A propósito de, causa e efeito...
A questão é complexa e tem de ser compreendida correctamente, o que, só por si, pode ser difícil. A sua resolução parece ainda ser mais complexa. Mas, afinal, que se passa com a "matéria" ao nível subatómico?
Bem, o nosso acesso habitual ao mundo que nos rodeia é um olhar preocupado com a lida quotidiana e os nossos afazeres, de tal modo que estamos equipados de forma a obviar "rugas" da realidade. Tal como um quadro que parece perfeito, mas que quando nos aproximamos revela traços de antiguidade, tinta estalada, manchas nas cores. A nossa apreensão do mundo e do universo tem uma forma: a forma do nosso acesso ao mundo e ao universo. E esse acesso é naturalmente linear: nós assumimos naturalmente que as coisas acontecem numa ordem sucessiva, e segundo uma ordem causal mais ou menos restrita. Os próprios mitos, as magias dos xamãs, etc., são formas de pensar causalmente o mundo. E, quando ainda hoje se atribuem os trovões a uma qualquer divindade, há tanta causalidade aí como na lei da gravidade ou do atrito: só mudam os "agentes".
Contudo, a ordenação e organização do mundo num esquema único e universal, não contraditório nem paradoxal, levou muito tempo e exigiu o esforço de muitas civilizações. O desenvolvimento de métodos cada vez mais eficazes de procurar relações entre causas e efeitos cada vez mais próximas originou aquilo a que chamamos ciência: hoje a causa da chuva já não é o pensamento irado de uma entidade acima dos homens, mas relações muito "mais estreitas".
A compreensão da questão que começamos por colocar, começa desde logo por aqui. Será que se avançou alguma coisa nesse estreitamento entre causa e efeito? Quando eu afirmo que a causa do fogo foi o fósforo estou ainda longe do mecanismo estreito de ignição. O fósforo é uma causa ainda longínqua. O fósforo é composto por materiais, os quais interagiram com outras substâncias, originando fogo. O próprio termo "fogo" designa o comportamento de certas substâncias, a interacção entre matéria e energia, de forma muito estreita e difícil de compreender, ao contrário da facilidade com que dizemos "fogo". Ora, à medida que vamos explicando cada vez mais processos, vamos decompondo um processo, noutros mais pequenos. Transformamos a relação entre a causa X e o efeito Y (X-->Y), num número maior de relações entre causas e feitos (X=a+f; a-->b;b-->c; f-->g;g-->h; c+h=Y). Assim, no início pensávamos que X originava Y, mas percebemos que X é, na verdade, a combinação de "a" e "f", sendo que estes desencadeiam uma sucessão de eventos que desembocam em "p".
Ora, antes de percebermos o que este "avanço" científico significa, devemos questionar o que não significa. a) Não significa que existe um mundo exterior e independente da experiência que, no início mágico e saltitante, se tornou rigoroso e sistemático - tanto quanto sabemos, o mundo são "se tornou" científico, por assim dizer. b) Não significa que existe um sujeito conhecedor, capaz de experienciar, o qual no início não tinha uma compreensão causal, mas que evoluiu no sentido de a adquirir.
Então, que é que significa? Bem, significa que existiu um desenvolvimento (independentemente de se tratar de um progresso ou não) da nossa compreensão, mas não necessariamente uma alteração do nosso modo de compreender. Tanto quanto sabemos, o mundo não criou novas leis, não alterou as suas forças. Tanto quanto sabemos o ser humano não começou, de repente, a desenvolver um olhar causal sobre o mundo. Enfim, aconteceu que o ser humano, aparentemente dotado de um olhar que procura relações entre eventos, estabeleceu cada vez mais relações entre eventos no mundo. Ou seja, o ser humano, procurando relações de causa e efeito, detectou cada vez mais relações deste tipo e desdobrou, assim, relações em cada vez mais relações. É possível que o ser humano tenha, por isto, passado a olhar para o mundo de uma nova maneira, de uma maneira científica, mas isso não significa que o modo dos xamãs não fosse também um modo causal de ver as coisas.
Acontece, contudo, que por mais que desdobremos um acontecimentos em acontecimentos mais simples, por mais que desdobremos cada vez mais o mundo, continuamos sempre a embater nessas categorias: causa e efeito. E, por mais que desdobremos uma causa em muitas causas, por mais que identifiquemos milhentas fases intermédias, que são elas mesmas causas e efeitos, ficamos sempre com este salto: de uma causa para um efeito. Ora, de um ponto de vista estritamente filosófico, um salto é um salto: há, de facto, um hiato entre uma causa e um efeito. Ou seja, para explicarmos como é que X origina Y, teremos que desdobrar X ou Y, mas ficaremos novamente com alguns X que originam Y, e o problema é, precisamente, o facto de que um X "origina" Y. No final da cadeia ficaremos com reacções básicas, as quais não temos como explicar (e se as explicarmos ficaremos com outras mais básicas, essas sim, inexplicáveis). Portanto, coloca-se a questão: por que é que as coisas são assim, e não de outra maneira?
Depois surge outro problema. Para que o mundo possa ser consistente, essas relações têm que ser explicadas por sistemas gerais que integrem a vasta gama de eventos possíveis. Assim falam de leis gerais e de forças fundamentais. Note-se que, quando os cientistas identificam 4 forças fundamentais que gerem todo o universo, permanece a questão: porquê essas quatro e não outras quaisquer? Mesmo que os cientistas consigam, um dia, fazer resumir essas 4 a uma única força, da qual essas quatro são meras apresentações, a questão permanece: porquê essa força? Houve, no entanto, um aspecto que passou despercebido: é o nosso modo de acesso ao mundo que tem esta forma. Será que, no que ao mundo "diz respeito", é necessária uma razão? Se o mundo tem uma ordem física interna, é necessário identificar uma causa para isso? Será necessário que o mundo exista por uma razão? Não estaremos aqui a fazer corresponder a noção geral de causa, a um certo tipo de causa, a "intenção"?
Resumindo os avanços do nosso inquérito: não é certo que o acumular de identificações de causa e efeito corresponda a um estreitamento entre as causas e os efeitos (há aí ainda um salto, que não parece sanável, entre causa e efeito); o acumular de "saber" científico não prova que o mundo seja científico, nem que o nosso paradigma científico seja o verdadeiro (a ciência é um modo de inquirição, de explicação, de saber humano - é o homem que conhece).
Eu posso encontrar 10 explicações para um mesmo evento, e todas elas "explicarem" esse evento. A questão não é encontrar explicações, mas sim encontrar explicações que possam ser generalizáveis e que, depois de generalizadas, podem ser testadas (tem de se conseguir formular testes em que seja possível verificar-se a confirmação e a refutação. Se não há forma de refutar uma teoria, então ela não é científica. A gravidade é uma hipótese científica, não porque é continuamente confirmada, mas porque somos capazes de a testar. Não é o facto de explicar as coisas que faz dela uma teoria científica. Eu poderia afirmar que as coisas caiem para a Terra porque a Terra é um deus invejoso, que quer possuir muitas coisas. Afirmaria, então, que podemos ver isso por todo o lado, a qualquer hora: tudo aquilo que a Terra vê e quer, ela atrai-o, mas aparentemente não gosta de balões com hélio. Mas não teria como testar esta teoria. Se as teorias resistem aos testes sem serem refutadas, permanecem válidas. No entanto, se não forem refutadas, se forem continuamente verificadas, não se prova que sejam "verdadeiras". Uma lei permanece aceite enquanto não se encontrarem suficientes casos que a contradigam. Mas enquanto ela permanece verificada, nada nos garante que não possa vir a ser refutada. Na verdade, a ciência evoluiu assim: com constantes refutações de teorias, e as refutações foram responsáveis por grande parte do nosso conhecimento actual.
Continua em:
http://discutirfilosofiaonline.blogspot.com/2011/10/o-gato-de-schrodinger-iv.html
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O gato de Schrödinger II
A propósito de, o electrão...
Bem, o que Schödinger tentou mostrar não foi a hipótese extraordinária dos gatos poderem estar vivos e mortos ao mesmo tempo. Ele utilizou o ridículo de uma tal assumpção para se referir à assumpção da existência de superestados ou superposições em que as partículas subatómicas se pudessem encontrar.
O termo superposição parece referir-se, em Física, às situações em que uma "partícula" subatómica deve ser considerada como estando em mais do que um estado ou ocupando mais do que um lugar, no mesmo instante. Há muitos exemplos que podem ser dados, mas o mais conhecido é o caso do electrão, o qual, num dado instante, pode estar a mover-se num ou noutro sentido em torno de um núcleo. Para se referirem aos electrões em torno de um núcleo os cientistas utilizam, por vezes, a noção de núvem. Núvem porque "não podemos" determinar em que ponto se encontra o electrão e temos de o admitir num conjunto de pontos, os quais, ao serem representados, aparentam uma núvem. (Entretanto, algumas palavras são colocadas entre comas, precisamente porque o seu significado e mesmo utilização é discutível e dúbio entre a comunidade científica.)
Ora, se o gato não pode estar simultaneamente vivo e morto, será que o electrão pode estar simultaneamente num conjunto "núvem" de pontos? Note-se que esta é uma questão científica, pois é uma pergunta empírica: dirige-se ao que nos aparece pelos sentidos e questiona um dado aparecimento, um fenómeno. Mas é simultaneamente uma questão filosófica/metafísica, pois, em última análise, questiona a própria essência da natureza. E é ainda uma questão filosófica/epistemológica, pois questiona a natureza e o modo de conhecimento válido: quais serão as implicações da admissão de que a matéria, na sua mais básica apresentação, é essencialmente indeterminável?
Continua em:
http://discutirfilosofiaonline.blogspot.com/2011/10/o-gato-de-schrodinger-iii.html
Bem, o que Schödinger tentou mostrar não foi a hipótese extraordinária dos gatos poderem estar vivos e mortos ao mesmo tempo. Ele utilizou o ridículo de uma tal assumpção para se referir à assumpção da existência de superestados ou superposições em que as partículas subatómicas se pudessem encontrar.
O termo superposição parece referir-se, em Física, às situações em que uma "partícula" subatómica deve ser considerada como estando em mais do que um estado ou ocupando mais do que um lugar, no mesmo instante. Há muitos exemplos que podem ser dados, mas o mais conhecido é o caso do electrão, o qual, num dado instante, pode estar a mover-se num ou noutro sentido em torno de um núcleo. Para se referirem aos electrões em torno de um núcleo os cientistas utilizam, por vezes, a noção de núvem. Núvem porque "não podemos" determinar em que ponto se encontra o electrão e temos de o admitir num conjunto de pontos, os quais, ao serem representados, aparentam uma núvem. (Entretanto, algumas palavras são colocadas entre comas, precisamente porque o seu significado e mesmo utilização é discutível e dúbio entre a comunidade científica.)
Ora, se o gato não pode estar simultaneamente vivo e morto, será que o electrão pode estar simultaneamente num conjunto "núvem" de pontos? Note-se que esta é uma questão científica, pois é uma pergunta empírica: dirige-se ao que nos aparece pelos sentidos e questiona um dado aparecimento, um fenómeno. Mas é simultaneamente uma questão filosófica/metafísica, pois, em última análise, questiona a própria essência da natureza. E é ainda uma questão filosófica/epistemológica, pois questiona a natureza e o modo de conhecimento válido: quais serão as implicações da admissão de que a matéria, na sua mais básica apresentação, é essencialmente indeterminável?
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011
O gato de Schrödinger
A propósito de, gato de Schrödinger...
Em 1935, Schrödinger tentou esclarecer a Física Quântica recorrendo a uma "experiência mental" (uma experiência hipotética - não se pode executar, mas pensar nela permite-nos calcular respostas a certos problemas).
Esta experiência consistia numa caixa que continha um engenho mortal e um gato vivo. Um material radioactivo seria adicionado à caixa, sendo que esse material, durante uma hora, teria 50% de probabilidades de libertar uma partícula. Dentro da caixa estaria, também, um martelo ligado a um detector de partículas, e um recipiente com um gás letal. Se o material radioactivo libertasse uma partícula, esta seria detectada e o martelo accionado, de tal forma que o recipiente contendo o gás letal seria partido e o gato morreria.
Durante a hora em que a experiência durasse como responderíamos se nos colocassem a questão: "em que estado está o gato?" Estaria o gato vivo ou morto?
Tanto quanto poderíamos saber, o gato estaria tão morto quanto vivo, estaria no estado vivo-morto.
Schrödinger imaginou esta experiência para mostrar a absurdidade da teoria quântica. Ele queria mostrar quanto a teoria quântica era estúpida. Quando se abrisse a caixa, então saberíamos, de facto, o estado do gato. Mas, enquanto a caixa permanecesse celada,..., bem, o gato estaria vivo e morto. Esta era a interpretação do círculo de físicos de Copenhaga: que as partículas subatómocas poderiam estar num estado particular em que estão em dois estados.
Esta experiência é muito interessante porque relaciona o mundo subatómico com coisas que qualquer um pode compreender. Schrödinger mostra o ridículo de afirmar que um electrão pode estar em dois estados ou pontos ao mesmo tempo, mostrando como é ridículo afirmar que um gato pode estar metade morto e metade vido, vivo e morto ao mesmo tempo.
A interpretação exacta desta experiência varia entre os físicos e os filósofos, e neste ponto estamos já no domínio da Filosofia.
É que, tanto quanto sabemos, há quatro forças fundamentais na natureza: gravidade, electromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca. A gravidade regula o comportamento dos corpos que podemos observar: os planetas, nós próprios, etc. Mas quando falamos do mundo subatómico, então a gravidade parece não se aplicar.
A gravidade irá um dia levar os planetas do sistema solar para o sol. A gravidade vencerá. Não imaginamos, contudo, que um electrão seja sugado para o núcleo... Ao nível subatómico a gravidade parece não se aplicar, e desde Einstein que os físicos não conseguem, de forma consistente e paradigmática, conciliar o mundo da gravidade e o mundo electromagnético. Ora, evidentemente, trata-se do mesmo mundo. Os planetas, que se comportam segundo a gravidade, são compostos por partículas subatómicas, que respeitam as outras três forças. É o mesmo mundo, portanto tem de existir uma forma de unificar a teoria quântica (subatómica) e a teoria da relatividade. Tem de ser possível compreender numa teoria (ou, para começar, em duas que não se oponham) o mundo subatómico e o mundo atómico (para dizer assim).
Esta experiência mental fala do mundo subatómico em termos do mundo atómico. Fala de partículas usando um gato. E, deste modo, diz-nos que afirmar que um electrão pode estar em dois estados simultaneamente é absurdo, tal como um gato não pode encontrar-se num super-estado simultaneamente vivo e morto.
Continua em:
http://discutirfilosofiaonline.blogspot.com/2011/10/o-gato-de-schrodinger-ii.html
Em 1935, Schrödinger tentou esclarecer a Física Quântica recorrendo a uma "experiência mental" (uma experiência hipotética - não se pode executar, mas pensar nela permite-nos calcular respostas a certos problemas).
Esta experiência consistia numa caixa que continha um engenho mortal e um gato vivo. Um material radioactivo seria adicionado à caixa, sendo que esse material, durante uma hora, teria 50% de probabilidades de libertar uma partícula. Dentro da caixa estaria, também, um martelo ligado a um detector de partículas, e um recipiente com um gás letal. Se o material radioactivo libertasse uma partícula, esta seria detectada e o martelo accionado, de tal forma que o recipiente contendo o gás letal seria partido e o gato morreria.
Durante a hora em que a experiência durasse como responderíamos se nos colocassem a questão: "em que estado está o gato?" Estaria o gato vivo ou morto?
Tanto quanto poderíamos saber, o gato estaria tão morto quanto vivo, estaria no estado vivo-morto.
Schrödinger imaginou esta experiência para mostrar a absurdidade da teoria quântica. Ele queria mostrar quanto a teoria quântica era estúpida. Quando se abrisse a caixa, então saberíamos, de facto, o estado do gato. Mas, enquanto a caixa permanecesse celada,..., bem, o gato estaria vivo e morto. Esta era a interpretação do círculo de físicos de Copenhaga: que as partículas subatómocas poderiam estar num estado particular em que estão em dois estados.
Esta experiência é muito interessante porque relaciona o mundo subatómico com coisas que qualquer um pode compreender. Schrödinger mostra o ridículo de afirmar que um electrão pode estar em dois estados ou pontos ao mesmo tempo, mostrando como é ridículo afirmar que um gato pode estar metade morto e metade vido, vivo e morto ao mesmo tempo.
A interpretação exacta desta experiência varia entre os físicos e os filósofos, e neste ponto estamos já no domínio da Filosofia.
É que, tanto quanto sabemos, há quatro forças fundamentais na natureza: gravidade, electromagnetismo, força nuclear forte e força nuclear fraca. A gravidade regula o comportamento dos corpos que podemos observar: os planetas, nós próprios, etc. Mas quando falamos do mundo subatómico, então a gravidade parece não se aplicar.
A gravidade irá um dia levar os planetas do sistema solar para o sol. A gravidade vencerá. Não imaginamos, contudo, que um electrão seja sugado para o núcleo... Ao nível subatómico a gravidade parece não se aplicar, e desde Einstein que os físicos não conseguem, de forma consistente e paradigmática, conciliar o mundo da gravidade e o mundo electromagnético. Ora, evidentemente, trata-se do mesmo mundo. Os planetas, que se comportam segundo a gravidade, são compostos por partículas subatómicas, que respeitam as outras três forças. É o mesmo mundo, portanto tem de existir uma forma de unificar a teoria quântica (subatómica) e a teoria da relatividade. Tem de ser possível compreender numa teoria (ou, para começar, em duas que não se oponham) o mundo subatómico e o mundo atómico (para dizer assim).
Esta experiência mental fala do mundo subatómico em termos do mundo atómico. Fala de partículas usando um gato. E, deste modo, diz-nos que afirmar que um electrão pode estar em dois estados simultaneamente é absurdo, tal como um gato não pode encontrar-se num super-estado simultaneamente vivo e morto.
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Animais
A propósito de, poesia...
Que animal está aqui em causa:
He clasps the crag with crooked hands;
Close to the sun in lonely lands.
Ringed with the azure world he stands.
The wrinkled sea beneath him crawls;
He watches from his mountain walls.
And like a thunderbolt he falls.
Alfred Lord Tennyson
Parece-me um poema muito interessante. Sobretudo, a forma como o animal é sugerido: como um deus - apetece dizer.
Agora, mais um poema.
A lord of the seas
Faster than a bullet
He never sleeps.
Death takes orders from him.
Fear is his vassal
The Ocean his vessel.
His teeth are swords
Ready to tear you apart.
Luís Mendes e Inês Marques
Que animal é este?
Que animal está aqui em causa:
He clasps the crag with crooked hands;
Close to the sun in lonely lands.
Ringed with the azure world he stands.
The wrinkled sea beneath him crawls;
He watches from his mountain walls.
And like a thunderbolt he falls.
Alfred Lord Tennyson
Parece-me um poema muito interessante. Sobretudo, a forma como o animal é sugerido: como um deus - apetece dizer.
Agora, mais um poema.
A lord of the seas
Faster than a bullet
He never sleeps.
Death takes orders from him.
Fear is his vassal
The Ocean his vessel.
His teeth are swords
Ready to tear you apart.
Luís Mendes e Inês Marques
Que animal é este?
Poesia e Filosofia
A propósito de, Poesia e Filosofia
Mantenho a séria determinação em defender que a Filosofia e a Poesia se distinguem essencialmente.
Tal como o conceito de "mamífero" se distingue do conceito de "ser voador": há mamíferos que são seres voadores, mas trata-se de um incidente. Nada no conceito de mamífero implica voar, nada no conceito de voador implica mamar. Os patos não mamam, os gatos não voam. Ainda assim, há, de facto, morcegos.
Ora, é comummente aceite que, da existência dos morcegos não se infere que exista algo na essência de "mamífero" que se relacione essencialmente com o que é essencial no "ser voador". Mais do que isso: o facto de algo voar não quer dizer que tenha propensão para mamar. Por outro lado, acontece que raros são os animais voadores que mamam, de tal forma que, se nos dizem que um certo animal, do qual só conhecemos o nome, é voador, podemos inferir, com bastantes probabilidades de acertarmos, que não se trata de um mamífero.
Claro que não podemos estar certos de que esse ser voador não seja mamífero, mas a experiência diz-nos: na maioria dos casos observados, os seres que voam não são mamíferos.
Nesta órbita de ideias, se me dizem que um determinado texto é poético, então assumo que não se trata de Filosofia. Tal como, se um autor é poeta, então assumo que não seja filósofo. A minha experiência diz-me que, na maioria dos caos, a poesia não é Filosofia, tal como os seres voadores normalmente não mamam. Claro que, tal como a Filosofia nos ensina, não devemos assumir que o hábito seja uma lei, nem que as leis sejam confirmadas a cada novo caso. Pode sempre existir uma excepção, podemos não compreender correctamente a lei, o hábito por ter sido um acaso casualmente repetido. Na verdade há morcegos, que voam e mamam. Também é verdade que há estrofes que resumem um ensaio.
Na literatura, mais do que na Zoologia/Biologia, cai-se no erro de afirmar que os seres voadores participam da mesma essência que os mamíferos. Ninguém pretende afirmar que um ser voador é, na sua essência, um mamífero, mesmo quando não o parece à primeira vista. Nunca nenhum biólogo tentou demonstrar que uma gaivota, na verdade, bem ponderadas as coisas, é um mamífero. Por outro lado, surjem pessoas que julgam que a Poesia é essencialmente Filosofia.
Pode fazer-se filosofia com poesia, mas a essência da Poesia é outra. Não é necessário que a Poesia seja filosófica para ser Poesia. Mas quando se insiste na suposta convergência, pode convergir-se para o erro (tal como a suposta e intrigante convergência da Filosofia com a Religião, a qual é defendida tantas vezes). É que a Filosofia é, essencialmente, uma crítica sistemática e metódica, que não pode abdicar do rigor racional e exigente. Na Filosofia não queremos afirmações vãs, queremos argumentos, não queremos aforismos, queremos raciocínios. Queremos que os Filósofos apresentem as premissas, que não as ocultem. O filósofo deve esclarecer os conceitos que usa. Nunca deve tentar convencer, mas essenciamente demonstrar. O filósofo não quer mostrar que sabe falar bem, não quer vencer todos os debates, não quer prender a atenção. Ou: ele pode ser isso tudo, mas não é isso que faz dele um filósofo. Não é o falar bem, o conhecer muitas palavras, apresentar frases que chamam a atenção e que convencem - não é isso que faz dele um filósofo. A regra da Poesia é a liberdade - relativamente a todas as regras. É um jogo, um jogo estético. O seu campo é o do gosto, mais ou menos esclarecido, do vernáculo ao erudito. A Filosofia sem rigor, sem método, sem crítica, sem clareza - bem, já não é Filosofia. A clareza da Filosofia dificulta os artifícios poéticos mais excelentes. É de facto possível ser filósofo ao fazer poesia, mas não há nada na poesia que faça de alguém um filósofo.
Dito isto: não sou tão radical como Platão. Gosto de poesia e reconheço que há poetas filósofos, desde logo a começar com Fernando Pessoa. Mas no ensino oficial da Filosofia parece-me que é cada vez mais útil mostrar as diferenças entre Poesia e Filosofia, do que enaltecer as semelhanças. Talvez seja mais importante mostrar as semelhanças com a ciência, evidenciar que as ciências foram tratadas como vergônteas da Filosofia durante séculos. Claro que, mais uma vez, é também útil desenhar os limites que as separam.
Apesar de tudo, o espírito que hoje passeia nas escolas entre os alunos talvez precise mais de se admirar perante a semelhança Filosofia-Ciência do que de se estarecer perante a semelhança Filosofia-Poesia (a qual me parece soberbamente duvidosa). Não quero dizer que seja fácil fazer poesia e difícil fazer ciência, como se Camões favorecesse o facilitismo e Einstein o esforço. Mas convenhamos: a Filosofia tem pouco que ver com a contrução de uma epopeia, de um belo verso, ou de uma estrofe admirável. O poeta diz muitas verdades sem as compreender, mas não será a Filosofia precisamente um esforço de compreensão, de questionamento?
Também aqui encontramos excepções: "Nietzshe, com toda a certeza, omitiu muitas das suas premissas, preocupou-se mais com a apresentação de conclusões" - estará talvez o leitor a pensar. E eu, que penso em Nietzsche como um dos maiores filósofos de sempre, reconheço nele um exemplo de uma gloriosa excepção. Ainda assim, uma excepção. E, contudo, não teria ele evitado tantas divergências, confusões e paradoxos entre os seus seguidores e interpretes se tivesse sido mais rigoroso na apresentação das premissas e na explicitação das conclusões? Concedo que o "O Nascimento da Tragédia" e o "Assim falava Zaratustra" sejam livros de Filosofia. Concedo que o último (sobretudo o último) desses dois seja um livro de Poesia. Não é aqui o lugar de debater o assunto, mas eu nunca neguei as excepções.
Mantenho a séria determinação em defender que a Filosofia e a Poesia se distinguem essencialmente.
Tal como o conceito de "mamífero" se distingue do conceito de "ser voador": há mamíferos que são seres voadores, mas trata-se de um incidente. Nada no conceito de mamífero implica voar, nada no conceito de voador implica mamar. Os patos não mamam, os gatos não voam. Ainda assim, há, de facto, morcegos.
Ora, é comummente aceite que, da existência dos morcegos não se infere que exista algo na essência de "mamífero" que se relacione essencialmente com o que é essencial no "ser voador". Mais do que isso: o facto de algo voar não quer dizer que tenha propensão para mamar. Por outro lado, acontece que raros são os animais voadores que mamam, de tal forma que, se nos dizem que um certo animal, do qual só conhecemos o nome, é voador, podemos inferir, com bastantes probabilidades de acertarmos, que não se trata de um mamífero.
Claro que não podemos estar certos de que esse ser voador não seja mamífero, mas a experiência diz-nos: na maioria dos casos observados, os seres que voam não são mamíferos.
Nesta órbita de ideias, se me dizem que um determinado texto é poético, então assumo que não se trata de Filosofia. Tal como, se um autor é poeta, então assumo que não seja filósofo. A minha experiência diz-me que, na maioria dos caos, a poesia não é Filosofia, tal como os seres voadores normalmente não mamam. Claro que, tal como a Filosofia nos ensina, não devemos assumir que o hábito seja uma lei, nem que as leis sejam confirmadas a cada novo caso. Pode sempre existir uma excepção, podemos não compreender correctamente a lei, o hábito por ter sido um acaso casualmente repetido. Na verdade há morcegos, que voam e mamam. Também é verdade que há estrofes que resumem um ensaio.
Na literatura, mais do que na Zoologia/Biologia, cai-se no erro de afirmar que os seres voadores participam da mesma essência que os mamíferos. Ninguém pretende afirmar que um ser voador é, na sua essência, um mamífero, mesmo quando não o parece à primeira vista. Nunca nenhum biólogo tentou demonstrar que uma gaivota, na verdade, bem ponderadas as coisas, é um mamífero. Por outro lado, surjem pessoas que julgam que a Poesia é essencialmente Filosofia.
Pode fazer-se filosofia com poesia, mas a essência da Poesia é outra. Não é necessário que a Poesia seja filosófica para ser Poesia. Mas quando se insiste na suposta convergência, pode convergir-se para o erro (tal como a suposta e intrigante convergência da Filosofia com a Religião, a qual é defendida tantas vezes). É que a Filosofia é, essencialmente, uma crítica sistemática e metódica, que não pode abdicar do rigor racional e exigente. Na Filosofia não queremos afirmações vãs, queremos argumentos, não queremos aforismos, queremos raciocínios. Queremos que os Filósofos apresentem as premissas, que não as ocultem. O filósofo deve esclarecer os conceitos que usa. Nunca deve tentar convencer, mas essenciamente demonstrar. O filósofo não quer mostrar que sabe falar bem, não quer vencer todos os debates, não quer prender a atenção. Ou: ele pode ser isso tudo, mas não é isso que faz dele um filósofo. Não é o falar bem, o conhecer muitas palavras, apresentar frases que chamam a atenção e que convencem - não é isso que faz dele um filósofo. A regra da Poesia é a liberdade - relativamente a todas as regras. É um jogo, um jogo estético. O seu campo é o do gosto, mais ou menos esclarecido, do vernáculo ao erudito. A Filosofia sem rigor, sem método, sem crítica, sem clareza - bem, já não é Filosofia. A clareza da Filosofia dificulta os artifícios poéticos mais excelentes. É de facto possível ser filósofo ao fazer poesia, mas não há nada na poesia que faça de alguém um filósofo.
Dito isto: não sou tão radical como Platão. Gosto de poesia e reconheço que há poetas filósofos, desde logo a começar com Fernando Pessoa. Mas no ensino oficial da Filosofia parece-me que é cada vez mais útil mostrar as diferenças entre Poesia e Filosofia, do que enaltecer as semelhanças. Talvez seja mais importante mostrar as semelhanças com a ciência, evidenciar que as ciências foram tratadas como vergônteas da Filosofia durante séculos. Claro que, mais uma vez, é também útil desenhar os limites que as separam.
Apesar de tudo, o espírito que hoje passeia nas escolas entre os alunos talvez precise mais de se admirar perante a semelhança Filosofia-Ciência do que de se estarecer perante a semelhança Filosofia-Poesia (a qual me parece soberbamente duvidosa). Não quero dizer que seja fácil fazer poesia e difícil fazer ciência, como se Camões favorecesse o facilitismo e Einstein o esforço. Mas convenhamos: a Filosofia tem pouco que ver com a contrução de uma epopeia, de um belo verso, ou de uma estrofe admirável. O poeta diz muitas verdades sem as compreender, mas não será a Filosofia precisamente um esforço de compreensão, de questionamento?
Também aqui encontramos excepções: "Nietzshe, com toda a certeza, omitiu muitas das suas premissas, preocupou-se mais com a apresentação de conclusões" - estará talvez o leitor a pensar. E eu, que penso em Nietzsche como um dos maiores filósofos de sempre, reconheço nele um exemplo de uma gloriosa excepção. Ainda assim, uma excepção. E, contudo, não teria ele evitado tantas divergências, confusões e paradoxos entre os seus seguidores e interpretes se tivesse sido mais rigoroso na apresentação das premissas e na explicitação das conclusões? Concedo que o "O Nascimento da Tragédia" e o "Assim falava Zaratustra" sejam livros de Filosofia. Concedo que o último (sobretudo o último) desses dois seja um livro de Poesia. Não é aqui o lugar de debater o assunto, mas eu nunca neguei as excepções.
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