sábado, 11 de janeiro de 2014

Cobardia e decisão

A propósito de cobardia...

Segundo Kierkegaard, a cobardia é a arqui-inimiga da decisão. Uma pessoa pode ler isto e pensar que é mesmo assim, que muitas vezes temos receio de tomar uma decisão, e que então adiamos a decisão. Mas temos a tentação de pensar que não é assim, pelo menos connosco, na maioria das vezes. Tendemos a pensar que a nossa vida é uma constante de decisões, muitas delas corajosas, muitas delas contra verdadeiros perigos e arriscando muito, ou empenhando muito tempo e esforço. E, no entanto, é justamente a este estado de coisas que Kierkegaard se dirige: à nossa renovada coragem para lutar pelo sucesso, para defender o nosso talento, para lutar no mundo usando as nossas capacidades para enfrentar perigos imensos e ganhar o reconhecimento, aquela promoção, aquele ordenado, aquele aplauso dos chefes e dos iguais, aquele estar entre os outros e sentir que os outros nos admiram por tudo aquilo que conseguimos apesar das dificuldades. E, no entanto, é justamente a este estado de coisas que Kierkegaard chama cobardia.


"E, no entanto, a distinção entre cobardia e orgulho é uma falsa distinção, pois as duas são, na verdade, uma e a mesma coisa. A pessoa orgulhosa quer sempre fazer o que está certo, a grande acção. [...] Quer ter uma grande tarefa à sua frente e executá-la de livre vontade. E, assim, ele está muito contente com o seu lugar. [...]
[...] Claro que a verdadeira cobardia nunca se mostra como tal. Não faz um grande alarido. Não, ela está bem escondida e silenciosa. E, no entanto, ela junta a si todas as outras paixões porque a cobardia está muito confortável e é muito obediente em associação com outras paixões. [...]
[...] O verdadeiro significado da decisão é que nos dá uma conexão íntima. [...] A cobardia, por seu lado, apenas quer saber das coisas realmente importantes, das grandes coisas, não para que realize qualquer coisa com todo o coração, mas para ser lisonjeada por fazer qualquer coisa que é nobre e grande. Contudo, escondido por detrás do que é exaltado não está nada senão uma desculpa para não conquistar as pequenas coisas, que o sujeito omitiu, simplesmente porque eram pequenas.
Portanto, não te deixes enganar. Pode ser que com grandes decisões os outros se maravilhem contigo. Contudo, terás perdido a única coisa que é precisa. Podes ser honrado nesta vida, relembrado por monumentos erigidos em tua honra, mas Deus irá dizer-te: "Pessoa infeliz. Por que não escolheste o caminho melhor? Confessa a tua fraqueza e enfrenta-a.""

Kierkegaard



"Que não sejamos enganados neste assunto de querer apenas uma coisa. Aquele que quer o Bem, por exemplo, por mor de qualquer recompensa também não quer apenas uma coisa. Tem um pensar-duplo. Não é difícil de ver. O Bem é uma coisa; a recompensa é outra coisa. Querer o Bem por mor da recompensa não é querer uma coisa, mas duas. Se um homem ama uma rapariga por mor da sua riqueza, quem o chamará de amante?"
Kierkegaard






Ética e admiração

A propósito de admiração...

Por que eticamente não há admiração, ou, na admiração não é ética? (cf. Anti-Climacus e Johannes Climacus)

A admiração é desprendimento por implicação. Eticamente, o desprendimento é a anulação do ético. A admiração é estética e a verdadeiramente admiração é bela e admira o belo, pode provir de um grande homem ou admirar um grande homem - mas não pode ser ética, ou pode apenas parecer-se com o ético. No ético a admiração é falsa, ou se a admiração é verdadeira, aí o ético é um embuste. Eticamente, o homem ético que admira um homem exemplarmente ético admira-o falsamente - e o que é falso é que ele o admira, não que ele é um homem ético, se ele é um homem ético. Porque se é ético então ele já está imediatamente concentrado em si mesmo, no que ele tem por fazer para ser exemplarmente ético, e por isso não perde tempo a admirar, a bater palmas, a fazer discursos de circunstância.







"O oposto permanece verdadeiro acerca do universalmente humano ou disso que cada ser humano, cada ser humano incondicionalmente é capaz de, isso que não está dependente de nenhuma condição excepto aquela que está no poder de cada um, o universalmente humano, isto é, o ético, isso que cada ser humano deve e, portanto, também se presume que pode fazer. Aqui a admiração é totalmente inapropriada e ordinariamente é enganadora, uma artimanha que procura a evasão e a desculpa. Se eu conheço um homem por quem tenho estima por causa do sua abnegação, auto-sacrifício, magnanimidade, etc., então eu não devo admirá-lo mas devo ser como ele; não devo enganar-me e iludir-me a mim mesmo pensando que é qualquer coisa meritória da minha parte, mas pelo contrário devo entender que [eu admirá-lo] é apenas a invenção da minha indolência e cobardia; eu devo assemelhar-me a ele e começar imediatamente o meu esforço para me assemelhar a ele."
Anti-Climacus [Kierkegaard], Practice in Christianity, XII, 222

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mundus vult decipi - e a boa consciência

A propósito de,

Por vezes diz-se que "durmo de boa consciência", e ao ouvir isto uma pessoa pode ficar com a certeza de que alguma coisa está mal com uma tal consciência. É que uma boa consciência só pode ser gozada por uma pessoa realmente má. A coisa, em termos éticos, é mais ou menos assim: se dormes de boa consciência, estás a enganar-te a ti mesmo. Dormir de boa consciência significa que, algures, o sujeito voluntariamente se adormece ou adormece a sua consciência.

Uma consciência tranquila não é - sublinhe-se: não é marca de bondade - sobretudo não é marca de que se fez o que se deve, não é marca de que se cumpre o dever, não é marca senão de que a consciência está tranquilizada; o decisivo é precisamente isto: que a tranquilidade nunca causa a actividade. Uma consciência tranquila não é uma consciência ética - mas o seu esvaecimento - a tranquilidade não é marca de cumprimento do dever, mas a marca da falta do dever. Eticamente, a tranquilidade da consciência é uma tentação; em termos religiosos, sem outra qualificação, a tranquilidade é culpa.


"Mundus vult decipi" significa que, em rigor, o humano é uma estrutura categorial-existencial tal que tende constitutivamente para a auto-ilusão (quer dizer, não acontece que se engane apenas aqui ou ali, ou que o engano lhe venha, por assim dizer, de fora, ou que se iluda algumas vezes mas não noutras), e que esta tendência inevitável para se enganar a si mesmo é voluntária.


Kant, Crítica da Razão Pura, B397 em diante, fala de uns tais sofismas "que se originam da natureza da razão", que não surgem dos factos nem às vezes, que "não são dos homens, mas da própria razão pura" - sim, da própria razão pura - "dos quais nem o mais sábio dos homens se poderia libertar"...

A questão é ainda mais grave se tivermos a noção de que não só o humano é tal que constitutivamente está em ilusão, como também constitutivamente tende para a ilusão.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Acompanhamento de si... identidade e si mesmo

A propósito de solidão...

Existencialmente, pensar é um acto solitário. Solitário mas não desacompanhado. Pensar é um acto em que eu faço companhia a mim mesmo: estar desacompanhado expressa que sou incapaz de me fazer companhia - e, então, é indiferente se estou junto a muitos outros ou se estou numa ilha deserta. Se estou ausente de mim mesmo posso, de facto, mergulhar nos outros, esquecer-me de mim junto dos outros, mas no fim do dia terei de regressar ao ermo interior em que, sendo eu um só, estou sem companhia - e o ser um só distraído junto dos outros é apenas uma forma distraída de estar desacompanhado.


A moderna busca de identidade é um equívoco. Um sujeito quer encontrar-se e então esvai-se pelo mundo, por aventuras dignas de um filme e leva, de facto, a sua vida como se fosse um filme, e é, portanto, tanto si mesmo ou está tão no encalço de si mesmo como um protagonista de um filme... Precisamente como uma personagem (máscara), justamente como num filme (ficção)...

Tenta-se resolver a crise de identidade nunca estando só, mas essa é justamente a crise de identidade...

Não há nada mais irónico do que um sujeito precisar, em ordem a encontrar-se, de viajar pelo mundo ou, para saber quem é, de experimentar muitas coisas ou, para querer alguma coisa, de perguntar ao mundo o que ele próprio quer.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Solidão do nosso tempo

A propósito de solidão...

A solidão... 

Há que dizer: o medo da solidão revela que há solidão antes mesmo de se estar sozinho. Revela que o estar sozinho vem apenas a desocultar a forma da vida quotidiana: a solidão profunda. O reboliço é enganador, porque justamente o afã de estar sempre com os outros, o medo de não ter com quem estar, o não saber o que fazer com o tempo quando não há reboliço - justamente isso é a maior solidão, a solidão profunda. Mas o problema do nosso tempo não é a solidão - e esse é o equívoco. 
O problema é exactamente que não se sabe já estar na intimidade de si consigo mesmo.