terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Crente e não-crente. Credere ut intelligere.


A propósito de crentes e não crentes...


Credere ut intelligere, intelligere ad credendum. Crer para entender, entender para crer.

Diz-se, por vezes, que o mundo está cheio de "sinais". Mas há um problema com os sinais: eles são sinais para quem se encontra já numa disposição propícia que lhe permite sinalizar ou reconhecer sinais. O que, para um crente, é um sinal, é para um ateu um (a)caso como qualquer outro. Para entender é preciso crer. Por outro lado, supõe-se que, para se crer em algo, uma pessoa deve primeiro ter sido direccionada até esse ponto, quer dizer, deve ter encontrado sinais. Para crer é preciso entender. Encontramo-nos, assim, num círculo aparentemente incompreensível.

De algum modo, a crença deve estar já como predisposição no futuro crente, ou ele jamais se tornaria crente. Quer dizer, nada no mundo pode provar que Deus existe, se não houver no humano uma compreensão prévia de que Deus existe. Então coloca-se outro problema que é saber como pode alguém não ser crente. O não crente deve estar sempre predisposto para crer... com isto não se diz que o não crente se deveria manter de mente aberta à crença, não, não é isso que estou a dizer. O que estou a dizer é que o não crente é um crente em potência, um crente que vê bem para onde as coisas parecem apontar, mas que, de alguma forma, recusa a validade desse sinal. O que é, então, a consciência não-crente?

Se o não crente não for, de algum modo, um crente não desenvolvido, então o crente nunca seria possível. Mas o não crente é como quem encontra um sinal e, no entanto, não acredita na boa vontade de quem o colocou ali. Quer dizer, o crente acredita que o sinal foi ali colocado com uma intenção diferente daquela que ele parece ter. Como quem encontra uma placa na estrada que aponta a direcção de Lisboa, mas como não acredita na "placa", segue noutro sentido.

O que é, então, a consciência não crente? A consciência não crente é a consciência de que a consciência quer ser enganada. Aquele de quem o não crente duvida é de si mesmo. Ele vê sinais em todo o lado, pois não poderia discutí-los se não os visse, não poderia negá-los se não os visse. A possibilidade de rejeitar reside sobre a aceitação prévia disso que, depois, se nega. Ele vê os sinais, mas duvida do que vê, na verdade, duvida de si mesmo, pois sabe que a consciência quer enganar-se. Sabe que o humano precisa de acreditar em algo, então duvida disso em que, de algum modo, já acredita, precisamente porque sabe que o facto de precisar de acreditar em algo não torna isso real.

Para o não crente, portanto, o mundo inteiro é uma criação da consciência. Entende-se, pois, que ele tenha a tendência para afirmar que o homem é a medida de todas as coisas, e se torne amargurado quando percebe o significado da sua liberdade absoluta. Aquilo que, num momento ou noutro, acabará por amargurar o não crente é mais um passo no processo de conhecimento de si mesmo: "se Deus não existe, então tudo é permitido".

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