quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Ética aplicada - problemas

A propósito de dilemas éticos...

Dois casos:

A. Um grupo de terroristas capturou um bebé e um adulto e irá executar ambos:
- a polícia tem dois planos de intervenção aprovados, só falta decidir qual deve ser posto em prática;
- o primeiro plano apresenta 99% de probabilidades de salvar o bebé, mas 100% de que o adulto seja morto no processo;
- o segundo plano apresenta 49% de probabilidades de salvar o bebé e 49% de salvar o adulto.
Q1: qual dos planos é eticamente recomendado?
Q2: qual dos planos recomendaria se fosse o responsável pela decisão?
Q3: se a sua resposta à Q1 diferiu da Q2, justifique essa diferença.

B. Uma grávida teve um acidente e corre perigo de vida:
- se a gravidez for levada até ao fim, a criança tem 100% de hipóteses de sobrevivência sem sequelas, mas a mãe terá apenas 5% de hipóteses de recuperar;
- se a gravidez for interrompida, o feto não tem hipóteses de sobreviver, mas a mãe terá 50% de recuperar, embora fique para sempre com sequelas graves.
Q1: qual dos planos é eticamente recomendado?
Q2: qual dos planos recomendaria se fosse o responsável pela decisão?
Q3: se a sua resposta à Q1 diferiu da Q2, justifique essa diferença.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Anotação para uma "Ética por Quasimodo"

A propósito de ética e amor...




A ideia de que a relação paternal é o arquétipo da ética porque os pais tudo dão aos filhos sem nada pedirem em troca é absurda. O que acontece é que a maioria dos pais só está disposto a cuidar dos filhos porque os ama - ora, a ética é cuidar mesmo quando não se ama.

A ética é respeitar e cuidar mesmo dos "quasimodos", por quem se sente repulsa física, de quem se deseja distância... 

Cuidar e respeitar não só dos belos e bons, daqueles que desejamos ou amamos, mas sobretudo daqueles por quem ninguém se interessa, que estão ao abandono.


Pois, como dizia Jesus: que há de mais em cuidar dos amigos - o decisivo é cuidar dos inimigos!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

História da eticidade

A propósito de amar os inimigos...

Da história do amor para com os inimigos:

Lex talionis
"Olho por olho, dente por dente" - no Código de Hamurabi
(a ideia subjacente seria evitar os excessos da vingança e regular a retaliação)

Taoismo
"À hostilidade deve responder-se com benevolência" - Lao-Tsé

Buda
"Mesmo que ladrões e salteadores despedacem alguém membro a mebro, com uma serra com dentes duplos, se o espírito dessa pessoa se encontrar cheio de raiva, não será um seguidor da minha doutrina da salvação. Numa situação destas, também tereis de vos guardar e dizer: o nosso espírito não se perturbará, [...] queremos permanecer amistosos e compassivos, com bons sentimentos, sem ódio interior" - Majjhima-nikaya, 21

Judaísmo
"Se teu inimigo cai, não te alegres com isso" - Prv 24:17
"Se o teu inimigo tem fome, dá-lhe de que comer" -  Prv 25:21

Judaísmo helénico
"não é adequado para um homem que adora a deus pagar o mal com o mal" - JosAse 23:9
"não é adequado para um homem que adora a deus ferir alguém de alguma maneira" - Jos Ase 23:12

Cristianismo
"Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, elogiai os que vos amaldiçoam, fazei bem aos que vos odeiam" - Mt 5:44

Estoicismo
"É próprio do humano amar também os que o fizeram tombar. [...] porque não fez com que a tua capacidade de intervenção ficasse pior do que era antes." - Marco Aurélio, Τὰ εἰς ἑαυτόν, VII,22

sábado, 19 de outubro de 2013

Estado e Sociedade - um exercício de compreensão

A propósito de política, Estado e Sociedade - um exercício de compreensão

O Estado não deve representar os interesses da sociedade tal como ela é. O princípio que rege a acção do Estado não é igual, nem coincide com o que rege a sociedade. Sempre que o Estado segue a sociedade o regime torna-se ditatorial - porque a sociedade como ela é consiste na pluralidade, mas o Estado só pode legislar univocamente. Ao seguir a sociedade, porque só o pode fazer impondo um sentir comum ou uma voz maioritária, o Estado torna-se necessariamente ditatorial, pois irrompe na esfera privada tiranizando o cidadão e submetendo o indivíduo à esfera social. Para não destruir a riqueza da sociedade é no interesse desta que o Estado não segue a sociedade. Mas se a sociedade não tem legitimidade para legislar, também o Estado, legislador, não deve impor o seu princípio à sociedade, porque então destrói o seu próprio princípio. O princípio do Estado é a igualdade - perante a lei e as instituições; o princípio da sociedade é a diversidade; o princípio da cidadania é a liberdade. A igualdade não pode impor-se à diversidade sem se perverter a si mesma, pois numa diversidade em que o diverso não é permitido a igualdade foi cancelada - de modo que o Estado que se impõe à sociedade só pode ser Totalitário e unipessoal, o que equivale a ter um Estado total e, simultaneamente, nenhum Estado legítimo.

Assim, senão por uma coincidência extremamente improvável, não pode haver sociedade em que a igualdade exista senão violando a legitimidade - nem pode haver Estado que expresse literalmente a sociedade. Quanto mais semelhante ao Estado for a sociedade, menos há liberdade; quanto mais semelhante à sociedade for o Estado, menos há justiça. Contudo, quanto mais forte o Estado, mais forte a sociedade e mais fraco o indivíduo: no limite, o indivíduo é atomizado e a sociedade é una com o Estado. Porém, quanto mais forte se torna a sociedade menos cresce a força do Estado, até que inevitavelmente a sociedade supera o Estado: no limite, uma minoria governa o Estado. Portanto, o crescimento do Estado não é sustentável indefinidamente pois provocará, com o seu crescimento, a sua própria subordinação aos poderes mais importantes de entre a diversidade social: no limite, um regime totalitário igualitarista que cresça desmesuradamente em poder deverá resultar numa oligarquia.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Malala Yousafzai

A propósito de Malala Yousafzai...


Esta jovem tem algo de concreto para ensinar a todos nós que vivemos agora neste mundo. E isso é que ainda há seres humanos que são privados de educação, que a educação é um aspecto fundamental da humanidade, e que algumas pessoas precisam de ter muita coragem para conseguirem aquilo a que deveriam ter direito.

Mas esta jovem ensina-nos algo ainda mais relevante, que não é só deste mundo actual, da nossa geração, ou do nosso sistema globalizado. Esta jovem ensina-nos algo que diz respeito a todas as gerações, a toda a humanidade, a cada humano em particular e que diz intimamente respeito a isso de ser humano. Esse ensinamento é o dever de não se calar, de não condescender, mesmo que esteja em risco a sobrevivência do sujeito físico, mesmo ou sobretudo quando é preciso arriscar a vida, não para simplesmente sobreviver, mas por aquilo que é condição para a dignidade, aquilo que dá dignidade ao humano. Nos momentos limites há humanos que recusam abdicar daquilo em que repousa a dignidade humana e fazem-no mesmo quando isso implica correr o risco de ter de abdicar da própria vida. Esta jovem foi um desses humanos.