domingo, 29 de janeiro de 2017

Pedras e troncos

A propósito de humanos

Um rei inglês dizia que o problema da Escócia era haver nela muitos escoceses.

Ora, o problema da humanidade é, do ponto de vista formal, justamente o oposto: é haver nela poucos humanos.

O Padre António Vieira dizia que havia homens-pedra, homens-tronco e homens-homem. E a humanidade está cheia de pedras e troncos.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Quem tem de mudar primeiro: a sociedade, ou o indivíduo?

A propósito de indivíduo e sociedade

O que é preciso é mudar o enquadramento. Para mudar o enquadramento requer-se a acção do indivíduo que, portanto, tem de mudar ele mesmo antes que possa mudar o que quer que seja. Mas para que o indivíduo se mude e adquira elevação da consciência é preciso que o enquadramento mude. Ora, o enquadramento, se ele muda, tem de ser em virtude da acção consciente do indivíduo. Mas para haver acção consciente do indivíduo, este tem de começar por mudar...

Humm... círculo vicioso, este. A subjectividade requer uma prestação da ordem externa, a ordem externa requer a prestação da subjectividade. Este é o facto. A interpretação disto depende. uns são fofos, outros são rudes. O que se sabe é que nada muda se tudo permanece o mesmo - but, then again, isto é, precisamente, a mesma tautologia...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Milagre ou Natureza?

A propósito de milagres?




Um tubarão fêmea reproduziu-se mesmo sem fertilização. Há espécies de animais que se reproduzem de forma assexuada - por exemplo, por clonagem. Mas este foi o primeiro caso registado de troca natural de tipo de reprodução (da sexuada para assexuada) entre os tubarões. E o terceiro registado entre todas as espécies de vertebrados.
Se não contabilizaram o caso da Virgem Maria, então já são quatro.

Ver artigo: http://www.nature.com/articles/srep40537

Como poderemos reconhecer um milagre?

O facto de ser extraordinário?

Só poderemos reconhecer o milagre a partir de um ponto de vista que coloca a possibilidade de haver milagres. Só podemos aceitar que algo é milagre se confiarmos que isso é um milagre.

Por mais extraordinário, ou por mais banal que seja um acontecimento, se olhamos para ele como milagre ou como fenómeno natural, depende do nosso ponto de vista.

A Virgem Maria poderia, de facto, ter dado à luz Jesus sem ter fertilização - como aconteceu com este tubarão fêmea.

Qualquer coisa que aconteça, mesmo que seja o mais extraordinário, posso sempre considerá-lo como natural. Mesmo se ainda não o sei explicar.

E qualquer coisa banal pode ser considerada um milagre, mesmo que haja muitas outras explicações para ele.

Medo e Perigo

A propósito de medo e perigo...


Estudos sobre psicopatas revelam que os psicopatas sentem medo, mas não reconhecem o perigo. Portanto, a estrutura do medo não está na dependência de objectos. Isto é interessante, porque é, justamente, o que Aristóteles dizia.
Segundo Aristóteles, o medo é independente da situação que o faz eclodir. Ou seja, um leão mete medo, mas mete medo porque há em nós uma estrutura que faz dele algo que mete medo. Mas, justamente porque é uma estrutura dada à partida no humano, independentemente, portanto, de qualquer que venha a ser o caso no mundo, pode acontecer que se tenha medo sem causa aparente. Quer dizer, é perfeitamente possível que eu tenha medo sem conseguir encontrar a causa dele - sem que haja um objecto concreto que mete medo. Como se sabe, este é o pior dos medos, o medo que não está limitado por um objecto pode crescer infinitamente, abocanhar o mundo inteiro e ainda lhe sobrar barriga para nos engolir a nós mesmos.
E a ciência - tantas vezes disposta a ridicularizar Aristóteles - descobre agora que o medo é uma coisa, e o perigo outra. Um sujeito pode ter medo sem que isso implique a identificação de um perigo. E, no caso dos psicopatas, não se encontra nada perigoso, de modo que tudo parece fácil. Um psicopata é capaz de fazer tudo, nada lhe mete medo, ultrapassa tudo, abdica de tudo pelo seu querer único, sacrifica tudo pelo seu amor.
Ao psicopata nada mete medo, por isso mesmo não precisa de coragem. Como Aristóteles dizia: ter coragem não é não ter medo, ter coragem é resistir ao perigo, sentir medo do que mete medo e resistir-lhe. Mas quando nada nos mete medo e o mundo está desprovido de perigos não precisamos de coragem para nada.
E, no entanto, até o psicopata sente medo.

Pessoas más podem ser bons profissionais e podem ser mais felizes do que as boas pessoas

A propósito de ilusões...

Uma má pessoa pode ser, simultaneamente, um excelente profissional.
Uma má pessoa pode ser, simultaneamente, feliz.

Uma má pessoa terá mais facilidade em percorrer o caminho que a levará a tornar-se num bom profissional.
Uma má pessoa encontrará menos dificuldades em alcançar aquilo que a fará feliz.

A ideia de que uma pessoa má nunca pode ser um bom profissional é como a ideia de que uma vida moralmente má nunca pode ser boa de viver, ou a de que uma má pessoa não pode ser feliz... ou seja, são uma perfeita parvoíce, uma mentira, uma ilusão perniciosa... Estas ideias contradizem a razão e a experiência, e só por um enorme desejo de auto-engano pode o senso-comum dizer tal coisa.

Sobre isso, ouçamos Frankfurt:
«It is possible, I am sorry to reveal, that immoral lives may be good to live. […] Unless a person cares about being moral, or about something that depends on being moral, being moral will not make his life better for him.» 
E, MUITO IMPORTANTE: «It will not be reasonable for him to do what he is morally obliged to so, or to care that his conduct fails to meet the requirements of the moral law.»


Aliás, o próprio Kant diz exactamente a mesma coisa, em vários sítios - a única diferença é que ele pensa que todos os seres humanos se preocupam com a moralidade. Basicamente, para Kant um psicopata não é humano. Mas já Kant assumia: um ser em que não houvesse móbil ético jamais poderia ter qualquer consciência moral - e, por isso, o mal moral não lhe causaria qualquer repulsa.
ERGO, um sujeito pode ser uma besta e ser feliz. Arendt vai ainda mais longe e afirma que só uma pessoa realmente má pode ser completamente feliz, porque a sua consciência não a incomodará.

Como é evidente, uma pessoa má, não só pode ser um bom profissional, como estará em melhor condições para ser um bom profissional, visto que não será distraído dos seus fins subjectivos pelos requisitos da lei moral.
Por isso mesmo, onde há mais psicopatas é entre os profissionais de topo e nas cadeias...

«Proportion of psychopath corporate executives 'similar to prison population'»

«Até 3,9% dos executivos de empresas podem ser psicopatas, [...]. Uma taxa de psicopatia 4 vezes maior do que na população em geral.»