Cap. 2
O estereótipo da menoridade feminina significa, pois, que, no início e na maioria da vezes, se considera a mulher como não sendo maior. Além disso, na maioria das vezes toma-se a menoridade da mulher como inalterável, sendo duvidoso que ela possa vir a atingir a maioridade. Aliás, nós podemos observar que muitas mulheres muita vezes reclamam que, para serem consideradas tão eficientes, eficazes e capazes como os homens têm de o ser mais, e mais recorrentemente, que os homens.
A mulher tem de dispender um esforço superior para ser reconhecida. Na maioria das vezes o macho adulto toma a sua maioridade por garantida, e a comunidade está pronta a assegurar essa confiança. No entanto, a mulher tem de merecer esse reconhecimento. Este pormenor faz toda a diferença. A comunidade habituou-se desde sempre a esperar que um homem esteja na posse de todas as faculdades exigíveis a um ser humano, ao mesmo tempo que espera que uma mulher esteja em falta relativamente a essa normalidade. Assim, o homem é o padrão para a norma. A mulher está sujeita a ser pesada segundo as regras previamente definidas pela masculinidade.
Por outro lado, a menoridade da mulher não é um mero juízo acerca da força física ou das c

A mulher não está, pois, segundo o preconceito aqui analisado, na posse plena das faculdades humanas. Na mulher as faculdades parecem atrifiar-se. Ou melhor, na mulher as faculdades boas parecem estar atrofiadas. Não parece ser boa ideia deixar-lhes o poder de decisão, pois não só parecem incapazes de chegar a uma conclusão por um processo racional, mas mesmo que o fizessem, não parecem capazes de se manter firmes. Inconstantes, volúveis e frágeis, eis as mulheres. A menoridade significa, pois, fragilidade. O menor é frágil, facilmente se magoa, não sabe bem o que quer, as suas decisões não são de levar a sério. Por isso é preciso que decidam pelo menor, por isso é preciso que decidam pela mulher.
A forma originária da comunidade lidar com a mulher é decidir por ela. Assim, está desde há muito decidido qual é o papel da mulher na comunidade, na família e em casa. De forma idêntica, ao homem compete ser seu tutor: primeiro o pai, depois o marido e, para qualquer eventualidade, lá estão os seus irmãos ou os seus cunhados. Essa regra antiga de casar com a mulher do irmão que morreu não é um tópico isolado na História do povo hebreu. Pelo contrário, é uma manifestação desse modo originário de lidar com a mulher: tutoriá-la.
Ser tutor da mulher, confiná-la, definir o seu espaço, decidir por ela, protegê-la - são tudo formas do mesmo modo de lidar com a mulher. Claro que este tutoriar pode apresentar diversas intensidades e formas. Por exemplo, a mulher pode tornar-se aquela que se protege a um grau mais ou menos extremo. O petrarquismo não é mais do que isso mesmo: a sublimação do tutoriar a mulher. Aliás, podemos observar todos os dias este fenómeno na forma como as pessoas hoje, muitas vezes, lidam com as crianças: protegendo-as em demasia, acarinhando-as extremamente, e, até, apararicando-a fazendo-lhe todas as suas vontades. A criança tornou-se um pequeno imperador, mas não deixou de ser menor, aliás, tornou-se ditadora por um fenómeno de sublimação da sua menoridade (de resto, os pais jamais agiriam assim se o menor não fosse, precisamente, menor, de tal modo que, quando o menor começa a ser visto como devendo não mais comportar-se como menor os pais percebem que agiram mal, pois não educaram o menor para a maioridade).
Este modo de tutoriar a mulher de forma a apaparicá-la, a protegê-la execivamente, a colocá-la numa redoma não deve ser visto como uma modo menos grave do preconceito da menoridade feminina. Pelo contrário, o apaparicar tende a eternizar essa mesma menoridade pois gera no

Este aspecto da menoridade pode ser considerado o seu aspecto feudal: a mulher é o vassalo, o homem é o senhor; o senhor protege o vassalo, o vassalo deve obdiência ao senhor; o senhor possui vassalos, os quais lhe prestam vassalagem. A forma como a mulher se torna vassalo pode ser mais ou menos evidente, mas a vassalagem da mulher perante o homem vem de tempos imemoriais.
E se o cavalheirismo não passar de uma forma de a mulher exercer a o seu poder sobre o homem?
ResponderEliminarE se o cavalheirismo não passar de uma forma de a mulher tornar o homem seu vassalo?
Não é o cavalheirismo um comportamento típico das camadas ditas mais inteligentes da nossa sociedade?
Então porque é que as mulheres mais inteligentes se deixarão tutoriar?
Não será essa a forma de a mulher deixar que o homem pense que tem poder sobre ela?
...
Quando na verdade é ele próprio, o homem, que está a prestar vassalagem?
Bem, secalhar não...
Claro que a dada altura podemos pensar que estamos perante uma situação semelhante à do copo: está meio cheio ou meio vazio?
ResponderEliminarDe igual forma podemos perguntar se o jovem rebelde não será de facto quem manda lá em casa. E, afinal, quem é que exerce o seu poder sobre o quê: é o admirador ou é a obra de arte? Quem é que presta vassalagem: o guloso ou o doce?
Vejamos então o cavalheiro: o cavalheiro abre a porta, paga o jantar, faz vénias a todas as mulheres. Nos romances do século XIX a mulher é uma peça decorativa ambulante que, não só decora a casa, como também fica bem numa amena cavaqueira! Ou então é o fruto proibido, o sal e a pimenta de um mundo diletante. Ou então é o ser inconstante, dominado pela sensibilidade que desmaia a cada piscar de olhos, que cora a cada tremor ou chora capítulo sim, capítulo não. O cavalheirismo pode ter diversas tonalidades, mas funda-se sempre num tomar posse que substitui a acção da mulher. É uma forma de sublimação da menoridade que se manifesta de modos aparentemente opostos à "tutorização".