sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O estereótipo da menoridade feminina

A propósito do Afeganistão, a mulher...

Cap. 1

O estereótipo da menoridade feminina significa o quê? Ou melhor, que significa afirmar que a história da civilização se deixa permear pelo preconceito da menoridade da mulher?

Bem, se está a ler esta mensagem provavelmente essa é a questão que deseja ver satisfeita.

Habitualmente, o senso-comum aplica a noção de menoridade de modo negativo: na maioria das vezes consideramos a menoridade como um estádio do desenvolvimento em que a maioridade ainda não foi atingida. Deste modo, a menoridade é, no início, um "ainda não" relativamente à maioridade que será, eventualmente, atingida. Na maioria das vezes, portanto, a noção de menoridade é aplicada para designar uma situação particular de negação, a saber, de omissão. O menor é aquele no qual a maioridade está omissa por ainda não ter sido tempo de se adquirir.

Numa primeira abordagem, a maioridade é algo de positivo. Tomamos a maioridade como algo de verificável num certo sentido: ao contrário da menoridade, a maioridade atinge-se quando se verifica a aquisição de determinada(s) característica(s). O menor torna-se maior num certo ponto. A característica mais visível da noção de maioridade é, precisamente, a visibilidade. Assim, os vários povos que existem no mundo têm os seus mais diversos ritos de passagem, de amostragem daquilo que, precisamente, se quer fazer ver. Atingir a maioridade é um dar-se a ver, um mostrar-se de uma nova forma, para uma nova vida. A maioridade representa a subsistência daquele que, de ora em diante, vem ao de cima, vem à tona. A maioridade é, pois, mais que uma nova forma de existência em sociedade. A maioridade é a existência.

De início, a menoridade é, então, o ainda-não disso tudo. A criança, menor, é um adulto em potência, mas sobretudo, ainda não é um adulto. E durante milénios, e para muitos povos ainda hoje, isso significa, de facto, não ser plenamente. A noção de menoridade começa o seu sentido precisamente num jogo ontológico, o qual não apresenta em si mesmo uma grande consistência metodológica, mas que tem muito poder pois hierarquiza entes em níveis de ser: o menor apresenta um nível ontológico mais fraco.

Neste sentido, a menoridade feminina tem que ver com uma desconsideração ontológica da mulher, por comparação ao homem, e em si mesma ela é menos que poderia ser se fosse um homem. Ora, como sempre, o senso-comum é rápido a transferir para o plano axiológico aquilo que concebe no plano ontológico. Ou seja, na maioria das vezes, quando o senso-comum fala em menores, assume a omissão de valor do menor. O menor é um ser inferior e, por isso, vale menos.

Neste sentido, no início e na maioria das vezes, o menor é menos que... A mulher é, pois, considerada como um ser que é menos e vale menos que o homem. Mas a menoridade da mulher não é como a menoridade da criança porque o carácter negativo do ser menor da criança vem cunhado com a noção de circunstâncialidade: a criança ainda-não é um adulto, mas é-o em potência. A criança encontra-se a caminho de vir a ganhar a sua maioridade, ou se quizermos, a maioridade encontra-se em semente na criança: daqui a um tempo, a criança tornar-se-á um adulto, um ser pleno, visivelmente activo. O carácter negativo da menoridade da criança parece, pois, ser de natureza activa. Potencialmente, o menor é um adulto. E por isso a criança vive a sua criancice lançando-se para a sua maioridade, projectando-se nela. A criança lança-se na sua maioridade estando já lá onde planeia o que será quando for grande. A mulher, por seu turno, por mais que cresça será sempre menor. É constitutivo do seu ser não se tornar maior. Enquanto que a criança salta ontologicamente para adulto, a mulher varia os seus modos de ser mulher: filha, esposa, dona de casa, mãe.

A menoridade da mulher significa no início uma inferioridade que a rebaixa e subalterniza. A menoridade da mulher não lhe permite ser vista por si, pois ela está sempre dependente do homem uma vez que se caracteriza por ser menos que ele. A menoridade da mulher reflecte, como um espelho, a atenção dela para a sua alegada inferioridade. A mulher está submersa na invisibilidade e não tem nenhum rito de passagem à maioridade que a venha resgatar desse fosso. É isso que as mulheres contemporâneas afirmam aos quatro ventos: dizem ter que trabalhar o dobro daquilo que um homem teria para verem reconhecidas as mesmas competências. A razão está na menoridade com que a mulher é vista. No antigamente, a voz da mulher, o trabalho da mulher, etc., valia metade da voz do homem, do trabalho do homem, etc.. Com a liberalização do espaço público e a diversificação dos olhares, aparentemente, foi permitido à mulher soltar-se. Se, no início, a mulher não podia mostrar o corpo, hoje ela pode mostrá-lo. Ela mostra o corpo, ela sai de casa, ela vai trabalhar, e tudo isso serve para reflectir a atenção. Se num lado a burca mantém a mulher na sua invisibilidade, no outro é o seu corpo, a sua língua ágil, a sua impertinência que a continuam a fazer resvalar para o invisível. Todos estes aspectos da mulher emancipada (aspecto que a burca vela para que não se evidenciem) chamam os olhares, atraiem as atenções, distraindo os olhares e as atenções de si própria.




A mulher chega a ser atraiçoada pelas próprias armas. A imagem parece conferir à mulher poderes imensos. No entanto, a imagem feminina só pode ter o seu alcance enquanto a mulher permanecer refém da sua menoridade. Deve aqui afirmar-se que não se diz isto com qualquer recriminação. Pensamos que as mulheres podem e devem continuar a abusar do cuidado com o corpo. Não nos queixamos. Mas o cuidado que o corpo feminino exige é exigido pela predominância social e cultural do olhar masculino. Tal como quando uma criança faz uma cara laroca porque a mãe tem o poder de lhe comprar um brinquedo novo. Se o mundo tivesse sido dominado até hoje pelas mulheres, provavelmente os homens usariam batôn.



Ler cap. 2

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