segunda-feira, 4 de junho de 2012

Pequeno comentário ao "Cosmopolis"

A propósito de "abundância"...

O título reflecte a junção de duas noções gregas: κόσμος e πόλις. O termo κόσμος [kósmos] significa ordem, e o termo πόλις [pólis] significa cidade-estado, cidade, conjunto de cidadãos, comunidade. O termo pólis pode ser hoje lido como Estado, apesar do anacronismo. Ou sociedade. E o termo kósmos indica-nos a ideia de Universo.
Cosmopolis significa, então, a ordem da nossa sociedade, ou sociedade de [uma determinada] ordem.

O filme Cosmopolis, de Cronenberg, pode ser analisado a partir de diversas perspectivas.

A primeira coisa a dizer é que não se trata de um filme para as massas, o que quer que isso seja. Tive o privilégio de ver o filme numa sala com mais sete pessoas e no final éramos quatro. Não se trata de um filme atractivo para quem procura acção e efeitos especiais estapafurdicamente caros!

Numa segunda leitura interessa dizer que há muito que pensar sobre o filme. Podemos ver o filme e dialogar com ele. É filme para nos fazer colocar certas perguntas.

Por isso, é recomendável a quem desejar pensar. Sobre o quê?

Podemos ler o filme como uma crítica à nossa sociedade, ao nosso sistema capitalista, à ética financeira, aos movimentos de capitais e à soberba e fedorenta acumulação pornográfica de dinheiro.

Não é o que se faz aqui. Neste texto procuramos apontar uma outra leitura, também possível, do filme.

O filme é sobre a riqueza, mais concretamente, sobre um rico. Em questão está o significado da abundância. Por baixo de cada diálogo, de cada movimento está uma singela e antiga questão: "qual o valor da abundância?"

Por isso, o filme pode ser lido fazendo caminho a partir da natureza humana, do sentido da vida e das questões envolvidas por estes grandes temas humanos.

O que é a abundância? Ora, aparentemente, a abundância é a satisfação, é saciar apetites, resolver problemas, ter a vida servida numa bandeja. Aparentemente, o protagonista tem a vida toda à mão de semear, sem problemas de maior, livre para se lançar em campanhas absolutamente idiotas, caprichos totalmente parvos, como querer cortar o cabelo do outro lado da cidade...

"O importante é saber que a cortiça está lá." A limusina do protagonista é enorme. Quando foi feita, tornaram-na à prova de bala, e à prova de som. Foi colocada cortiça. A cortiça isola o som. Mas não consegue isolar o ruído da cidade. A cidade é demasiado ruidosa. O barulho atravessa a espessa parede da limusina. Mas o importante, diz ele, é saber que a cortiça está lá.

A abundância é apenas isto: ter à disposição o máximo de possibilidades. Mesmo as mais absurdas. Ser rico é dispor abundantemente de possibilidades abertas, exequíveis. Ter dinheiro para gastar onde e como lhe apetece. Ter seguranças, ter sexo, ter bebidas, ter mulher, etc...

Há sempre pequenas coisas que não se conseguem. Casou com a mulher que quis, mas não conseguiu salvar o casamento. Tem muitas mulheres com quem fazer sexo, mas a sua mulher nega-lho. E até mesmo aquilo que lhe parecia mais garantidamente adquirido, o saber exímio relativamente às finanças, à economia, afinal teima em ser insolente, em comportar-se fora de qualquer padrão, sem esquemas prévios, à revelia das expectativas. O yuan, a moeda chinesa, sobe, e sobe, e sobe. Era impossível subir mais. "No entanto, subiu."

Depois, sempre aquelas pequenas urgências, estúpidas. Cortar o cabelo. Aquele que está na abundância quer tudo. Quer poder satisfazer qualquer desejo, mesmo e sobretudo os mais estúpidos: aqueles que só ele poderia dar-se ao luxo de ocupar-se em satisfazer. Pois, essa é a marca do rico: pode dar-se ao luxo de carregar os mais absolutamente excêntricos caprichos.

Aquele que está na abundância rodeia-se de métodos para controlar o mundo à sua volta. A abundância exige e permite isso: evitar o imprevisível, tecer uma teia de previsibilidade. Mapear o mundo. Ter um médico à disposição. Seguranças com armas accionadas pela voz. Limusinas blindadas. Um exército de servidores a mapear, a catalogar, a estilizar. Vive-se do mapeado, com o mapeado, para o mapeado. A certa altura a abundância disponibiliza um mapa tão abundante de possibilidades mapeadas que começa a parecer-se com uma prisão.

O desejo de ter à disposição o máximo de possibilidades possível leva o rico a querer, também, a possibilidade de não viver dentro dos limites oferecidos pelo mapeamento. O rico quer provar que tem à sua disposição dormir debaixo da ponte... Pois, se assim não fosse, o que o distinguiria do sem-abrigo? O sem-abrigo pode dormir debaixo da ponte, mas não pode dormir num palácio. O rico não quer, simplesmente, dormir num palácio. Ele deseja o incremento de possibilidades: ele quer poder dormir onde e quando lhe apetecer. Mesmo debaixo da ponte.

O protagonista desfaz-se do segurança e vai ao encontro do seu assassino. Quer viver fora do horizonte mapeado. Quer gozar da gentil leveza do yuan, o qual parece comportar-se como se nenhum gráfico pudesse sequenciá-lo, compreendê-lo. O rico quer ser livre das fronteiras estabelecidas pela abundância que ele próprio criou.

Mas, afinal, o que são todas as possibilidades que se tiveram, o que é toda a abundância que se tem, o que é cada movimento inesperado que se quer poder projectar no desconhecido? Por que razão o rico se deu a um trabalho colossal para mapear o mundo inteiro e agora quer apenas poder movimentar-se fora desse mapa? Será porque percebeu que há sempre coisas que nos escapam? Como o yuan na sua subida inesperada? Como a próstata assimétrica do protagonista? Há coisas que teimam em cair fora do mapeamento. Mas isso não significa que o mapeamento não seja válido. Poderia, precisamente, significar que se deveria exercer maior esforço para mapear ainda melhor, ainda mais.

Mas não. O protagonista cai numa espiral de sem sentido.

O filme começa com um capricho: o rico quer cortar o cabelo. Para isso terá de atravessar uma cidade. É um capricho que é uma afirmação: eu posso querer coisas tão parvas como isto! Para quem não está na posse de tão avantajada riqueza, esse capricho aproxima-se do non-sense.

No final o protagonista cai num buraco onde se confronta com a sua vida: meaningless. Non-sense não é o mesmo que sem sentido. Non-sense é o impertinente face ao sentido. Quando não há sentido, também não há non-sense.

De que valeram, então, todos os feitos do rico? De que vale a abundância? Na posse da abundância o rico percebe que todas as possibilidades que estão disponíveis, que são muitas, lhe são inúteis se não souber, precisamente, qual é a possibilidade decisiva. Podem ter-se muitas possibilidades e todas elas se mostrarem incapazes de satisfazer. Podem ter-se muitas possibilidades e não se saber qual delas é a que importa colher. Podem ter-se muitas possibilidades e não se ter, precisamente, aquele que é decisiva. Não porque falte ainda esta ou aquela simples possibilidade, como se houvesse ainda a fazer um incremento quantitativo de possibilidades à-mão. Não. Ter à disposição uma quantidade absurda de possibilidades pode, precisamente, colocar em evidência que não se cumpriu a possibilidade mais própria de nós mesmos.

É errado pensar que o suicídio é um acto dos pobres, daqueles que são confrontados com a dificuldade, com o fechamento de possibilidades. Mas é assim que normalmente se pensa o suicida. Pensa-se que o suicida é aquele que ficou sem emprego, sem mulher, sem filhos. Contudo, isto oculta o que está em causa no suicídio como encontro com o nada. Aquele que dispõe abundantemente, aquele que tem tudo o que pareceria necessário à felicidade, encontra-se precisamente naquele ponto em que pode confrontar-se com a evidência da absoluta incapacidade de tudo isso para dar sentido à sua vida. Não são as possibilidades que dão sentido. Pelo contrário, as possibilidades fazem sentido de acordo com o sentido previamente aberto. Se o sentido se fecha, não há possibilidade - porque, então, todas as possibilidades que estão presentes se mostram falsas. Nenhuma é A possibilidade.

Neste sentido, aquele que vive na míngua está constantemente confrontado com urgências imediatas que o ocupam. Ocupado nisso que urge não tem tempo para pensar onde vão dar todas essas desincumbências. O rico, pelo contrário, dispondo da abundância, está mais próximo da pergunta inquietante: para que serve tudo isto?

Não é só o facto de que nunca se alcança tudo. Mas sim que, ainda que a abundância seja plena ela não colmata, não sacia. A possibilidade extrema de cada um pode, pelo contrário, apresentar-se àquele que não é rico, mas que vive por um sonho. Um sonho que ele é. Um sonho de uma sombra (Píndaro).

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