sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Aporia: Sócrates e Platão

A propósito de aporia




A aporia era para os platónicos, e a começar pelo próprio Platão, a estrada para o conhecimento, o caminho para a sabedoria.
Mas em Sócrates parecia estar em causa, primeiramente, um outro sentido mais literal. De facto, o que estava em causa no termo "aporia", em grego, era o sentido de caminho sem saída, ou de onde só muito a custo se poderá sair.

Portanto, Sócrates olhava para a aporia como algo de onde dificilmente se poderia sair. Platão olhava para a aporia como algo que levava a outro lado.


O mesmo termo. Dois significados muito diferentes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

É Natal: de onde vem o presépio?




A propósito do presépio.



O que é que do presépio está presente no Novo Testamento?

Na verdade, só a partir do século XIII alguém se haveria de lembrar de fazer um presépio.

No entanto, em Lc 2:7 encontramos uma referência a uma manjedoura, φάτνη. Envolvido em panos, o menino Jesus foi deitado in praesepio, ou seja, numa manjedoura. É, portanto, desta expressão em latim, in praesepio, que provém o termo presépio em português. Presépio significa manjedoura.

Lucas menciona também pastores e anjos (Lc 2:8-20).

Por sua vez, Mateus 2:1-12 fala de magos, μάγοι (mágoi). O termo grego μάγος (mágos), designa um homem sábio persa, da classe sacerdotal. Mas não há qualquer referência a quantos são nem à possibilidade de serem reis.

A referência a três reis magos, e aos nomes Gaspar e Melchior, aparece na Excerpta Latina Barbari (página 51v e 52) composta entre o século V e VI. 
Um outro texto do século VI, A Caverna dos Tesouros (página 40b, col. 2), apresenta nomes bastante diferentes (em siríaco). 
Um outro tratado do século VIII, traduzido do grego para o latim, Flores ex diversis, já enumera os três nomes hoje conhecidos: Melchior, Gaspar (ou Caspar) e Baltasar.

Quanto ao boi e ao burro encontra-se referência num escrito, talvez do século VII, a que se chama hoje Evangelho de Pseudo-Mateus (cap. XIV).

Finalmente, foi Francisco de Assis que, já no século XIII, fez o primeiro presépio.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A injustiça social e a banalidade do mal

A propósito da Banalização da Injustiça Social



Injustiça social.
A injustiça social é a "injustiça perfeita". No sentido em que se fala de "crime perfeito": um crime cujo autor não pode ser apanhado.
A injustiça social é a mais perfeita, porque ninguém é efectivamente culpado, porque nenhum de nós se sente efectivamente culpado, porque as culpas são sempre de um "eles" indefinido com o qual nenhum sujeito individualmente se identifica.
A banalidade do mal é isto.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A obtusidade

A propósito de entendimento comum

«pois, se é preciso um pouco mais do que honestidade para se dar bem neste mundo, já a obtusidade é sempre necessária para se ser verdadeiramente bem-sucedido e ser verdadeiramente entendido por muitos»
Johannes Climacus [Kierkegaard], Postscriptum


Ironia de Climacus, evidentemente. Pois, como se sabe, não é precisa a honestidade para um sujeito se dar bem no mundo - honestamente, a honestidade parece só atrapalhar. Mas há uma ironia ainda maior em afirmar que a obtusidade seja necessária para se ser entendido por muitos, pois obtuso é aquele que, normalmente, entende mal, ou não entende. Portanto, para que muitos se entendam uns aos outros é preciso que haja um desentendimento comum, ou um mal-entendido de fundo que suportem o entendimento superficial.

Neurociência e existencialismo

A propósito de,

Foi Libet que detectou o hiato entre decisão (tomada pelo cérebro) e consciência da decisão, lá para meados da década de 80... Tal hiato reduz a o livre-arbítrio a uma ilusão.
Desde então já houve estudos no mesmo sentido, e outros que o refutam ou que re-interpretam esse tipo de dados. 
A posição mais radical contra o livre-arbítrio nessa área é a de Blackmore, que vai ainda mais longe para negar também a existência de um "sujeito", de um "eu", de "alguém" - ficou conhecida a sua expressão "there’s nobody in there" (não existimos, por isso, também nem sequer faz sentido perguntar se somos livres). Mas não é verdade que todos os neurocientistas concordem que não temos livre-arbítrio.

Depois resta a perspectiva do existencialismo: mesmo que tudo isso seja verdade, nada disso muda o facto de, aqui e agora, ter de ser eu a tomar esta decisão. Do ponto de vista existencial, este estar condenado a ter de ser eu a arcar com a responsabilidade de decidir não é uma ilusão, mas precisamente a realidade da vida.