quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Desonestidade: distanciamento

A propósito do devemos duvidar de tudo...


Queria começar por explicar que ao utilizar o termo “desonesto” não quero, de modo nenhum, dizer que alguns autores dizem X querendo dizer Y, ou que têm uma segunda agenda oculta. Isso também pode acontecer, mas não é o que quero dizer.

Quando Descartes, n’Os Princípios da Filosofia, I, 5, afirma que há a possibilidade de sermos sempre enganados, coloca em cena uma espécie de dúvida que não encontra restrições. Contudo, no artigo 6º seguinte, imediatamente restringe a dúvida: « nous ne laissons pas d’éprouver en nous une liberté qui est telle que, toutes les fois qu’il nous plaît, nous pouvons nous abstenir de recevoir en notre croyance les choses que nous ne connaissons pas bien ». Este artigo constitui uma restrição porque aquilo que Descartes diz no artigo 5º é o mesmo que dizer que encontramos em nós « une liberté qui est telle que, toutes les fois qu’il nous plaît, nous pouvons nous abstenir de recevoir en notre croyance les choses ». Mas mais do que dizer que nós podemos duvidar daquilo que bem entendermos, Descartes diz que devemos duvidar de tudo porque pode acontecer que estejamos a ser enganados sempre que algo nos parece certo (por exemplo, um Deus enganador poderia estar-nos a enganar). Este é um dos sentidos em que uso o termo desonesto: quando um autor se propõe um projecto que depois não cumpre – no caso, afirma que se deve duvidar de tudo até encontrarmos evidências, mas depois não duvida de uma coisa (esquecendo que, se começar sempre por duvidar daquilo que lhe parece nunca encontrará nada de que não possa duvidar). Ou seja, começou o seu sistema precisamente pela suspensão da dúvida relativamente a algo, quando teve a pretensão de o sustentar na suspensão da crença. Descartes diz isso expressamente no artigo 6º: irá duvidar de tudo aquilo que não conheça bem, daquilo que lhe pareça ser duvidável. Mas o aspecto fundamental do artigo 5º é, precisamente, que tudo o que nos parece ser certo pode resultar de um engano – portanto, dever-se-ia duvidar de tudo.

Quando Descartes, n’As Paixões da Alma, artigo 145, reconhece que « nous devons souvent faire réflexion sur la Providence divine, et nous représenter qu’il est impossible qu’aucune chose arrive d’autre façon qu’elle a été déterminée de toute éternité par cette Providence ; en sorte qu’elle est comme une fatalité ou une nécessité immuable qu’il faut opposer à la fortune », dá notícia de algo muito interessante. Este reconhecimento que ele faz pontualmente coloca em cena um ponto que poderia ter consequências relevantes para o sistema. Mas, mais uma vez, imediatamente a seguir (art. 146), estabelece uma limitação à interpretação: « tout est conduit par la Providence divine, dont le décret éternel est tellement infaillible et immuable qu’excepté les choses que ce même décret a voulu dépendre de notre libre arbitre, nous devons penser qu’à notre égard il n’arrive rien qui ne soit nécessaire et comme fatal » (sublinhado nosso). Esta é outra forma de desonestidade: reconhecer um ponto que, no limite, teria consequências em todo o sistema, mas derivar apenas as consequências relativas ao ponto concreto em questão (escolher um caminho sem pensar naquilo que não depende da nossa vontade), colocando o resto sob a nota de uma excepção já adquirida, como se o novo dado não pudesse ter consequências sobre o que previamente parecia adquirido. Isto não quer dizer que Descartes tivesse consciência disto. Ele pode ter sido sincero. Mas o sistema filosófico é desonestamente desenvolvido: porque esbate os dados que vão sendo adicionados, dando-lhe a forma do que previamente está adquirido, sem submeter o que estava previamente adquirido ao escrutínio. O novo dado é considerado simplesmente algo que deve ser interpretado à luz das certezas previamente estabelecidas.

Quando Descartes, n’Os Princípios da Filosofia, I, 3, afirma: « [c]ependant il est à remarquer que je n’entends point que nous nous servions d’une façon de douter si générale, sinon lorsque nous commençons à nous appliquer à la contemplation de la vérité », coloca de forma explícita a Filosofia ao nível de uma excepção da vida. A contemplação da verdade corresponde um parêntesis no decurso da vida, cujo decorrer normal nos submete à urgência de ter de decidir em tempo útil, apesar de não podermos estar mais certos acerca de uma opinião do que de outra. Portanto, Descartes explicitamente diz que a vida é outra coisa. Isto faz-nos lembrar Aristóteles que parece dizer algo de semelhante na Metafísica 982β10-30. Contudo, o sentido em que Aristóteles interpreta isso é bem diferente (cf.  Ética a Nicómaco 1178β30-1179α10, a necessidade que o humano tem de bens exteriores é assumida, mas sem que isso seja o fim, pelo contrário, os bens necessários são utilizados em vista da excelência: come-se para se permitir a continuação da activação da possibilidade de ser excelente). Descartes diz que a dúvida não deve ter lugar na vida habitual « à cause que les occasions d’agir en nos affaires se passeraient presque toujours avant que nous pussions nous délivrer de tous nos doutes ». A lógica da excepção é levada ao limite aqui. O deve-se duvidar de tudo é uma actividade mental a que uma pessoa se pode dedicar quando, sem mais negócios a conduzir, descansa da vida. E como nada daí pode resultar que possa ser de facto levado a sério, não vale a pena interromper o curso dos negócios. O duvidar de tudo, afinal, não é levado a sério: não o é no método, como mostrámos atrás, e não o é na vida. É apenas uma brincadeira que se pode fazer quando a correria da vida se suspende e nos dá descanso. Mas mesmo que ficássemos pela dúvida e esta fosse levada a sério, quando terminasse o tempo de lazer, lá se voltaria para os negócios.

Mas esta forma de desonestidade intelectual mostra uma grande honestidade prática: a vida vem em primeiro lugar. A dúvida metódica tinha desde início uma finalidade, e essa finalidade estabelecia o seu âmbito. O escudo protector estava activado desde o primeiro momento: a dúvida não poderia matar. Isso mesmo foi o que Pirro descobriu quando foi perseguido por um cão e teve que fugir (cf. Diógenes Laércio, A Vida dos Filósofos mais Ilustres, IX,66).


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O valor daquilo que se ama

A propósito de amor...


É verdade que o amado invariavelmente é, sem dúvida, valorizável para o amante. Contudo, percebendo-se que o valor não é, de todo, uma condição formativa ou fundamental do amor. Não é necessário que seja uma percepção do valor naquilo que ele ama que mova o amante a amar isso. A relação verdadeiramente essencial entre amor e valor do amado segue a direcção oposta. Não é necessariamente como um resultado de reconhecer o seu valor e de ser cativado por ele que nós amamos coisas [e pessoas]. Pelo contrário, aquilo que nós amamos adquire necessariamente valor para nós porque nós o amamos. O amante invariavelmente e necessariamente perceve o amado como valioso, mas o valor que ele vê que o amado possui é um valor que deriva e depende do seu amor.

"It is true that the beloved invariably is, indeed, valuable to the lover. However, perceiving that value is not at all an indispensable formative or grounding condition of the love. It need not be a perception of value in what he loves that moves the lover to love it. The truly essential relationship between love and the value of the beloved goes in the opposite direction. It is not necessarily as a result of recognizing their value and of being captivated by it that we love things [and people]. Rather, what we love necessarily acquires value for us because we love it. The lover does invariably and necessarily perceive the beloved as valuable, but the value he sees it to possess is a value that derives from and that depends upon his love."

Frankfurt, The Reasons of Love, (Princeton: Princeton University Press, 2004), pp. 38-39.


Temos a tendência constante para perceber agudamente o valor nas coisas e nas pessoas que amamos.

Quem ama é atraído de forma involuntária para o objecto do seu amor. Ama-se - não se ama porque se quer, e muito menos se ama quem se ama porque se quer amar essa pessoa.

De facto, a paixão atravessa-nos como um raio e mexe connosco como se fôssemos marionetas. O ponto de vista natural é seguir o caminho do amor. É o mais fácil. Quando se ama, se de facto se ama, somos arrastados pelo amor.

E por que é que se ama? Esta pergunta é uma pergunta secundária. Na verdade, ela nem sempre, aliás, muito raramente tem qualquer interesse para o amante. Quem ama não sabe, nem quer saber, por que ama. A pergunta só pode vir de um mal estar. Ou de fora, colocada por outros, e que é, então, respondida apenas por desporto.

Por que é que se ama? Parece tão natural dizer que se ama alguém devido às suas qualidades. Parece tão óbvio que é o valor das coisas que nos faz amá-las. Parece tão claro que é o valor da pessoa que amamos que faz com nós a amemos. E, no entanto, Frankfurt diz-nos precisamente o contrário.

O filósofo tem uma tarefa ingrata: levantar a dúvida onde ela não parece ter lugar. E tem uma tarefa ingrata porque -, como muito bem viu Hegel na Fenomenologia do Espírito (na introdução, ou talvez no prefácio) -, toda a gente se crê habilitada a filosofar sem dificuldade, sem necessidade de treinar o olhar ou de exercitar o pensamento. Parece natural, simples, olhar e tecer juízos sobre isso que aparece.

Mas devemos admitir a possibilidade de que, aquilo que os filósofos dizem, e qualquer pessoa em geral, não é uma parvoíce, mas antes um ponto de vista possível. Legitimamente possível. Legítimo.

Então: o que quer dizer isso que nos diz Frankfurt. O que quer dizer isso de que o valor daquilo que amamos depende de nós o amarmos? E pode ele estar certo.

Frankfurt é perspicaz. E diz as coisas com uma clareza rara. Deitemo-nos a pensar nas suas palavras:

"a lover identifies himself with what he loves" 
The Reasons of Love, p. 61

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Da impossibilidade de provar a existência de Deus



Mas se quando falo de provar a existência de Deus eu quero dizer que me proponho provar que o Desconhecido, o qual existe, é o Deus, então eu expresso-me de forma infeliz. Pois nesse caso não provo nada, muito menos uma existência, mas apenas desenvolvo o conteúdo de um conceito. De modo geral, é uma coisa complicada provar que uma coisa existe; e, o que é ainda pior para a alma intrépida que empr
eende essa aventura, a dificuldade é de tal ordem que raramente a fama aguarda por esses que se preocupam com isso. A demonstração transforma-se sempre em qualquer coisa muito diferente, e torna-se um desenvolvimento adicional das consequências que se seguem do facto de eu ter assumido que esse objecto em questão existe.





[...] mas quem quer que diga no seu coração ou a um homem: "Espera apenas um pouco e eu provarei [a existência de Deus]" - que raro homem de sabedoria ele é! Se no momento de começar a sua prova não está absolutamente indeterminado se Deus existe ou não, ele não o prova; e se isso está dessa forma indeterminado no começo, ele nunca chegará a começar, em parte pelo receio de falhar, dado que Deus talvez não exista, e em parte porque ele não tem nada com que começar.

Kierkegaard (Johannes Climacus), Philosophical Fragments








Atenção: a tradução anterior é indirecta - por favor, confronte com a tradução inglesa





 But if when I speak of proving the God’s existence I mean that I propose to prove that the Unknown, which exists, is the God, then I express myself unfortunately. For in that case I do not prove anything, least of all an existence, but merely develop the content of a conception. Generally speaking, it is a difficult matter to prove that anything exists; and what is still worse for the intrepid souls who undertake the venture, the difficulty is such that fame scarcely awaits those who concern themselves with it. The entire demonstration always turns into something very different and becomes an additional development of the consequences that flow from my having assumed that the object in question exists.





[...]but whoever says in his heart or to men: Wait just a little and I will prove it -- what a rare man of wisdom is he!3 If in the moment of beginning his proof it is not absolutely undetermined whether the God exists or not, he does not prove it; and if it is thus undetermined in the beginning he will never come to begin, partly from fear of failure, since the God perhaps does not exist, and partly because he has nothing with which to begin.





Originally published by Princeton University Press, Princeton, New Jersey in 1936. Translated by David F. Swenson, translation revised by Howard V. Hong.

Para reflectir, do Evangelho Segundo São Mateus

A propósito de portas, de perdição e de vida...


Mateus 7:13-14
13 Εἰσέλθατε διὰ τῆς στενῆς πύλης· ὅτι πλατεῖα ἡ πύλη καὶ εὐρύχωρος ἡ ὁδὸς ἡ ἀπάγουσα εἰς τὴν ἀπώλειαν καὶ πολλοί εἰσιν οἱ εἰσερχόμενοι δι’ αὐτῆς· 14 τί στενὴ ἡ πύλη καὶ τεθλιμμένη ἡ ὁδὸς ἡ ἀπάγουσα εἰς τὴν ζωήν καὶ ὀλίγοι εἰσὶν οἱ εὑρίσκοντες αὐτήν.

13 Entrai pela porta estreita: pois larga é a porta e bem espaçoso o caminho que leva à perdição e muitos são os que entram por eles. 14 E estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida e poucos são os que o encontram.

"Entrai pela porta estreita".

Parece que temos à nossa disposição diversas possibilidades de ser. Uma ou outra vez na vida encontramo-nos como a criança que descobre numa manhã primaveril que pode ser o que quiser. 

Essa não é uma descoberta de pouca monta. Pobre o adulto que julga puerilmente que isso é uma ilusão: porque esse adulto ainda não começou a poder compreender a amplitude da sua própria ilusão. Porque não é disso (que ele julga) que fala a criança que descobre de repente que pode ser tudo.

Julga o adulto que está firme e seguro na sua plataforma de onde aponta ferozmente a fragilidade do ponto de vista infantil...

Parece que temos diversas possibilidades de ser e têmo-las por nossas, adquiridas. E queremos muitas. Somos felizes quando podemos parar diante de muitas portas e considerá-las por gozo e gabarolice... Queremos tempo para nos ufanarmos junto dos nossos amigos e comparsas. Como uma criança que tem um brinquedo novo e o leva para casa dos amigos como passaporte para ser, por um dia, a estrela. Pobre o adulto que admoesta nessa criança a ingenuidade com que os seus olhos brilham. Porque esse adulto ainda não começou a compreender a sua própria burrice.

Mas não! Não é assim como pensa o adulto que se comporta como uma criança. Não!

"Entrai pela porta estreita" - e parece que ela está aí, que podemos qualquer dia, quando vagar nos sobrar, empreender escarpa acima, estreiteza fora, de armas e bagagens, rumo à vida. Mas não. O adulto é ainda uma criança que não quer fazer hoje o que pode também não fazer amanhã... E pobre desse adulto que ralha com a criança cortando-lhe a diversão e matando-lhe a brincadeira! Porque esse adulto não compreendeu ainda onde ele próprio está.

Um dia quererá abrir a porta estreita e fazer o caminho apertado e então talvez perceba que durante todo o tempo de vida não encontrou vagar para encontrar essa que seria a porta da vida. Então, só então, perceberá a dificuldade que o evangelista enuncia: 

- Não é que tenhamos a porta da vida escancarada e escolhamos a outra, mais larga! Não! Não é que vejamos claramente o caminho certo e o deixemos ficar lá para seguir pelo caminho da perdição. O ponto é precisamente outro:  "poucos são os que o encontram". 

O evangelista não diz: ide pelo caminho da vida e deixai o caminho da perdição.

O evangelista diz: "Entrai pela porta estreita" mas "poucos são os que a encontram".

Então, se um dia lhe bater à porta da sua vida esta urgência talvez o adulto perceba a que nível elevou a própria estupidez quando admoestou a criança, quando procurou instilar nela sensatez, quando pretendeu dar-lhe o que nunca adquirira para si próprio.


Há um filme em que um assassino rapta o filho de um polícia e diz-lhe que, para reaver o filho são e salvo tem apenas de ter a paciência de não sair da sala de operações... O polícia-pai inquieta-se, não suporta a impaciência, descobre onde está o filho e vai lá com toda a polícia e todas as armas de fogo. Uma vez lá percebe que o filho estava dentro de um cofre na sala de operações - e que, devido ao facto de ter abandonado a sala de operações, o seu filho já morreu.

Bastava-lhe a paciência de ter ficado ali.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Do falatório da gente

A propósito de termos indiscutidos...

Sempre que, no dia-a-dia, ouço expressões como "a alma em direcção ao espírito", fico aparvalhado.


Devo, com certeza, possuir um caso raro de estupidez! Porque vejo as pessoas dizerem coisas destas sem vergonha, portanto deverão saber bem o que dizem ao dizê-las.

Então sou eu que sou estúpido! E, quando ainda envergonhado, pergunto o que é isso de alma e de espírito, e que caminho é esse que há-de ser feito por qualquer coisa como uma alma para se chegar a qualquer coisa como um espírito... riem-se, abanam a cabeça, e desculpam-me a minha mania de complicar! Confirmando assim, por meio desses trejeitos, que sou de facto estúpido!

Mas, afinal, o que é a alma e o que é o espírito, se são duas coisas distintas, e como é que hão-de ser se um pode ir visitar o outro e o outro acolher o primeiro?