sábado, 15 de fevereiro de 2014

A categoria do gosto é a imersão

A propósito de imersão

Pois é! Supõe-se, habitualmente, que os homens gostam das coisas porque elas os instam a pensar! Poder-se-ia pensar que ninguém acreditasse que uma pessoa se sentisse atraída por algo não por causa da coisa mas porque a coisa faz pensar... No entanto, é frequente ouvir coisas destas: "ah, e gostamos deste quadro porque ele nos faz pensar", ou "o homem gosta de admirar arte porque esta o faz pensar e lhe permite viajar no pensamento"...

É um equívoco. O que o homem primeiro admira é aquilo em que pode absorver-se, desaparecer. A categoria do gosto é a IMERSÃO.

Portanto, sempre que alguém pergunta a um sujeito por que é que ele gosta disto ou daquilo e ele começa a arranjar justificações percebemos que entrou em funcionamento mais uma ilusão, porque o homem não quer admitir que gosta sobretudo daquilo em que ele mesmo pode desaparecer. E isto é tanto assim que até mesmo o pensamento se pode tornar um processo em que o sujeito desaparece - e podemos confirmar isto sempre que alguém fala de si impessoalmente, fala da vida inumanamente, fala do homem desvitalizadamente! O pensamento de um homem pode ser a maior prova de que ele não gosta de pensar, e que abomina tanto pensar que até quando pensa desaparece do seu próprio pensamento.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A auto-ilusão da reflexão

A propósito de auto-ilusão...


Habitualmente, pensa-se assim: uma pessoa, com esforço, é capaz de adquirir algumas coisas na vida, mas não pode ter tudo e tem de aprender a viver com isto. Isto é o habitual, o imediato, o vulgar. É um mal-entendido pensar que o homem comum está de tal modo iludido que o seu problema é que acredita que pode ter tudo! É um mal-entendido ainda maior pensar que o homem comum está convencido de que quer tudo. Onde se viu um homem que quer tudo? Bem, viu-se nos livros e ouviu-se na palrar do senso-comum acerca de si mesmo. No dia-a-dia o homem vulgar não se quer atirar aos leões, e quando se quer atirar aos leões não é porque também quer dançar na discoteca! O homem vulgar (nós, no dia-a-dia) tem uma dialéctica binária: quer umas coisas e não quer outras.

O difícil e pouco habitual é pensar que uma pessoa não é capaz de adquirir nada por si, mas que é capaz de abdicar de tudo pelas suas próprias forças. Isto é o mais difícil porque habitualmente habita-se uma dialéctica binária e este pensamento, para ser realmente apropriado, exige um terceiro termo: a consciência de si.

Portanto: o fácil é pensar que uma pessoa é capaz de algumas coisas; o difícil é perceber que não se é capaz de nada. No momento seguinte a termos pensado isto entra imediatamente em funcionamento a dialéctica binária que nos induz a acreditar que ainda agora fomos capazes de escrever isto mesmo - e logo se perde a apropriação do decisivo.

Portanto: o fácil é uma pessoa contentar-se com o que tem; o difícil é perceber que a única coisa que se pode fazer pelas próprias forças é abdicar de tudo. No momento seguinte a pensarmos que somos capazes disso entra imediatamente em funcionamento a dialéctica binária que nos lembra que não queremos realmente deixar abdicar das coisas importantes que temos na vida, das pessoas que nos são tão fundamentais, das coisas que só com esforço fomos capazes de adquirir, etc., etc.

Mas dizer que uma pessoa não sabe isto é um mal-entendido. O homem comum (nós) escolheu há muito deixar ignoradas as verdades mais profundas acerca de si mesmo, e com isso vive e vai vivendo.

Apontamentos, consciência - em Kierkegaard

A propósito de consciência - em Kierkegaard

Pode acontecer que o sujeito saiba o que deve fazer, mas que esse saber se inclua na parte de si que ele prefere ignorar. Pode acontecer que o dever seja qualquer coisa deste género... e que qualquer reflexão sobre a ética constitua, precisamente, um modo activo de resistir a confrontar esse inconsciente voluntário.


A oposição tradicional e antiquíssima entre razão e paixão consiste neste equívoco: pensar que as paixões são tentação e a razão é a salvação.

A razão É uma paixão. A razão é uma tentação.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O que há de errado com as fórmulas éticas em geral?

A propósito de fórmulas éticas em geral

Qualquer compreensão que assigne ao ser humano uma tarefa essencial é perversa - isto é, é essencialmente perversa, o que quer dizer que, se for levada até às últimas consequências resulta numa catástrofe ética. Pode-se fazer o teste com alguns dos chavões que andam por aí: "os homens têm o dever de procriar", "os homens têm o dever de trabalhar", "os homens têm o dever de contribuir para a sociedade". Nota: de passagem, note-se que estas fórmulas são de tal ordem que a sua aplicação rigorosa é pensável em simultâneo com a utilização de meios não éticos e desumanos (por exemplo, para aplicar a regra de que os homens devem procriar podem-se usar métodos coercivos, formas de pressão, etc.).
Há algumas que, aparentemente, resistem a este teste. Estas são as tarefas que, embora estejam apresentadas na forma afirmativa-positiva são, quanto ao seu conteúdo, imperativos-negativos. Por exemplo: "os homens devem ser honestos" - que expressa uma proibição geral (e não uma indicação do que se deve fazer em concreto). Estas fórmulas negativas diferem das tarefas positivas (tipo "os homens devem procriar") porque a sua universalização totalitária não leva per se ao colapso ético. O que acontece com as fórmulas negativas é que é perfeitamente possível cumpri-las integralmente e, ainda assim, não ter uma única acção ética em toda a vida, desde que tenha a sorte de a vida não apresentar dilemas éticos tipo "bem-mal".
Em resumo: qualquer fórmula que generalize um dever particular só pode ser, quanto ao conteúdo, positiva ou negativa. Se for positiva, o seu próprio desenvolvimento levará, se for aplicada sem reservas, necessariamente à violação de mandamentos concretos da consciência. Se for negativa, o seu desenvolvimento permite que nunca se viole e, mesmo assim, nunca se faça nada por dever em toda a vida.
O que é a generalização? É que de um caso particular em que a minha consciência me ordena que faça X eu induzo que é "sempre dever fazer X".
O que é a violação de um mandamento concreto da consciência por intermédio da aplicação de uma generalização? É que, num caso particular em que a minha consciência me proíbe de fazer X, há uma fórmula que me ordena que faça X e eu decido seguir a fórmula em vez do mandamento concreto.
O mandamento concreto da consciência é o juízo ético imediato da consciência anterior à reflexão. É, portanto, uma intuição ética.

Não ser capaz de nada

A propósito das capacidades dos homens...

A visão do senso comum acerca do que um homem é capaz de fazer é falha em apropriação.

O que habitualmente se tem a dizer acerca da capacidade não tem realmente que ver com ser essencialmente capaz, mas com o acessório.

Por exemplo. 

Um homem que vive numa floresta remota onde lhe falta a pedra de qualidade faz a sua casa modestamente com madeira. A ideia de fazer um palácio de mármore parece-lhe imprudente porque, como ele sabe, não tem pedra de qualidade para fazer um palácio de mármore. Por isso ele sabe que não é capaz de fazer um palácio de mármore e fica muito contente com a sua casa de madeira. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais. Porque, essencialmente, ele é capaz de fazer um palácio de mármore - ou pensa que é essencialmente capaz de fazer um palácio de mármore - se, pelo menos, tivesse o mármore.

Outro homem vive onde há pedra em abundância, mas falta-lhe o talento para trabalhar a pedra e, por isso, faz uma casa de madeira - ou, se tem dinheiro para isso, paga a quem a faça por ele. Em qualquer dos casos, ele admite que não é capaz de fazer um palácio de pedra porque lhe falta o talento. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais. Porque, essencialmente, ele é capaz de fazer um palácio de mármore - ou pensa que é essencialmente capaz de fazer um palácio de mármore - se, pelo menos, tivesse o talento.

Outro homem tem dinheiro, mármore e madeira e tem também muito talento, força de vontade e saúde - e tudo aquilo que se lhe quiser atribuir humanamente. Esse homem pode construir um edifício enorme em mármore, com muitas salas e varandas, etc. Constrói o edifício com as suas próprias mãos, aproveitando o seu talento e o mármore de que dispõe. No final ele compreende que é capaz de fazer um palácio e aponta para o facto de que o fez como prova disso. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais. Porque, essencialmente, ele é capaz de fazer um palácio de mármore - ou pensa que é essencialmente capaz de fazer um palácio de mármore - e a circunstância de o ter feito é simplesmente acidental.

Finalmente, um quarto homem, sábio e culto, dirá que as pessoas têm capacidades muito distintas e extremamente variáveis: há umas capazes de tanto e outras de tão pouco, no entanto toda a gente é capaz de alguma coisa e por isso cada um deve aprender, pela experiência e conhecimento, a reconhecer os seus limites e a ficar dentro deles. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais - ou das capacidades reais do humano. Porque, essencialmente, para ele, toda a gente é capaz de tudo, desde que tenha as condições para isso.

De facto, o que é difícil é perceber que o humano não é capaz de nada no mundo. O que é difícil é compreender o que significa isto: que o humano não é capaz de nada. Que nada está no poder do humano - excepto, o ser humano. Os homens não são capazes de nada - senão de ser humanos, e que isto é o essencial, que isto é tudo o que importa. Perceber isto, compreender isto - apropriar o sentido profundo disto: isso é o mais difícil, o mais difícil de tudo. E é tão difícil porque, antes de mais nada, não se deseja compreender: sempre que se começa a pensar sobre isso, sempre que se começa a fechar portas, a querer entender o que significa este "nada", e este "ser capaz", há uma porta ainda ignorada, um caminho ainda não visto, uma desculpa nova que vem em nosso auxílio para nos dar a sedutora e ilusória ideia de que somos capazes, pelo menos, de alguma coisa.

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Cfr. Kierkegaard, Postscriptum: 
But on Sunday, yesterday, the priest said that a human being is incapable of anything at all and we all understood it. When the priest says it in church, we all understand it, and if anyone wanted to express it, existing, and be seen to do so in the six days of the week, we would all be on the point of thinking: he is mad.
(tradução de Alastair Hannay)