segunda-feira, 13 de julho de 2015

despojar-se da maneira habitual de pensar



"suplico ao leitor para se exercitar, primeiramente, em despojar-se de uma parte da sua maneira habitual de pensar. De outro modo, o problema [...], será, para ele, nulo e não resolvido - e, coisa curiosa, justamente porque já o resolveu há muito"

Kierkegaard, Dois Pequenos Tratados Ético-Religiosos

domingo, 12 de julho de 2015

aquilo que é necessário para alguém ser cristão...

A propósito de ser-se cristão...

Há uma pergunta que nos podemos fazer: será que ser-se cristão pode levar um sujeito a tornar-se fundamentalista? Será que queimar humanos é cristão?

Ora, vamos por partes.


Mas parece ser esta, justamente, a questão. O que é ser cristão? É ter fé? E o que significa ter fé? Será que ter fé é aderir a um conjunto de teses? Ou é uma determinada prática? Não me parece que a fé consista na mera adopção de um determinado ideal enquanto adesão a determinados conteúdos teóricos, como se ter fé correspondesse à defesa de uma tese de doutoramento. A fé - se é fé - há-de verificar-se na expressão existencial dela, se há fé tem de haver prática do ideal, tem de haver reduplicação na existência da categoria a que o sujeito se fixa. Então, ser-se cristão há-de ser qualquer coisa como a expressão existencial de um ideal concreto, o viver de acordo com um determinado modelo que, para o cristão, parece que só pode ser o de Jesus. Não se trata, portanto, de aderir à tese de que Jesus é encarnação de um ente omnipotente que criou o universo e tal. Estas coisas talvez sejam relevantes numa tese de teologia, mas não me parecem ser aquilo que é necessário para se ser cristão.

Uma pessoa que escreve uma tese de doutoramento a defender que o mais provável é que Deus exista e tenha encarnado num sujeito que viveu há 2000 anos, mas cuja vida reflecte uma perfeita indiferença perante o modelo que Jesus é e, simultaneamente, a sua fixação aos valores do mundo, talvez não devesse ser considerada cristã.

O critério para que alguém seja cristão não pode ser o de ele se julgar cristão - a não ser se não estiver em causa, justamente, cumprir com requisitos definidos por Deus... Quer dizer, se o sujeito é cristão com certeza que não dirá que é ele próprio que define o que é ser cristão - a não ser que se esteja a pôr no lugar de Deus. Se um sujeito é cristão, então parece-me que deve ter começado por reconhecer um ideal - que não foi definido por si - e depois por ter-se fixado a tarefa de reduplicar na existência esse ideal.

Portanto, o problema principal parece-me ser, justamente, o de saber "aquilo que é necessário para alguém ser cristão" - e se reconhecemos isto então também reconhecemos que é possível que alguém julgue ser cristão sem o ser. Eu sou ateu, mas compreendo isto muito bem: se se trata de ser religioso, então é natural que o sujeito que quer ser religioso compreenda que não é ele que define aquilo em que ele se deve tornar. E então é natural que a cristandade possa andar arredada do seu próprio ideal... Não se trata aqui de um sujeito pensar que ser cristão é isto, e outro aquilo... Trata-se do facto de um sujeito ser capaz de se esquecer do seu ideal no quotidiano da existência, por muito que bata no peito ao Domingo.


Então, se se trata de cumprir com os requisitos dos quais o sujeito reconhece depender o sentido da sua vida e que reconhece não terem sido definidos por si - se se trata de reduplicar na sua existência a sua fidelidade ao exemplo de Jesus, então com certeza que aquele que mata por Jesus, e até mesmo aquele que mata César por Jesus não é cristão, visto que nada no exemplo de Jesus pode fazer pensar que alguém que mata, queima ou tortura está a reduplicar na sua existência a sua fidelidade ao exemplo de Jesus.




Parece-me, pois, evidente que não é verdade que o Cristianismo trouxe mal ao mundo, ou que levou os homens a praticar o mal.

O que me parece evidente é que os homens praticam o mal.

O facto de um sujeito dizer que mata por ser cristão não prova mais que assim o é do que alguém dizer que mata por eu lho ordenar quando é verdade que nunca lho ordenei.

O facto de ter havido pessoas que se diziam cristãs e que queimaram outras com a justificação do Cristianismo não prova que o fizeram por serem cristãs, ou que o fizeram devido ao Cristianismo, a não ser que se encontre no exemplo de Jesus um dever de matar em seu nome e em tais circunstâncias... Os homens matam, violam, etc. Esta é uma evidência. E fazem-no dizendo que o fazem em nome de muitas coisas, mas no caso do Cristianismo nós temos um exemplo, e se o sujeito acredita que a sua existência deve ser qualificada pela medida da sua fidelidade ao exemplo estabelecido por Deus, então - digamos assim - se ele é honesto, não dirá que é cristão quando está nos antípodas do modelo que Jesus deveria ser para si.

Assim, um terrorista cristão não é mais cristão do que um cristão não praticante, e este não é mais cristão do que um advogado que não cumpriu os requisitos da Ordem é advogado.

Ser-se cristão é, com certeza, ser fiel ao exemplo de Jesus - e não escrever uma tese a defender que Jesus é a encarnação do criador do mundo e vizinhanças, nem matar para defender Jesus e a sua verdade (pois o exemplo de Jesus foi que se deixou ele próprio matar pela verdade).

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Kierkegaard e Nietzsche

A propósito de multidão e indivíduo...

Segundo Nietzsche, as massas devem conformar-se à moralidade enquanto conjunto de normas instituídas - apenas alguns indivíduos conseguem guiar-se pelas leis da própria subjectividade. Kierkegaard concorda. Mas o ponto de Kierkegaard é que todos os indivíduos são capazes de se tornar indivíduos - enquanto Nietzsche parece convencido que só alguns são realmente capazes de não ser multidão. 


Ou seja, quer Kierkegaard quer Nietzsche concordam que a maioria da gente é multidão e que só raramente surgem indivíduos realmente singulares. Mas Nietzsche pensa que isto é assim porque tem e deve ser assim. Já Kierkegaard esforça-se por mostrar que qualquer um pode vir a ser um indivíduo. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Referendo e Impressão de Si

A propósito de impressão de si... no referendo de 05-07-2015, na Grécia

Tudo depende da impressão que um indivíduo, ou um povo, tem de si. O Grego mostrou que tem uma impressão forte de si, uma impressão "nós valemos mais do que os cifrões". Ora, a maior parte dos povos da Europa parece ter uma impressão bem mais pequena de si, pois acha-se bem menos importante que os bancos, os cifrões, etc. Na Europa tem-se uma grande impressão das férias, das praias, do sol, do futebol, dos bancos e até mesmo do gado - mas tem-se uma impressão tão insignificante de si...

O Flirt na Política contemporânea

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A propósito de flirt


Claro que ficamos surpreendidos com o auto-despedimento de Varoufakis. Para nós isto é coisa de outro mundo. Nós estamos habituados aos senhores que não se demitem nunca, que assumem as suas responsabilidades dizendo em horário nobre "Assumo a responsabilidade". 

Ora, quando assumir as responsabilidades significa fazer uma declaração ao telejornal das 20h, torna-se completamente incompreensível que Varoufakis se demita mesmo tendo ganho o NÃO. É que a postura de Varoufakis parece querer dizer que ele está mais interessado em servir o ideal que é o seu, do que em servir-se de um qualquer ideal. E isto é coisa que já ninguém, em boa verdade, entende na Europa.


Houve um tempo em que homens como Sócrates ou Jesus acabavam invariavelmente condenados à morte ou simplesmente assassinados. Porque nesses tempos as pessoas não se permitiam ficar indecididamente perante certos ideais que lhes batiam fundo na alma. 

Hoje vivemos num tempo completamente diferente: as pessoas estão tão distantes do ideal que Sócrates e Jesus poderiam muito bem vir à terra que ninguém despenderia um dia de praia, ou um minuto de um jogo de futebol por eles - nem por eles, nem contra eles.

Note-se: nós temos ideais - veja-se que o panteão continua a encher-se. Nós temos ideais, mas temos ideais rastejantes e, consequentemente, temos uma consciência rastejante deles. Ou seja: somos colectivamente na existência um mercado de valores - ou, como dizia Kierkegaard - um entreposto comercial, um pau-andante.



Quanto nos choca uma Grécia - um povo de gregos que, apesar dos bancos fechados, apesar do terror da falta, vai votar NÃO? Quanto nos indigna que eles tenham coragem?


Na verdade - e é aqui que reside toda a absurda hipocrisia, toda a imundície da pseudo-política de hoje, toda a inexistência de uma consciência política - CHOCA-NOS apenas imaginariamente. O horror, o choque que os jornalistas, os comentadores, os cidadãos pretendem sentir é orvalho num verão de praia antes do começo do campeonato de futebol; toda a raiva dos pseudo-políticos é flirt; toda a indignação dos economistas é ausência de consciência.

Sou plenamente a favor de que se acabe de vez com esta parvoíce das eleições e dos referendos. Crie-se um directório de tecnocratas que decida quem deve e quando deve integrar os governos nacionais. Crie-se um directório de tecnocratas que decida os programas a levar a cabo onde, quando e porquê.
Mas acabe-se de vez com este flirt com a democracia e com os mercados. Ou bem que temos uma tecnocracia, ou bem que temos uma democracia. O flirt com as duas é que não.


Perguntemo-nos o que queremos - e que esse seja o nosso ideal - e depois assumamo-lo sem hipocrisias.

Ou bem que se quer uma mulher, ou bem que se quer a outra. Andar no flirt com as duas é que não!