quinta-feira, 24 de março de 2016

Divina Comédia e Ironia

A propósito da Ironia da Divina Comédia


Na porta do Inferno põe Dante as seguintes palavras:
"fecemi la divina podestate,| la somma sapïenza e 'l primo amore".
Divina Comédia, III, 5-6.


O que, em português, verte mais ou menos isto:


"Fez-me a divina potestade,| a sabedoria suprema e o primeiro amor".


Quer dizer: a divina potestade, a sabedoria suprema e o primeiro amor fizeram o Inferno. Ou seja, o Inferno foi feito por Deus.


Estas linhas têm uma conotação forte e múltiplos sentidos podem ser descortinados. Um dos mais evidentes é o de que o Inferno foi feito pelo Amor - não um amor qualquer, mas pelo Primeiro Amor, pelo amor original, pelo Amor de Deus. O amor de Deus fez o Inferno.


E continua: "Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate": "Abandonai toda a esperança, vós que entrais".


Que o local de onde toda a esperança fica arredada se nele alguma vez se entra seja obra do amor é algo que deve fazer-nos ficar estupefactos: talvez Dante esteja a brincar com os conceitos, afinal, o Inferno terá sido feito por Deus, visto que Deus é o Criador e, por isso, também o Inferno teve de ser obra sua - que, então, o deve ter feito em amor parece conceptualmente claro: Deus criou o mundo por amor e com isso criou todas as coisas, as boas, é certo, mas também as más, por isso, o próprio Inferno foi feito por amor na medida em que Deus tudo faça por amor! Também o Inferno foi feito por amor.


Mas Dante vai mais longe... por exemplo: mais à frente, canto V, uma das almas no Inferno, Francesca, acusa o amor da sua situação. Segundo ela, foi por amor que fez aquilo que fez e seguiu o caminho que a levou a estar agora ali, no Inferno.




Alguns prisioneiros talvez se possam identificar com Francesca. O prisioneiro tende a culpar tudo e todos pelas suas acções. Talvez culpe a miséria da sua vida, a injustiça do mundo, as suas necessidades, as necessidades dos seus filhos. Às vezes, quando está na prisão, o prisioneiro pode perceber que está a fazer o mesmo que Francesca.


Francesca culpa o amor pelo facto de estar ali, pois, segundo ela, fez o que fez por amor. Foi o amor que a fez fazer as coisas que fez. Por amor. "O amor que o nosso coração tão rapidamente aprende".


Quando alguém fala com Dante - Dante coloca-se a si mesmo como o protagonista da Divina Comédia, o que, por si só, é de uma fina ironia - é porque Dante tem algo a aprender com o que esse alguém diz.


E o que terá Dante a perceber com Francesca? Dante aprende que há uma proximidade muito perigosa entre o amor e o Inferno. Em múltiplos sentidos. O inferno foi feito pelo amor e Dante verifica que muitas das almas no inferno estão lá por amor.


O que é que se pode fazer por amor? Bem, segundo a Divina Comédia, tudo se faz por amor: até mesmo o Inferno, até mesmo pôr-se a si mesmo a caminho do inferno. Dante precisa de perceber algo com Francesca.

Francesca é uma personagem apelativa - ao contrário de outros condenados no inferno - não é repelente. Somos tentados a simpatizar com ela.

Com Francesca Dante não precisa só de aprender quanto as inclinações nos podem afundar no inferno. O ponto crucial é, justamente, o contrário disso: Dante precisa de compreender que não foi o amor de Francesca que a condenou, que não são as nossas inclinações que nos levam ao inferno. O problema de Francesca é que ele permanece cega para a sua culpa: ela não se compreende na sua culpabilidade, não se julga culpável. Joga a responsabilidade no amor: foi por amor que se perdeu.

Francesca é uma personagem enganadora: por mais charmosa que ela possa parecer-nos, ela está no inferno. Esse é um ponto importante. Ela é culpada porque não pode absolver-se da sua própria responsabilidade em virtude das suas inclinações. As inclinações não decidem. O amor de Francesca não tomou decisão alguma: foi Francesca que tomou as suas decisões. A Francesca, na sua totalidade, era também as suas inclinações, mas condenou-se quando decidiu ser apenas as suas inclinações.


Há uma exegése complexa que o livro de Dante exige. Que o Inferno seja obra do amor não significa, por si mesmo, que o amor fabrique o mal. O Inferno não é o Mal. Também Kant percebeu muito bem que se podem fazer coisas boas na sequência do mal radical. O mal radical pode conviver com uma vida cheia de boas acções. Da mesma forma, seria possível percorrer o caminho do inferno fazendo só coisas boas. Mas Francesca significa que o amor pode fazer o mal - e, na medida em que faz o mal, ser efectivamente o fazedor do inferno.



Tudo isto é estranho para nós que estamos mais próximos de pensar que o Inferno é obra do ódio, que o mal é feito por ódio. Que o amor obra o bem e que o bem é a obra do amor.

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