quinta-feira, 14 de junho de 2012

O castigo do mundo e o temor a Deus

A propósito de: LXX, Ecclesiastes 8:10-13


10 καὶ τότε εἶδον ἀσεβεῖς εἰς τάφους εἰσαχθέντας, καὶ ἐκ τόπου ἁγίου ἐπορεύθησαν καὶ ἐπῃνέθησαν ἐν τῇ πόλει, ὅτι οὕτως ἐποίησαν. καί γε τοῦτο ματαιότης. 11 ὅτι οὐκ ἔστιν γινομένη ἀντίρρησις ἀπὸ τῶν ποιούντων τὸ πονηρὸν ταχύ: διὰ τοῦτο ἐπληροφορήθη καρδία υἱῶν τοῦ ἀνθρώπου ἐν αὐτοῖς τοῦ ποιῆσαι τὸ πονηρόν. 12 ὃς ἥμαρτεν, ἐποίησεν τὸ πονηρὸν ἀπὸ τότε καὶ ἀπὸ μακρότητος αὐτῷ: ὅτι καί γε γινώσκω ἐγὼ ὅτι ἔσται ἀγαθὸν τοῖς φοβουμένοις τὸν θεόν, ὅπως φοβῶνται ἀπὸ προσώπου αὐτοῦ: 13 καὶ ἀγαθὸν οὐκ ἔσται τῷ ἀσεβεῖ, καὶ οὐ μακρυνεῖ ἡμέρας ἐν σκιᾷ ὃς οὐκ ἔστιν φοβούμενος ἀπὸ προσώπου τοῦ θεοῦ.


Tradução: 

10 E então observei os ímpios sendo levados nos funerais, e do lugar santo serem carregados e eram louvados na cidade, porque assim fizeram[1]. E também isto é vacuidade. 11 Porque não vem a acontecer alguma objecção aos que fazem o que é mau prontamente[2]: assim, por isso, o coração dos filhos do humano está[3] comprometido em si mesmo a fazer o que é mau. 12 Assim, o que cometeu faltas, fez o que é mau desde então e durante muito tempo o fez. Portanto, assim eu sei que será bem com[4] aquele que teme a deus, uma vez que temam em frente dele. 13 E com o ímpio nada será bem[5], nem alongará os dias na sombra, pois que não é temente perante deus[6].



Discussão na LXX:

O temer daquele que teme "na frente" de deus não é o mesmo que temer uma qualquer ocorrência intramundana. Na verdade, diz o Pregador, a experiência mostra que habitualmente a justiça do mundo tarda. O adiamento da oposição ao fazer errado do ímpio cria um ilusão de impunidade e mantém os ímpios na perpetração do errado. E de facto, por toda a parte os bons são tratados como maus, e os maus como os bons. Os pobres são oprimidos e os injustos adquirem poder. Os ímpios são, pois, encorajados a fazer o mal tendo em vista a satisfação do desejo de abundância.

Mas aquele que teme a deus faz o bem, das suas mãos eclode o que é recto, sadio. Não porque tema o castigo que vem do mundo ou da cidade, mas porque treme na face de deus.

O que corre bem aos que temem a deus não é ao modo do mundo: no mundo, há bons que sofrem e maus que têm sorte. Ninguém sabe quando morre, e ninguém foge à morte. A morte vem sempre a todos e não se pode evitar. O justo também morre, o bom também sofre injustiças. Não é o fazer o bem que faz com que as coisas corram bem. O temor a deus é de outra ordem, e de outra ordem é também o correr bem daquilo que corre bem com os tementes a deus. Também sofrem injustiças e vivem as dores do mundo, na sombra que é o tempo de vida. Também vivem na vacuidade. E tudo isto é vacuidade, porque não é isto que é relevante, não é nisto que o temente a deus põe a vista. Segundo a ordem do mundo tudo indica que aquilo que vale a pena é tão só viver na diversão, comer, beber e festejar. Mas não é comer, nem beber, nem festejar, nem viver na diversão, nem os resultados das acções humanas que é bom para o humano (2:24). O modo do mundo não é mais que vacuidade. Na verdade é ilusão. Tudo isto é vacuidade, tudo isto cria ilusão: o facto de que o justo sofre, de que o injusto ganha, de que o bom é oprimido, de que todos morrem, os benefícios das nossas acções... Tudo isto é vacuidade, e tudo isto é vazio.

Mas é errado dizer que há aqui a crença numa ordem justa do mundo. O mundo não é justo. Precisamente tudo o que é do mundo é vacuidade. Nenhum facto, nenhum acontecimento, nada formula correctamente uma resposta para a vida humana, e isto indica que a maioria das pessoas coloca equivocamente o problema da vida humana, do seu sentido e do seu destino.

E estas palavras são sábias e profundas - quer se seja ou não crente.

Cf. Eccl. 2:24: Οὐκ ἔστιν ἀγαθὸν ἐν ἀνθρώπῳ: ὃ φάγεται καὶπίεται. Em 8:15 diz-se: ὅτι οὐκ ἔστιν ἀγαθὸν τῷ ἀνθρώπῳ … ὅτι εἰ μὴ τοῦ φαγεῖν καὶ τοῦ πιεῖν

Ver Jamieson-Fausset-Brown Bible Commentary: … “The Hebrew, literally is, "It is not good for man that he should eat," &c., "and should make his soul see good" (or "show his soul, that is, himself, happy"), &c. [Weiss]. According to Holden and Weiss, Ec 3:12, 22 differ from this verse in the text and meaning; here he means, "It is not good that a man should feast himself, and falsely make as though his soul were happy"; he thus refers to a false pretending of happiness acquired by and for one's self; in Ec 3:12, 22; 5:18, 19, to real seeing, or finding pleasure when God gives it. There it is said to be good for a man to enjoy with satisfaction and thankfulness the blessings which God gives; here it is said not to be good to take an unreal pleasure to one's self by feasting, &c.” 

Cf. Young's Literal Translation, 2:24: “There is nothing good in a man who eateth, and hath drunk, and hath shewn his soul good in his labour. This also I have seen that it is from the hand of God.” 8:15: “There is nothing good in a man who eateth, and hath drunk, and hath shewn his soul good in his labour. This also I have seen that it is from the hand of God.” 

Ver correcções que os manuscritos apresentam a 2:24 em S (Codex Sinaiticus): 
  - até um quarto dos minúsculos apresentam a correcção πλην (excepto);
  - e de metade a três quartos dos minúsculos ει μη (se não).




[1] Ou: em que assim fizeram – traduzindo ὅτι por em que.
[2] O termo ταχύς, aqui como advérbio, ταχύ, pode referir-se à objecção a acontecer e não ao praticar o mal, ficando assim: “Porque não vem a acontecer rapidamente alguma objecção aos que fazem o que é mau”. I.e., os que fazem o mal não são prontamente castigados.
[3] Literalmente: estava ou era.
[4] Leitura possível: acontecerá o bem.
[5] Leitura possível: o bem não acontecerá.
[6] Note-se que não parece fazer sentido que se apregoe a injustiça que graça na falta de castigo rápido aos que fazem o que é mau, e depois se diga que o bem acontece aos que são tementes a deus. Parece existir aqui uma contradição. Esta contradição já não ocorre se se ler o texto da seguinte forma: “Portanto, assim eu sei que aquele que teme a deus será bom, uma vez que temam em frente dele. E o ímpio não será bom”. I.e.: a aprendizagem empírica ensina o humano a fazer o que pode pela sua própria ganância, cometendo entretanto injustiças na prossecução dos seus fins enquanto possa passar incólume e sem castigo. No entanto, diria o Pregador nesta hipótese de leitura, o bom é aquele que, contra a lei empírica, contra as espectativas criadas por essa ordem natural, se comporta diferentemente. Não seria, então, o temor do castigo do mundo, o qual se atrasa ou não chega de todo a vir, a fazer os homens bons, mas sim o temor a deus, o qual é independentemente de qualquer reacção mundana às acções dos humanos. Ainda que os maus nunca cheguem a ser castigados pela justiça dos homens ou do mundo, o que teme a deus perdura no bom caminho.

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