segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A narrativa da felicidade

A propósito da felicidade


Que a concepção da felicidade como finalidade da existência é um paradigma historicamente datado, circunstanciado e, por isso, historicamente condicionado - é difícil de perceber. 

Para o comum dos mortais, a felicidade é «analiticamente» o fim de todas as suas acções e a finalidade da própria vida. Um sujeito não só toma como evidente que a felicidade é o fim de todas as suas acções – e, daqui, por passos de mágica, conclui que também "deve" sê-lo – como também não se apercebe que há uma tese aqui: tudo se passa como se a felicidade fosse «analiticamente» a medida do homem. Portanto, também não se apercebe de que há outras teses possíveis – outras teses de que, na maioria das vezes, não faz a mínima ideia. Pois, que outra coisa se poderia querer senão a felicidade? Na maioria das vezes, esta mesma pergunta permanece surda, mesmo que alguém a formule, porque o sujeito não consegue pensar em nada que se queira que não seja por mor da felicidade. 

É um caso de completa "sistemática elisão das possibilidades alternativas" (Mário Jorge de Carvalho)... o sujeito está embalado numa compreensão que está cega para as alternativas!

domingo, 3 de setembro de 2017

Narrativa da Felicidade, o mito de Aristóteles

A propósito da felicidade.


Para Nietzsche, a própria ideia de que a felicidade é algo que se deseja e que constitui a finalidade da nossa existência é uma marca da decadência de uma cultura.

Para Kierkegaard, a busca pela felicidade é, na verdade, uma forma de desespero.

Para Kant, a busca da felicidade faz-nos esquecer a dignidade - o fim autêntico da vida humana.

Três autores muito diferentes entre si, mas que concordam em discordar da narrativa da felicidade que se impôs no ocidente desde Aristóteles.


«A felicidade como fim último da vida individual. Aristóteles e todos os outros!» Nietzsche, Fragmento póstumo, 7 [210]

Afecto e exibição nas redes sociais

A propósito da intimidade nas redes sociais.


A intimidade é tanto exibição quanto afecto.
Para um casal, mostrar proximidade significa apresentar uma narrativa de felicidade ao mundo. O casal sente necessidade de constantemente validar a sua intimidade, afirmar a própria existência.
A melhor expressão desta intimidade é a selfie.
É certo que sempre foi assim, mas hoje vive-se com mais intensidade a dimensão da exposição, da exibição, porque os meios para isso estão mais presentes na nossa vida e têm mais poder de exposição do que nunca. Quanto mais poder de exposição se tem, maior é a necessidade interior de exibir a intimidade para assegurar a sua existência.
A coisa está tão exacerbada que, se por um passe de mágica o facebook acabasse amanhã, provavelmente teríamos o maior boom de rompimentos e divórcios da história... 



sábado, 2 de setembro de 2017

A experiência como acontecimento anónimo de si

A propósito de experiência de vida...

A experiência de vida é um dos bois de ouro do nosso século. As pessoas acreditam que a experiência lhes ensina coisas, e não só isso, acreditam que a própria experiência é conhecimento. Acreditam até que a experiência é um bom critério para decidir como hão-de levar a vida e deixam-se guiar, assim, pelas experiências da vida. As pessoas depositam a sua confiança na experiência e julgam que ela é inabalável - a não ser, claro está, por outras experiências que venham a refutar a primeira... As pessoas pensam que aprendem com os acontecimentos e que vão formando, progressivamente, uma sabedoria de vida assim acumulada.

Basicamente, a experiência corresponde ao rosto da vida tal como é anonimamente oferecido ao sujeito. A experiência de vida é algo que já está inscrito na vida natural - quer dizer, um sujeito não tem de fazer nada para a adquirir: basta que se deixe estar na vida que ela há-de providenciar experiências. Depois, claro, depende daquilo que a vida trouxer, pois será nisso que se adquire experiência.

Mas, no essencial, quando as pessoas invocam a "experiência de vida" como testemunha e como prova, isso só mostra uma coisa: que as pessoas deixam que a sua vida seja conduzida anonimamente... E este é só mais um exemplo.


Sugestões

A propósito de leituras

1. De Sara de Oliveira, a tese O sentido do espírito no humano: Estudo sobre a determinação antropológica na obra de Kierkegaard
Tese muito bem conseguida. Oficialmente sobre a noção de espírito, em Kierkegaard, a tese vai, na verdade, muito para além disso. Ou melhor, o esclarecimento cabal do que está implicado na noção de espírito implica o esclarecimento de muitas outras noções - como é evidente - e esta tese consegue um extraordinário entrelaçamento de temas e conceitos que faz dela, provavelmente, o melhor trabalho de investigação sobre Kierkegaard que eu alguma vez li.


2. De Marisa Moura, o livro O que é que os portugueses têm na cabeça?
Livro ligeiro muito bom. Uma crítica capaz, não superficial, abrangente e com rigor. Apesar das fontes usadas serem, em grande parte, do âmbito da imprensa, e não, propriamente, académicas, o resultado global é uma obra sólida e ampla sobre a mentalidade, o espírito e o perfil dos portugueses, não só na actualidade, mas também na sua formação ao longo dos séculos - e milénios.