quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Deste tempo, deste mundo

A propósito deste mundo


E o senhor elogiou o feitor de injustiça pois fez sensatamente: pois os filhos deste tempo são mais sensatos do que os filhos da luz na sua própria geração.
Lucas 16:8
καὶ ἐπῄνεσεν ὁ κύριος τὸν οἰκονόμον τῆς ἀδικίας ὅτι φρονίμως ἐποίησεν· ὅτι οἱ υἱοὶ τοῦ αἰῶνος τούτου φρονιμώτεροι ὑπὲρ τοὺς υἱοὺς τοῦ φωτὸς εἰς τὴν γενεὰν τὴν ἑαυτῶν εἰσιν.

O "senhor" a que o trecho se refere não é Jesus, nem Deus, mas sim o senhor para o qual trabalha o feitor. O "feitor" - literalmente, "aquele que gere a casa", οἰκόνομος - utiliza as suas artimanhas, em seu proveito, com injustiça. O seu senhor, i.e., o seu patrão elogia-o, mas não elogia a injustiça. O feitor, de facto, enganou o patrão, mas o patrão, não se sabendo enganado, fica contente com a colecta que o feitor apresentou. Contudo, o feitor foi efectivamente esperto porque fez com que os registos coincidissem com a colecta apresentada - na verdade, os registos não foram justos: o feitor fez com que fossem feitos em seu proveito e não em proveito do seu patrão, nem em proveito do que é justo. Mas justamente pela sua esperteza o feitor acabou por ser elogiado pelo patrão enganado.
Aqueles que se preocupam com as coisas do mundo são mais espertos, mais eficazes e mais proficientes do que aqueles que se ocupam da luz - justamente porque não se preocupam com as coisas do mundo parecem descoordenados e insensatos.

Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém julga ser sábio entre vós neste tempo, que se torne estúpido, para que venha a ser sábio.
1 Coríntios 3:18
Μηδεὶς ἑαυτὸν ἐξαπατάτω· εἴ τις δοκεῖ σοφὸς εἶναι ἐν ὑμῖν ἐν τῷ αἰῶνι τούτῳ, μωρὸς γενέσθω, ἵνα γένηται σοφός.
Mas a sabedoria do mundo é ignorância, de tal modo que para adquirir a verdadeira sabedoria é preciso ser ignorante nas coisas do mundo. A sabedoria do mundo é apenas uma ilusão em que cada um se ilude a si mesmo.



Respondendo-lhe disse o senhor: «Marta, Marta, ansiosa e afligida por tantas coisas, mas uma [apenas] é precisa. De facto, Maria escolheu a boa parte a qual não lhe será retirada.
Lucas 10:41-42
ἀποκριθεὶς δὲ εἶπεν αὐτῇ ὁ κύριος, Μάρθα Μάρθα, μεριμνᾷς καὶ θορυβάζῃ περὶ πολλά, ἑνὸς δέ ἐστιν χρεία·Μαριὰμ γὰρ τὴν ἀγαθὴν μερίδα ἐξελέξατο ἥτις οὐκ ἀφαιρεθήσεται αὐτῆς.
As pessoas ocupam-se de tantas coisas que acabam na aflicção. A imensidão de coisas que as preocupam apertam-nas, sufocam-nas. Nessas aflições gastam tempo de vida, mas gastam a vida em coisas que são deste mundo e que, portanto, pertencem ao mundo. Não podem ser levadas e uma vez que chegue a morte tudo fica no mundo mas vai-se a vida e vai-se o tempo. Assim, as pessoas gastam a vida com coisas que só servem enquanto há tempo e servem na medida do mundo. E este é o problema, porque então a morte, se só se têm coisas do mundo, reduz tudo a nada e vai-se tão nu como se chegou ao mundo - por mais riqueza, sucesso, fama ou felicidade se tenha acumulado no mundo, sendo coisas do mundo, são sempre do mundo. Na verdade, nada disso chega alguma vez a ser, verdadeiramente nosso. Na verdade, nem mesmo se conquistarmos o mundo inteiro ele nos pertence. Nada do mundo pode ser adquirido pelo humano, justamente porque é do mundo, é exterior, é outra coisa.
Ou já se nasceu com tudo o que é preciso, ou nada do que é verdadeiramente preciso pode alguma vez ser adquirido. Ou se tem adquirido desde início tudo, ou nada vale a pena. Ou tudo ou nada. Só o que desde sempre já estava adquirido não nos pode ser retirado - desde que o escolhamos e o preservemos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Se alguém quer seguir-me, negue-se a si mesmo

A propósito de Jesus

Disse Jesus assim: "Εἴ τις θέλει ὀπίσω μου ἔρχεσθαι, ἀρνησάσθω ἑαυτὸν" ("Se alguém quer seguir-me, negue-se a si mesmo") - Lucas 9:23.


Jesus foi uma figura revolucionária porque aquilo que ele disse e fez não se enquadrava no comum, habitual e consensual. Aliás, aquilo que Jesus disse e fez não se enquadra, ainda hoje, tal como naquele tempo, no comum, no hábito, no consenso.

Habitualmente, as pessoas gostam de recorrer às palavras de Jesus, mas fazem-no para confirmar e apoiar aqueles pensamentos e aquelas ideias que julgam ser as melhores opiniões disponíveis. Ao fazerem isto não tomam verdadeira atenção às palavras para perceber o que está a ser dito. O comum dos mortais tem certas ideias feitas e parece-lhe que Jesus deve ter querido dizer aquilo que ele mesmo diria.

Mas Jesus não é um mestre qualquer. Quando pedem que Jesus os deixe seguirem-no, Jesus não se mostra entusiasta, de fácil trato, capaz de tudo para ter uma boa multidão atrás de si. Pelo contrário. A um que pede que Jesus espere enquanto ele vai enterrar o pai, Jesus diz que deixe os mortos enterrarem os mortos. A outro que pede a Jesus que espere enquanto se vai despedir da família, Jesus exige que não olhe para trás. Jesus chega ao ponto de explicar que quem o quiser seguir tem de odiar - sim, ODIAR - a família, odiar a própria alma... quem é este mestre que exige que cada um se negue a si mesmo, negue a sua mãe, a sua mulher, a sua riqueza, os costumes, até a moral, para o seguir???

De facto, o costume de enterrar os mortos é antigo. Mas Jesus não parece importar-se com esse velho costume - que pode ser considerado um preceito moral, um hábito de respeito para com o falecido, para com o familiar desaparecido. É velho o preceito de respeitar pai e mãe - mas Jesus exige que quem vai ter com ele odeie o seu próprio pai e a sua própria mãe (Lucas 14:26)...

Esta forma de falar é mais evidente em Lucas, o qual parece menos preocupado com a reputação de Jesus. Seja como for, é evidente que não devemos aproximar-nos da figura de Jesus convencidos de que estamos na posse de uma clareza de juízo, como se pudéssemos esperar que Jesus se nos dirigi-se com as mesmas ideias que nós já temos. Devemos aproximar-nos de Jesus com a mente aberta... muito aberta.




terça-feira, 3 de setembro de 2013

Férias 2013

A propósito de livros...


É habitual recomendarem-se livros para se lerem durante as férias. Mas por que não recomendar livros depois das férias? Justamente, nas férias, lemos alguns dos livros com mais interesse, sem outro motivo que não o interesse neles. Por isso, depois das férias deste ano, recomendo estes dois pequenos livros, que são dois estudos bastante profundos, muito interessantes e perspicazes:

de António de Castro Caeiro, Por Si  Próprio (Com base em Max Scheler),
de Diogo Morais Barbosa, Natura Semper in se Curva - a vinculação a si e a possibilidade de desvinculação segundo Duns Escoto

ambos da colecção Cadernos - Centro de Estudos de Filosofia, Universidade Nova de Lisboa, coordenada por Maria Luísa Couto Soares e com a chancela da Fundação Eng. António de Almeida

domingo, 28 de julho de 2013

Apontamentos para uma leitura dos três porquinhos

A propósito de segurança e insegurança...


Na visão do mundo que podemos chamar de Utilidade cada actividade é para-algo, inserida numa cadeia de para-quês que, em última análise, é em-função do humano. Isto serve para aquilo, que por sua vez serve para aqueloutro, que por sua vez serve para... em que esta remissão sempre se dá em-função de uma possibilidade do humano. De algum modo, o humano busca abrigo e protecção nas coisas do mundo. Não é que primeiramente aí ocorram coisas e depois o homem nelas busque abrigo - o humano já sempre está vinculado a si mesmo, num cuidado consigo, de tal modo que as coisas já sempre vêm ao seu encontro determinadas pelo mor-de-si do humano. E a explicitação desta estrutura do mundo parece fixá-la com mais vigor: o homem percebe que o mundo inteiro está aí para o satisfazer, que as coisas servem para ser usadas - como é evidente. O mundo inteiro é o seu quintal. Mesmo quando percebe que o seu quintal deve ser cuidado, esta postura ecológica mais não é do que uma versão da mesma dialéctica...
Na Utilidade, o humano encontra-se a si mesmo no interior da cadeia, como um momento dela, habitando uma cadeia de regulações completamente determinadas. O humano abriga-se e protege-se nas coisas justamente porque já não está em condições de percorrer nenhum caminho sério, nem de correr qualquer risco para sequer considerar o único perigo que efectivamente sempre corre. O humano sente-se seguro e feliz, sente-se tão mais seguro e tão mais feliz, ou inseguro e infeliz, tão mais inseguro e infeliz quanto permanece cego para o verdadeiro perigo. Sente-se seguro sem saber relativamente a quê deveria sentir-se seguro - e não seguir muito mais "útil" sentir-se inseguro para que pudesse procurar em que se abrigar? Sente-se inseguro sem saber relativamente a quê deveria sentir-se seguro - e não seria muito mais "útil" estar seguro de que a segurança relativamente à qual se sente inseguro não é de facto nenhuma segurança? Mas sentindo-se seguro confia no que jamais lhe foi abrigo, sentindo-se inseguro procura segurar-se no que nunca poderia abrigá-lo. Como aquele porquinho que se sente seguro na casota de palha - como esse mesmo porquinho que, não tendo chegado a tempo a casa e, suspeitando vagamente de que o lobo mau ronda, se sentisse inseguro e desabrigado: não porque tenha percebido o risco que de facto corre, mas porque se imagina seguro e abrigado na sua casa de palha.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O homem é um animal?

A propósito de animais e homens...


É o homem um animal?

A que corresponde exactamente a noção de animal? Um animal - e assim o considera a tradição - corresponde a uma forma natural de determinação de comportamento. O animal nasce já completo - e a aquisição das condições de viabilização da sua vida apenas corresponde à execução dessa determinação com que já nasceu, de tal modo que nunca é mais do que o mero desenvolvimento de algo que desde o primeiro momento estava definitivamente fixado. Isso é um animal e assim o compreende a tradição. Como FORMA natural, a forma animal pode desformalizar-se de diversas maneiras. Há animais que são gatos, burros, cães, etc. Será que os há, também, humanos? À primeira vista dir-se-á que sim. De um ponto de vista científico, ai do estudante que o não sabe. No entanto, temos pelo menos dois problemas para resolver.

O primeiro tornou-se recentemente evidente e não escapa aos homens da ciência moderna. Os cientistas repararam que quer se analise uma pedra quer se analise um caracol, é possível decompor ambos em elementos da mesma natureza, de tal modo que o animal pode ser decomposto no mesmo tipo de elementos em que podem decompor-se as rochas. E isto não fica pelos elementos pois o mesmo se deve dizer do funcionamento. Assim, por mais complexo que seja o organismo, por mais evoluído que seja o animal, este funcionamento pode ser reduzido a quatro forças básicas - as mesmas quatro a que se pode reduzir a pedra e o calhau. Contudo - e aqui reside o problema - o inverso não se consegue fazer. Isto é, embora qualquer estudante medíocre possa decompor uma rã ou uma pedra em elementos químicos, nem o mais genial dos mestres consegue fazer novamente a síntese e obter a rã, embora possa ser capaz de reconstituir a pedra. O mesmo se passa com as quatro forças. Por mais dotado que seja o mestre, por mais tempo que ele olhe para essas quatro forças nunca nelas encontra a rã, nem nenhuma da biologia celular que sabe e aprendeu. Assim, embora tudo seja composto de elementos químicos, nada com eles se pode fazer que nos restitua a rã, embora se possa restituir a rã ao pó. Se a rã é pó, e ninguém duvida disso, já não é tão evidente que o pó seja rã. E o mesmo se passa com as forças, a mecânica, o funcionamento das coisas. É certo que a rã funciona como rã por intermédio das forças básicas, mas olhando para essas forças nada nelas faria adivinhar uma rã. E se sabemos que o básico pode dar numa rã, só o sabemos porque primeiro vimos a rã - e ninguém parece ser capaz de ver no mais básico quais são os animais que existem e que nunca foram vistos, embora, quando os vir, saiba que esses animais também são feitos de átomos e que funcionam por intermédio das 4 forças básicas. E isto funciona a todos os níveis: o vento sopra e podem enunciar-se as leis da movimentação do ar. Mas embora a tempestade não viole nenhuma dessas leis mais básicas, essas leis não servem para compreender a tempestade. Ora, também isto se passa com o homem em relação ao animal: pode ser verdade que o homem veio do animal, como de facto o tornado vem do vento, mas nem o vento explica o tornado, nem o animal o homem.

Mas o problema anterior é, na verdade, o mais simples. Poderia acontecer que o homem estivesse para o animal como o animal para a planta e esta para a pedra. Ou como o tornado está para a movimentação do ar. Poderia acontecer que o humano fosse apenas uma forma mais restritiva da forma animal - como de facto o orgânico relativamente ao inorgânico. Mas não é só isso: o problema - neste caso, o segundo problema que, de uma assentada, lança luz sobre o problema anterior e ao mesmo tempo o faz desaparecer - é que, se tomarmos a forma animal e lhe dermos forma humano, então nada fica do animal, senão enquanto animal, e não enquanto humano. Se há uma forma que a forma humana vem restringir, então esta restrição, seja ela o que for, não restringe nada senão lhe muda o sentido - como se o tornado já não fosse movimentação de ar, como se o orgânico já não se compusesse de inorgânico. Mas se a rã continua a ser pó, o humano já nada tem de animal - senão, justamente, enquanto é animal. Então, quando no humano consideramos o animal, não consideramos o humano - e se o humano é um animal isso só pode acontecer se primeiro se decidiu não o tomar como humano. Porque no momento em que temos uma forma determinada previamente fixada, se é verdade que podemos ter um caracol, uma zebra ou uma andorinha, não podemos ter um humano senão na medida em que um humano possa ser um boi ou um carneiro: e na medida em que haja humanos bestas, nessa mesma medida se pode dizer que também o humano pode comportar-se como animal.