expressão ἡ παρθένος significa a virgem, sem dúvida. Em Atenas ainda hoje existe o Parthenon, monumento cujo nome significa da virgem, porque a deusa a que era votado, Palas Atena, era virgem.
A passagem de São Mateus cita impecavelmente as palavras que constam no Antigo Testamento, Isaías 7:14, e que, em grego, são as seguintes:

διὰ τοῦτο δώσει κύριος αὐτὸς ὑμῖν σημεῖον• ἰδοὺ παρθένος ἐν γαστρὶ ἕξει καὶ τέξεται υἱόν, καὶ καλέσεις τὸ ὄνομα αὐτοῦ  Ἐμμανουήλ

Sublinhámos a expressão citada por Mateus. Esquecemos aqui as divergências entre as edições e os manuscritos, que não são significativas, não ligamos à discussão de como escrever Ἐμμανουήλ (que não é palavra grega) e passamos imediatamente à tradução:

"Por isso o próprio Senhor vos oferecerá um indício: «Olhai, a virgem ficará de barriga e trará ao mundo um filho e chamar-lhe-ás o seu nome: Emmanuel»."


A citação é evidente:

AT: ἰδοὺ ἡ παρθένος ἐν γαστρὶ ἕξει καὶ τέξεται υἱόν, καὶ καλέσεις τὸ ὄνομα αὐτοῦ  Ἐμμανουήλ
Mt: ἰδοὺ ἡ παρθένος ἐν γαστρὶ ἕξει καὶ τέξεται υἱόν, καὶ καλέσουσιν τὸ ὄνομα αὐτοῦ Ἐμμανουήλ

Em ambos figura a expressão ἡ παρθένος, a virgem. O desejo de fundamentar as pretensões cristãs nos textos da tradição deve ter estado na origem da tradição da virgindade de Maria. E, provavelmente, não foi estabelecida desde início, nem em todas as comunidades. A difusão desta ideia deve ter demorado algum tempo. 

Mas a curiosidade mais interessante não se fica por aqui. O texto citado por São Mateus era grego, contudo Isaías não foi escrito originalmente em grego, mas em hebraico. Portanto, isto significa que São Mateus citou uma tradução. Importa saber se a tradução foi acurada. 

Em hebraico o texto que consta é o seguinte (Isaías 7:14):

לכן יתן אדני הוא לכם אות הנה העלמה הרה וילדת בן וקראת שמו עמנו אל

Mantemos a negrito o termo que foi traduzido por  παρθένοςהעלמהha'almah, a virgem. Portanto, o termo que está, de facto, no hebraico é: עלמה, ou עַלְמָה, que se translitera assim: almah.

A Bíblia Sagrada em Português Corrente, da Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), edição de 1993, traduz assim o versículo:

“Pois bem, é o próprio Senhor que vos vai dar um sinal: a jovem mulher está grávida e vai dar à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel, «Deus connosco».”


Não nos interessa discutir a tradução de todo o versículo, mas tão só a tradução de almah. Este termo, ao contrário de παρθένος, pode significar virgem, mas também jovem do sexo feminino, não necessariamente virgem. Ou seja, o termo hebraico pode significar, de facto, virgem, mas também simplesmente jovem. Por isso a tradução por παρθένος não é a mais exímia, uma vez que neste caso não há dúvidas de que se trata de uma virgem.

Contudo, no início da nossa Era já não se falava hebraico e Jesus falou, provavelmente, aramaico. Os autores do Novo Testamento conheciam a tradução grega do Antigo Testamento, chamada Septuaginta, ou seja, dos Setenta, pois resultara do trabalho de setenta sábios (ou melhor, setenta e dois). Portanto, ou São Mateus não lera o texto hebraico, ou desconhecia-o por completo, tendo contactado apenas com o texto da Septuaginta, ou a interpretação dos setenta tornara-se matricial, prioritária, enformando a própria forma de ler o hebraico (na verdade, pelo menos alguns dos judeus da Palestina ainda sabiam hebraico). A versão dos setenta foi muito importante para os primeiros cristãos, ainda que alguns deles soubessem hebraico ou conhecessem os textos hebraicos, pois o cristianismo difundiu-se, principalmente, em língua grega. A Septuaginta apresentava a versão que acima transcrevemos. De certa forma podemos dizer com alguma fidelidade que a virgindade de Maria resultou de um erro de tradução.

A intenção de legitimar a autoridade de Jesus, conciliada com a tentação de demonstrar a sua divindade e a ausência de pecado na sua concepção, pode ter ajudado a solidificar a ideia da virgindade de Maria. Contudo, esta não parece ter surgido desde início, e provavelmente algumas tradições desconheceram-na durante bastante tempo. Talvez não fosse um aspecto considerado suficientemente verosímil, ou importante, ou nem uma nem outra coisa. Ainda assim, esta ideia surge também noutros textos não canónicos. Os apócrifos Protoevangelho de Tiago e Ascensão de Isaías contêm o relato do nascimento virginal.

6 comentários:

  1. O termo hebraico se assemelha ao nosso vocabulário por donzela, senhorita, o que, automaticamente nos remete a uma mulher virgem, pois, o sexo não era banalizado como agora...

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Muito obrigado pelo comentário.

      Desculpe-me, mas onde encontrou essa informação? Não tenho conhecimento de nenhuma época em que o sexo não tenha estado banalizado. Essa ideia não tem fundamento histórico. Mas, mais importante do que isso, como deve saber, antigamente (e nem é preciso recuar até ao tempo em que estes versos talvez tenham sido escritos) as mulheres deixavam de ser virgens muito cedo. Muito cedo mesmo (13 anos já era para ser mãe). Note também que simplesmente não é verdade que o termo hebraico remeta para a virgindade, porque essa interpretação nunca fora feita antes - só surgiu DEPOIS e COM a tradução para o grego...

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    3. NO BRASIL, HÁ ALGUNS ANOS ATRÁS O SEXO NÃO ERA BANALIZADO. NO SEIO DAS FAMÍLIAS, A VIRGINDADE ERA VALORIZADA COMO VIRTUDE. E EM MUITAS OUTRAS. CLARO QUE ENTRE ALGUNS, OU ALGUMAS FAMÍLIAS, TAIS VALORES NÃO IMPORTAVAM. O FATO DE MARIA SER VIRGEM É VERDADEIRO POIS A PALAVRA DE DEUS AFIRMA. MAS SE NÃO AFIRMASSE O SENHOR TIVESSE NASCIDO DE UMA MULHER PERVERTIDA ISSO NÃO MUDARIA SEU PODER DE REDIMIR OS QUE NELE CREEM. COMO DIZ A BÍBLIA: OS INCRÉDULOS NÃO CRERÃO AINDA QUE OS MORTOS RESSUSCITEM. QUE O SENHOR POSSA TE ALCANÇAR, COMO ME ALCANÇOU, POIS JÁ FUI INCRÉDULO TAMBÉM. A PAZ DO SENHOR JESUS..

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  2. Luis Mendes, entendo a sua preocupação em provar e estudar profundamente as traduções, mas não posso deixar de afirmar que você não foi coerente ao afirmar no final do penúltimo parágrafo: "De certa forma podemos dizer com alguma fidelidade que a virgindade de Maria resultou de um erro de tradução.", porque a tradução não pôde afirmar ou negar, portanto, não é determinante sobre a virgindade de Maria. Substituir virgem por jovem torna imparcial o conceito da virgindade, mas, se não o afirma, também não o nega. E não é apenas esse trecho que nos revela a virgindade de Maria. Em Lc 1,34 a virgem Maria pergunta ao anjo como se fará isso, pois NÃO CONHECE HOMEM ALGUM e o anjo explica que o Espírito Santo a envolverá com a sua sombra e que por isso será chamado Filho de Deus. O anjo, que representa o próprio Deus, já explica a sua imaculada conceição, quando ela mesma o questionou como se faria. Porque precisamos tentar descobrir se ela concebeu de um homem, se está descrito conforme a explicação do ANJO DO SENHOR. Deus escolheu Maria, porque ela tinha a graça de Deus (sem precisar discutir sobre cheia de graça ou agraciada). E, digamos, Maria e nem ninguém questionaria o anjo de Deus acerca de como se faria isso, sem trazer um testemunho verdadeiro.

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  3. "não é apenas esse trecho que nos revela a virgindade".

    Bem, a questão não é haver muitos trechos do Novo Testamento, ou haver poucos, ou haver só um trecho em que a virgindade de Maria é mencionada. A questão é saber até que ponto essa perspectiva - que chegou aos evangelistas - está dependente daquela tradução, isto é, da tradução dos Setenta.
    Quer dizer: o facto de a virgindade ser mencionada em várias passagens no Novo Testamento não assegura diversos testemunhos, pois podem estar dependentes todas elas, da Septuaginta.

    Como disse, ainda que alguns dos primeiros cristãos soubessem hebraico ou conhecessem os textos hebraicos, o cristianismo difundiu-se, principalmente, em língua grega. Neste contexto, a Septuaginta tornou-se um texto bastante importante. Comparando o Novo Testamento com a Septuaginta e com os textos hebraicos do Antigo Testamento dá para perceber que grande parte das citações são feitas com base na tradução grega. É provável que, em muitos casos, já não se conhecesse o texto original - e até que a própria interpretação do texto original já estivesse dependente da tradução grega.

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