quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Melancolia

A propósito de um filme muito original...


Melancholia (EUA, 2011), escrito e dirigido por Lars von Trier, com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Keifer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Alexander Skarsgard, Stellan Skarsgard e Udo Kier.

Logo nos primeiros minutos o filme presenteia-nos com o seu final: com uma fotografia esplêndida e numa sucessão de belas imagens, Lars von Trier mostra-nos que o filme irá acabar com o embate de um planeta com a Terra. E, assim, fica despachado este motivo de suspense: não há dúvida de que a vida Terra, pelo menos a humana, irá acabar. Assim, Trier liberta o espectador para o que é mais importante: tomar atenção ao filme, às personagens, ao que caracteriza cada uma destas e às relações entre elas.

Habitualmente, os filmes sobre o Armagedon exploram o suspense suscitado pela possibilidade do fim do mundo, mas colocam em cima da mesa uma possibilidade de remissão ou adiamento evitando ou minorando o acontecimento catastrófico. Neste género de filme, o espectador é levado a esperar que um conjunto de acções sejam levadas a cabo por um herói (ou vários). Este herói, proveniente da massa anónima, mostrar-se-á capaz de evidenciar um conjunto de virtudes e de chamar a atenção para as virtudes humanas que vale a pena salvar, enquanto os cientistas e os especialistas parecerão incapazes, senão mesmo estúpidos. Entretanto, um casal amoroso acompanha o desenvolvimento do filme, levando o espectador a desejar vê-los juntos no final - deste modo, diminui-se o impacto da perda de milhões de vidas, que sempre acontece, desde que no final os namorados estejam vivos e juntos para comemorar as virtudes humanas, realçadas ao longo do filme.

Desta forma, nos filmes sobre corpos celestes que estão em rota de colisão com a Terra, o espectador sabe de antemão que no final a humanidade e o casal amoroso se salvarão, mas, durante o filme, vive-se o suspense criado pela aparente certeza de catástrofe e pelas desventuras amorosas do casal.

Ora, Lars von Trier, ao mostrar, logo desde início, que o mundo irá acabar, liberta o espectador, precisamente, para uma experiência estética amplificada. O espectador fica ciente de que o planeta Melancolia irá chocar com a Terra. Por outro lado, não há nada como uma campanha heróica para desviar o Melancolia. O filme não versa sobre a (in)utilidade da ciência nem sobre as virtudes de quem dá a vida para salvar a Terra. As personagens em causa não são os cientistas ou os heróis que os filmes habitualmente focam.

De facto, a acção centra-se na vida de uma família, mais propriamente, nos últimos dias da convivência entre duas irmãs. Lars von Trier convida o espectador a tomar atenção a estas duas personagens (e não só), às diferenças que as separam, e aos sentimentos que as unem.

À medida que as personagens vão tomando consciência da ameaça que o planeta Melancolia representa, o espectador tem a possibilidade de comparar o estado de espírito de uma das irmãs com o sentimento que recebe o mesmo nome do planeta.

A primeira parte do filme (após a introdução que nos revela o contexto do filme - a eminência do embate de outro planeta com a Terra) versa sobre a irmã Justine, a tia "Steelbreaker" - tia, pois a outra irmã, Claire, tem um filho. O nome Steelbreaker indicia força e advinha resistência. Adivinharíamos uma personalidade indomável, dinâmica, simultaneamente teimosa e irrequieta. Curiosamente, apesar dos seus esforços, Justine não nos revela nada dessa força e o seu dinamismo, no início forçado e falso, desaparece por completo ao longo da primeira parte do filme. O espectador percebe que, pela sua alcunha, Justine era uma personagem bem diferente daquela que agora mostra ser. Poderia tratar-se da perda de sentido de uma vida à qual o futuro foi embargado pela proximidade do fim do mundo, mas não se trata do planeta Melancolia - pois as personagens ainda não sabem o que as espera. A Melancolia abateu-se sobre a tia Steelbreaker, mas isso nada tem que ver com o planeta.

A segunda parte do filme versa sobre a irmã mais velha, Claire. Nesta parte a irmã Justine já não tenta qualquer esforço de dinamismo. Parece que nada a seduz, nada a atrai e deixou mesmo de procurar o apelo das coisas. Torna-se evidente a ameaça do Planeta Melancolia - que ameaça embargar a possibilidade de desdobramento da vida no futuro das personagens. Claire sente-se amedronta-se apesar do seu marido lhe afiançar que não há nada a temer. São referidas as posições científicas contraditórias, dos que pensam que o Melancolia vai passar ao lado e dos que pensam que o Melancolia vai chocar com a Terra. O marido de Claire postula que a ameaça irá passar, e que quem diz o contrário não é fidedigno.

Justine não sente qualquer apelo pelas coisas do mundo, enquanto Claire sente medo por esse apego. O Planeta Melancolia é uma possibilidade concreta de colocar fim na continuidade de remissões que o futuro representa. Claire ama o seu filho e sente apego à vida, e é o seu amor e o seu apego à vida (e à contínua remissão de incumbências) que são ameaçados pelo Planeta Melancolia. Justine, por seu lado, melancólica, não se sente ameaçada pelo Planeta.

Lars von Trier sugere assim que aquilo por que Claire se sente ameaçada é, na verdade, a possibilidade de se encontrar na mesma disposição em que Justine se encontra. O Planeta Melancolia ameaça Claire, mas Justine encontra-se a si mesma já na melancolia.


À primeira vista, o filme pareceria versar sobre o fim do mundo eminente, sobre a ameaça exercida pelo Planeta Melancolia. Mas Lars von Trier informa desde início que este não é um filme sobre a salvação do mundo, pois o espectador é logo informado de como irá acabar: o Planeta Melancolia irá chocar com a Terra. Desta forma, Trier desvia a atenção do Planeta ameaçador para a Melancolia. De facto, a aura melancólica já se encontra instalada antes da ameaça do Planeta se exercer sobre as personagens. Apenas o espectador sabe, desde início, que existe essa ameaça - que não é uma mera ameaça, mas o fim inevitável.

A primeira parte, dedicada a Justine, passa-se sem que as personagens saibam o que as espera ou sintam a ameaça do Planeta Melancolia. Começa com uma limusina demasiado grande para passar no caminho que leva os noivos - Justine e Mischael - ao local do seu casamento. Prenuncia-se a dificuldade em festejar o casamento. Durante a comemoração, Justine esforça-se por exteriorizar uma normalidade que não convence. A sua mãe evidencia um cepticismo e uma descrença consciente que desconcerta os presentes, mas parece ser a que fala sem embelezar, a que descreve sem falsificar. A sua lucidez profunda é realçada pelo facto de ser desfasada em relação à situação: o casamento (ou melhor, a festa do casamento) da filha num lugar paradisíaco, de uma beleza românica, a lembrar o passado e as tradições. As circunstâncias parecem exigir uma hipocrisia e uma resignação que faltam a Justine. Esta, incapaz de apreciar a beleza da ocasião, é pressionada pelo cunhado que lhe lembra o dinheiro que gastou na cerimónia e lhe exige que goste da festa, como se estivesse ao dispor de Justine decidir sobre o seu gosto ou sobre a sua disposição.  O chefe de Justine, presente na cerimónia, insiste para que ela crie um slogan publicitário durante o seu próprio casamento e, inclusivamente, contrata um rapaz para a acompanhar e captar o momento em que for tomada de inspiração. 

Não devemos confundir a disposição em que Justine se acha a si mesma com desespero: pelo contrário, o que lhe falta é o apego à vida - que é a condição de possibilidade de qualquer desespero. Sem o apelo exercido pelas coisas, o mundo oprime Justine, a qual se entra numa espiral depressiva. Não vemos nela nenhuma vitalidade - o que é reforçado pela contradição da sua alcunha. Parece mesmo que a vida se lhe torna incomportável, um estorvo. Então despede-se e, finalmente, renuncia ao casamento. 

A primeira parte do filme chama a atenção para a contradição. Num filme sobre o fim do mundo, que o espectador sabe ser inevitável, estamos perante um casamento, que é um começo. A extravagância gasta com a festa e a beleza do local contrastam com a incapacidade de apreciar o momento, por parte de Justine. A sua melancolia contrasta com o facto de as personagens desconhecerem a ameaça do Planeta Melancolia.

A segunda parte, dedicada a Claire, relata o seu receio do fim do mundo, o desespero que se apodera dela. Claire sente o apelo da vida, do mundo. Quer viver, quer ter vida, quer ter tempo. Mas o tempo é-lhe arrancado. Apertada contra a impossibilidade representada pelo Planeta Melancolia, Claire sente-se claustrofóbica à medida que o tempo lhe foge. É ela que sente o desespero que Justine não pode sentir, porque é Claire que ama, gosta e deseja - e que sente tudo isso ameaçado. Mas Justine é também a irmã que está bem na vida e de bem com a vida, que encaixa perfeitamente nas regras sociais - portanto, também é ela que representa a estagnação da resignação ao sistema, à força do status quo. Claire tem uma vida normal, mas também normalizada, tipicamente feliz naquilo que exteriormente é tido como indício de felicidade. Mas sente-se bem nessa vida e procura sair-se bem nela. Há algo de abnegação na sua estagnação - mas uma abnegação comummente considerada saudável em nome de laços familiares, do amor e da maternidade.

A estagnação de Claire contrasta com a estagnação de Justine, e a diferença entre elas é tão mais gritante quanto o é a semelhança entre as duas. A estagnação de Justine é ausência de laços ao mundo, ausência de raízes na vida, falta de ligação às coisas. A estagnação de Claire é a sujeição ao que a rodeia, correspondente da adesão a compromissos, em nome de um status quo, mas de um status quo que, enquanto tal, é garante da situação em que ela se encontra e na qual se sente inserida. Claire não é aquela personagem triste que abdica dos seus sonhos por um status quo que não a satisfaz, mas antes a personagem que se encontra satisfeita pelo status quo: mãe e esposa, adora o filho e ama o marido, gosta da vida que leva e não encontra razões para se desfazer dela. Não há nada nela a desprezar, é da sua estirpe que se constroem sociedades. Mas é a sua normalidade que se encontra ameaçada e isso contrasta com a melancolia de Justine - que não sente qualquer desespero. O espectador tem a sensação de que o Planeta Melancolia é mesmo uma espécie de resgate para Justine - embora, provavelmente, para ela, nem essa possibilidade constitua qualquer atracção.

O marido de Claire é secundário, mas o seu papel não deixa de ser interessante. Ele representa um certo tipo de pessoas que julga que a felicidade se encontra nas coisas que se acarretam ao longo da vida, de tal modo que ao proporcionar uma festa dispendiosa à sua cunhada considera uma falta de respeito que esta não se sinta feliz. Sente repulsa pela sinceridade crua mas sem pinga de hipocrisia da sua sogra. Sente uma espécie de nojo por toda a falta de respeito pelo status quo e pela aparência de normalidade. A falta de normalidade de Justine e da mãe exasperam-no.
Mas também é ele que confia plenamente nos cientistas que descartam a possibilidade do mundo acabar. Tal como Justine não desespera, mas não desespera apenas porque não considera seriamente a possibilidade do fim. Tal como Claire o apego à vida arrasta-o pelo mundo, agarra-o - toldando-lhe a vista para a possibilidade da impossibilidade de todas as possibilidades. A impossibilidade, representada pelo Planeta Melancolia, é para ele uma hipótese remota, não credível, simplesmente risível. Considera os receios da mulher infundados e procura ocultar-lhe detalhes. Perante a possibilidade da impossibilidade toma uma atitude puramente teórica, abstracta, de observador externo.


Finalmente, torna-se evidente, para as personagens, que o mundo vai acabar. O marido de Claire suicida-se. O fim certo e determinado é, para ele, já ter findado e terminado a vida - pois a vida, para ele, é precisamente um estar lançado numa remissão contínua de ocupações. A opressão do fim, a impossibilidade de remissibilidade, a impossibilidade de remeter para o por-vir o para-quê das coisas fechou para ele o sentido da vida. Não faz mais sentido viver, pois que para ele o para-quê encontrava-se, precisamente, na remissão para outra coisa posterior. Tendo, no início, negado a possibilidade da impossibilidade, a certeza concreta da impossibilidade tornou-lhe impossível continuar a viver.

Claire e Justine, por sua vez, como que invertem os papéis. Se, até esta fase, Claire era a bem instalada nas coisas da vida, aquela que estava inserida adequadamente no mundo, a partir do momento em que é certa a inevitabilidade do fim, sente-se desesperada, propriamente oprimida, desenquadrada com essa possibilidade - desenraizada. O espectador percebe que a sua estagnação terminou aí. Claire parece ganhar vitalidade, quer fazer alguma coisa, mexe-se, deseja, quer. Mas perante a impossibilidade o desejo angustia-se.

Perante a proximidade da impossibilidade de todas as possibilidades, é Justine que parece enquadrada, pela sua disposição melancólica. É ela que realça que os desejos de Claire são coisa parva. É ela que agora formula discursos e parece, afinal, ter algo a dizer. É ela que age com naturalidade, como se, afinal, nada tivesse mudado - agora que, precisamente, tudo mudou para os outros. Agora que o habitual perdeu o seu enquandramento, é Justine que parece normal. Neste sentido, a personagem de Justine opõe-se a todas as outras: ao racional, bem sucedido e normalizante marido de Claire que acaba por se suicidar; à feliz, comprometida e normal Claire; à sua lúcida e desconcertante mãe; ao seu despreocupado e descomprometido pai; ao seu patrão profissionalmente obsessivo; ao seu sobrinho sonhador.

Resta apenas notar que cabe a Justine, apesar do (ou devido ao) fim do mundo eminente apelar à criatividade do sobrinho e estimular a sua crença. Quando o miúdo afirma que o pai lhe dissera que, se o Melancolia chocasse com a Terra, não haveria salvação possível, Justine sugere que ele desconhecia a cabana mágica. Então, os dois constroem uma espécie de tenda apenas com paus, onde, com Claire, esperam o fim de tudo.

Neste filme pode dizer-se que a frase: se a Melancolia chocar com o mundo nada se salvará - tem duplo sentido.

Na minha perspectiva não se deve retirar, deste filme, um juízo ou postulado sobre a viabilidade ou inviabilidade do mundo. O que está em causa, parece-me, é a exploração/exposição de uma disposição, a melancolia, sem nenhuma indicação de que nesta exploração/exposição seja feita uma aferição de verdade sobre o ponto de vista que esta produz em relação a qualquer outro. Ou seja: o facto de existirem melancólicos não prova que estes estejam mais correctos acerca do que seja verdadeiramente a vida ou o mundo, da mesma forma que a exploração/exposição de uma certa disposição num filme não mostra que se está a considerar esta forma de se estar como mais verdadeira. A melancolia é uma possibilidade, e mesmo que esta ocupe um papel peculiar de entre as várias possibilidades de cada um se encontrar a si mesmo, daqui não se segue que a melancolia seja uma disposição em que todos e cada um se deveria encontrar, nem que apenas quem se encontra num estado melancólico veja com clareza as coisas como elas são verdadeiramente ou em si mesmas.

Portanto, nada no filme nos indica que o mundo ou a vida são melancólicos, depressivos ou entediantes, como se todos os humanos devessem ser melancólicos, depressivos e aborrecidos. Indica-se apenas que existe um estado de espírito (disposição) como aquele que no filme é exposto, explorado e contrastado. Isto é importante, pois seria um equívoco assumir a exposição de uma visão das coisas como se se tratasse de uma prova. O filme, em vez de ser uma tese sobre a melancolia, é a exploração de uma forma de ver as coisas - vendo bem, o filme apresenta-nos duas visões possíveis, a de Claire e a de Justine. A forma como estas duas visões são apresentadas explora a visão melancólica de Justine - é esta que é explorada, a partir de si mesma (primeira parte) e a partir da visão de Claire (segunda parte). Em todo o filme, é a melancolia que é explorada, não só a partir de si mesma, mas também da forma como os outros, nomeadamente a irmã de Justine, a compreendem.

De facto, a disposição melancólica, como qualquer outra visão, apresenta uma pretensão de acuidade superior, compreendendo-se como se estabelecesse a última palavra sobre as coisas. Mas é necessário não perder de vista que o filme se chama, precisamente, Melancholia, pretendendo, pois, expor do que se trata na visão melancólica. O filme não procura elaborar um ensaio sobre a vida, nem tão pouco apurar qual das visões possíveis acerca da realidade constitui a visão adequada. De todo o modo, não há como provar, em sentido estrito, epistemologicamente, a verdade de uma visão da vida, não só porque a pretensão de verdade é presente em todas elas, mas sobretudo porque não é possível constituir um ponto de vista liberto de qualquer visão.

O filme realça a apresentação da melancolia como última palavra sobre as coisas, e realça-a da forma mais evidente: encerrando de forma física e tangível a existência na terra. Contudo, o que está em causa é, precisamente, a apresentação da melancolia, e é de facto assim que ela se compreende e apresenta a si mesma: como dotada de uma acuidade definitiva, sustentando uma pretensão de lucidez, compreendendo-se a si mesma como portadora da verdade da própria vida. Para o ponto de vista melancólico, a sua suposta acuidade nada tem de mera pretensão, antes resulta de uma acuidade que considera ser própria do seu modo de ver as coisas: sem ilusões, sem falsas desculpas, isenta de hipocrisia. No entanto, esta reinvidicação (que a sua acuidade é factual e não uma simples pretensão) é a propriedade fundamental da sua pretensão.

Resumindo: o melancólico, pela própria constituição da disposição em que se encontra a si mesmo instalado, sente-se totalmente dominado pela evidência do que vê, mas isso não afirma nem nega a verdade do que vê. Como é óbvio, uma pessoa pode ter a certeza de muitas coisas e estar errado sobre todas elas. O sentimento de certeza de que se possui a verdade não implica que se possua a verdade.

   Para uma análise filosófica da obra, ver http://discutirfilosofiaonline.blogspot.com/2012/01/analise-filosofica-do-filme-melancolia.html.










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