quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Desemprego e Empreendedorismo - a ilusão

A propósito de ilusão...

O problema da ilusão é que não se sabe que se está na ilusão enquanto se está nela...

Por exemplo, tendemos a ver o filme Lincoln como se Lincoln nos representasse a nós, como se ele estivesse lá no passado para defender as nossas ideias de agora... Mas isto esconde uma realidade bem diferente... Na verdade, provavelmente, se nós estivéssemos lá com ele, faríamos parte daqueles contra os quais ele teve de lutar...

Lincoln teve de lutar contra as ideias do seu tempo, coisas que se tinham por certas, como a inferioridade das raças não brancas, a menoridade feminina. Naquela altura era considerado tão parvo dizer que uma mulher deveria votar, ou que um preto era igual a um branco, como hoje é considerado parvo dizer que uma mulher não deve ter o direito de votar, ou que um preto é inferior a um branco.

Com isto não estou a defender nenhum relativismo, nem o contrário... Estou a dizer simplesmente que, muito provavelmente, a maioria de nós que louva Lincoln, se tivesse estado lá com ele, teria julgado as suas ideias parvas e que ele próprio era parvo por manter uma guerra em nome de uma ideia tão parva como a abolição da escravatura. A maioria de nós, se tivesse vivido na Alemanha nazi, teria ido aplaudir Hitler, teria até talvez votado nele, ou não ter votado de todo, mas teria ido aos comícios esticar o braço e a mão e denunciaria com sentido de dever cumprido o vizinho à Gestapo. A não ser que nós próprios fôssemos Judeus. É este o problema da Ética: todos nós a temos em nós mas a maioria de nós só a reconhece quando ela é do seu interesse...


Todos nós conhecemos quem até há uns meses atrás defendia acerrimamente que só quem não quer trabalhar está desempregado e que agora está também desempregado. Mais interessante ainda é que ainda há muita gente que tem essa teoria de que os apoios sociais deveriam acabar. Ouço sempre com estupefacção quem, por exemplo, na Antena Aberta da Antena 1 vem defender esta teoria. E quase aos berros diz que têm de acabar os subsídios porque as pessoas simplesmente não querem trabalhar e por isso é que estão desempregados. Muitos dos que pensam assim não sabem, com certeza, que muita gente que está desempregada já nem recebe subsídio de desemprego.
Associado ao desemprego anda o problema dos suicídios. Aumentam a cada mês. Em Espanha a questão tem sido mais visível porque está associada ao ritmo dos despejos que já são numa média de 600 por dia. São 600 famílias despejadas todos os dias. Mas a mentalidade de que o desemprego é culpa do desempregado fez carreira e faz carreira, principalmente nos países latinos e do sul. Estes países têm sido remetidos a uma função de meros prestadores de serviços. As actividades produtivas foram deslocalizadas. Portugal quis tornar-se um país de serviços. A isto andou associada a apologia do Empreendedorismo. O Empreendedorismo é, de facto, muito positivo. Mas foi uma ideia utilizada para ajudar a transformar Portugal num país que nada produz. Ao contrário do que se pensa, Portugal é o país que cria mais empresas, é o país onde o empreendedorismo fez carreira. Claro que isso andou associado à deslocação da produção para outros países enquanto se fez crer às pessoas que não havia problema nenhum em cair no desemprego, que isso era uma oportunidade. E estas louváveis ideias, que são de facto louváveis, foram utilizadas para criar a mentalidade que ajudou a enterrar-nos e que há-de enterrar-nos cada vez mais. Quando para o ano atingirmos 20% de desemprego, e no outro ano sabe-se lá que percentagem atingiremos, aí estarão os restantes 80% ou 70% ou 60% para garantir que a culpa do desemprego é dos desempregados. E assim continuar-se-á a defender inquestionavelmente o Empreendedorismo num país que cria imensas empresas que duram 2 ou três anos mas que não criam nenhuma estrutura, não acrescentam nenhuma sustentabilidade ao sistema, pelo contrário, tornaram-no cada vez mais dependente da circulação de dinheiro que não existia de facto, da entrada de financiamento externo que recolhia juros, etc. De tal modo que agora se está a ver precisamente isso: o nosso sistema é insustentável.
A Alemanha fez os seus negócios com a China, a União Europeia teve de ceder à China e a outros mercados porque isso interessava à Alemanha que lhes vendia a maquinaria. Porque a Alemanha, obviamente, não caiu na parvoíce de estrangular a sua produção, nem na estupidez de se tornar um país de serviços.
Vemos agora que há cada vez mais despedimentos colectivos porque aquilo que se faz em Portugal pode ser feito em qualquer lado, na Índia ou na China, sem grande dificuldade. Ao contrário da Alemanha, não estamos especializados em nada que exija uma perícia exímia, um conhecimento especializado. A Irlanda restabeleceu-se também (mas não só) porque tem essa especialização, tem um sector industrial bem desenvolvido e especializado. Coisas que não podem passar a ser feitas na China de um dia para o outro. Daqui a uns anos, quando a China estiver mais especializada do que a Alemanha, então talvez os Alemães comecem a pensar de outra forma. Por enquanto, Portugal vai ser deixado a afundar-se cada vez mais - no limbo, desde que, obviamente, seja o que for que aconteça, não ameace a moeda única enquanto esta for útil à Alemanha. Mas a China sabe isso. Faz contratos que não têm altos rendimentos imediatos, mas que lhes permite aprender, conhecer estruturas, adquirir conhecimentos técnicos e científicos, porque sabe que, no futuro, isso levará para o seu território também as indústrias de ponta. Aliás, essa deslocalização também já começou. A Apple, por exemplo, já deu o passo.
Continuemos, pois, com a ideia de que o desempregado é o mau da fita, de que o empreendedorismo é que interessa seja em que moldes for, que é bom é essa iniciativa individual de cada um (e reafirmo que isso é verdade - mas depende da forma em que seja feito) - continue-se com essas ideias e daqui a uns anos veremos que tudo o que há vem da China, e que não só, como os EUA já estão, estaremos dependentes dos bancos chineses, como também estaremos dependentes de todas as suas empresas - mas nessa altura, durante muito tempo, as suas empresas poderão dar-se ao luxo de nos explorar sem qualquer medo, porque o mercado interno Chinês, quando estiver no seu máximo, terá um tal número de consumidores que os empreendedores chineses se poderão dar ao luxo de cagar para todos nós!

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