sábado, 15 de outubro de 2016

A cara do outro - considerações patéticas

A propósito do outro...

Por vezes tem-se o pressuposto de que o mal moral se segue apenas de se evitar o reconhecimento do outro como outro.

Este tipo de mal é subjectivamente vivido como amoral, pois o sujeito não o reconhece como mal, mas simplesmente como algo "que tem de ser feito", reflexo da lógica da vida, como se o próprio sujeito da intenção estivesse reduzido à condição de mero instrumento. Neste mal negativo não é apenas o outro que é previamente despido da sua condição de "outro": é o próprio agente do mal que se despede da tarefa de agente moral.

Mas é ingénuo pensar que o mal moral tem apenas esta forma negativa. Aliás, como se disse, este mal negativo é, na verdade, amoral: trata-se de uma forma de demissão do sujeito moral, de uma forma de indiferença. O mal moral em sentido próprio, pelo contrário, consiste no oposto disto. No mal moral positivo não se evita a consciência: esta é, precisamente, a autoridade que é explicitamente confrontada. Neste tipo de mal, o outro é aquele que eu quero maltratar - aquele que odeio, que suscita sentimentos agressivos. Aqui o outro não é apenas fonte de aversão e repugnância, algo que se evita olhar e tratar como "um outro". Pelo contrário, aqui o outro, mais do que repugnar, suscita violência, desejo de vingança, vontade de espezinhar.

São todos ingénuos os autores moralistas que supõe que a face do outro é aquilo que evita que eu o agrida. São ingénuos aqueles que julgam que a agressão ao outro só surge porque evito considerá-lo como "outro".

(E é também ingénuo julgar que se tomo o outro como "um outro eu" não vou querer maltratá-lo. Pelo contrário, que o outro seja reconhecido, precisamente, como "outro eu" pode ser ocasião de descarregar todo o meu desejo de vingança. Não é isso que se põe a claro em romances tipo "Homem Duplicado"? Porque é ingénuo pensar que cada um se ama placidamente a si mesmo de forma tão pura que ao projectar no outro um outro eu vai sempre amá-lo também. A psicologia sabe há muito tempo que não é assim: quantos desejos de se agredir a si mesmo o eu não precisa de suprimir para sobreviver? E quanto não descomprime poder aliviar no "outro eu" os desejos de agressão que habitualmente se suprime em relação a si mesmo?)

Se a experiência do outro pode suscitar - como defendem alguns, e bem - o amor, na verdade pode suscitá-lo não mais, não menos quanto pode suscitar o ódio.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A maravilhosa nova Ética

A propósito da suposta necessidade de uma "nova Ética"...


Acho sempre tremendamente irónicos os textos de "Ética" que, a dada altura, afirmam que "precisamos de uma nova Ética"... É comum ler e ouvir isto por todo o lado... "Precisamos de uma nova Ética" que faça sobressair os direitos dos animais... "Precisamos de uma nova Ética" que proteja a natureza... "Precisamos de uma nova Ética" que isto e aquilo! Na minha opinião, já há "Éticas" de mais, e tão pouca ética... Por isso mesmo é que quando um secretário é apanhado numa qualquer actuação menos clara, logo se reúne o Governo em peso para redigir "uma nova Ética", "um novo código de conduta", enfim... O que se precisa é de ética! De teorias está o inferno bem atulhado - que deve ser por isso que o fogo lá é eterno: devido às infinitas resmas de papel usadas para escrever todas as "Éticas"!
A ética é uma questão de injunção: uma pressão-tensão que nos indica que algo deve ser feito, ou que algo não deve ser feito. Portanto, lamento, mas é uma questão de "móbil", como dizia Kant nas suas lições, tantas vezes esquecidas por aqueles que se agarram à Fundamentação para nos informar que "precisamos de uma nova Ética" que vá para lá de Kant... 
O ético é uma questão de "vontade", como diziam os medievais. Uma questão de paixão, de amor, de decisão. Não é uma questão de se ter uma boa teoria para a coisa - nem de escrever um livro que vai com a moda de defender que um gato bebé vale o mesmo que um bebé humano. 
A injunção ética nada tem que ver com o saber.
Se eu estiver à espera de saber com certeza absoluta, de um ponto de vista teórico, o que devo fazer estarei perdido. Dada a multidão de teorias que há em qualquer livraria, a ignorância declarada relativamente a este tipo de "certeza" não pode - "não deve" - servir de pretexto para não agir, para não fazer aquilo que me surge numa injunção. Aquilo que produz clarificação ética não é comprar muitos livros de moral, muito menos ler muitas Éticas - quanto muito, poderão aumentar a confusão. O que é preciso é, justamente, passar a injunção para o âmbito da acção...
Claro que quando se está a escrever uma "nova Ética" sentado na cadeira-meio-sofá do escritório, tudo isto parece "indefinido e abstracto"... De facto, quando estou à mesa do café a beber uma caipirinha não há muitas injunções éticas que me assolem. Quando estou esparramado a ver televisão não vem ter comigo nenhuma injunção que me atire ao chão. Por isso, é natural que quando queimo os meus neurónios a tentar descobrir um nexo lógico entre A e B também nenhuma injunção ética me pareça clara e evidente.
Mas se vou na rua e passo indiferente ao lado de um bruto a espumar-se que esbofeteia a sua mulher, porque, afinal, ainda não sei bem o que faz de algo um dever - ou se, perante a injunção ética, que naquele momento com certeza me vem aos nervos, passo de largo porque ainda me falta explicitar o conceito formal de "dever" ou "útil" - nesse caso, com certeza uma "nova Ética" não me servirá de muito.
O ponto da injunção é a interiorização: o ponto em que a possibilidade de agir perde o carácter de mera possibilidade vazia, abstracta e neutra - porque nenhuma possibilidade abstracta pode ser para mim um dever. Esta consciência moral é aquilo que é preciso: o sujeito intervém e impede que o bruto esbofeteie a rapariga.

domingo, 31 de julho de 2016

O Nazismo é a Verdade do Ocidente

A propósito da "virtude" da banalidade...

Na antiguidade, "trabalho" era ou escravidão ou tortura. O trabalhador era o escravo, o servo. O escravo trabalhava ou era castigado - e o trabalho era a tortura, ou a tortura de ser escravo, ou a tortura que castigava o escravo.

Uma mentalidade diferente se começou a formar na Europa há séculos. Muito lentamente a mentalidade inverteu-se. Com a revolução industrial essa inversão estabeleceu-se. Foi naturalmente que a Europa chegou à conclusão de que o trabalho salva.
 
Quando o homem começou a viver para trabalhar, quando o trabalho se tornou a medida do homem, quando a dignidade humana foi reduzida ao seu trabalho o homem perdeu a sua humanidade. Só por força de ilusões de óptica tudo pode parecer diferente e os homens ainda se convencerem de que são humanos: quando o trabalho é a vida do homem este tornou-se essencialmente dispensável.
 
O Nazismo não foi uma aberração da racionalidade: o Nazismo é a verdade da mentalidade ocidental. Sacrificar os homens está-lhe no sangue - e o que tem preservado o Ocidente de continuamente recair no Nazismo é que o Ocidente não sabe bem "a quê" sacrificar os homens... 

Paradoxalmente, tem sido a perda de ideais, a perda de força vital, a perda de paixão no Ocidente que tem preservado o Ocidente: dêem-lhe um ideal, "algo pelo qual se deva trabalhar", e teremos a mentalidade perfeita para as trevas!

sábado, 9 de julho de 2016

Relativismo cultural versus Relativismo moral

A propósito do relativismo cultural...

O Relativismo Cultural não implica Relativismo Moral


Turiel e Richard Schweder, cientistas das áreas da antropologia e da psicologia cultural, realizaram estudos para avaliar se havia algum fundo comum a todas as morais dos vários povos... Encontraram povos com normas sociais muito estranhas.
Em alguns povos, a mulher é partilhada sexualmente por todos, noutros comem-se os próprios filhos... Encontraram um povo, os Iks, que considerava o egoísmo uma virtude, recusava a noção de partilha, os pais deixavam morrer os filhos à fome sem qualquer recriminação social, os filhos nunca cuidavam dos pais quando estes precisavam ou envelheciam, etc. Contra todas as expectativas, este povo não se extinguiu, apesar de deixar morrer os filhos à fome parecer ser uma boa forma de uma sociedade se extinguir...
Mas, analisando os dados, chegaram à conclusão (provisória, claro) de que, por mais diferentes que sejam as normas de conduta entre povos, e mesmo nos casos mais extremos, parece haver um reduto moral comum, independentemente da variação da norma de conduta... Mesmo nos Iks.
Por exemplo, um canibal admite que comer outros homens é errado. Contudo, uma cultura canibal tem uma explicação para o acto de comer o outro, por exemplo, possuir o espírito do inimigo derrotado na batalha. Os Iks motivos para deixarem morrer os filhos à fome, pois é-lhes muito difícil adquirir comida e a densidade populacional tem de ser mantida em níveis muito baixos... Aparentemente, até mesmo o líder do Estado Islâmico admite que matar humanos é errado, mas tem uma explicação para matar infiéis... Ou seja: parece, de facto, que toda a gente sabe o que é o Bem, e que este Bem é igual para todos os homens - mas alguns arranjam desculpas, ou têm crenças que justificam comportamentos imorais... A razão, ao contrário do que Kant supunha, não parece ser um meio seguro de determinar o Bem - pelo contrário, parece ser o meio mais comum de o corromper...

terça-feira, 5 de julho de 2016

São Lourenço e o fenómeno da resistência

A propósito do fenómeno da resistência





O problema filosófico da resistência ao mal é complexo... desde logo porque não é evidente o que é o "mal". Como não é evidente como é que nós discriminamos o bem do mal. Mas depois há o problema da resistência. A resistência é um problema específico: como é que há homens que, mesmo quando todas as circunstâncias os condicionam para o mal, ainda assim lhe resistem?

Este é um problema eminentemente filosófico. Do ponto de vista científico, o fenómeno da resistência configura uma excepção, uma anomalia: quando todas as supostas "leis" psicológicas, quando todas as determinações nos levariam a prever um certo comportamento o sujeito comporta-se de uma forma contrária. Para a ciência, o fenómeno da resistência não é, de facto, um fenómeno científico, pois, por definição, não pode ser reproduzido: a reprodução das circunstâncias tende a reproduzir o comportamento padrão, previsível, de modo que não é possível estudar cientificamente o fenómeno da resistência: não apresenta um padrão empírico verificável e reproduzível. Portanto, em princípio, o fenómeno da resistência não existe cientificamente. E, no entanto, ele existe porque ocorre de facto: no condicionamento mais extremo há homens que resistem a comportar-se conforme esperado. Como estas ocorrências - estes homens - são extremamente raras, são simplesmente anomalias, conjuntos estatisticamente irrelevantes, percentagens residuais da população.


São Lourenço, responsável pela guarda dos bens materiais da Igreja e respectiva distribuição pelos pobres foi chamado perante o imperador. Este exigiu-lhe que entregasse todo o tesouro da Igreja. São Lourenço reuniu os mais pobres de entre os pobres, os doentes mais enfermos e levou-os à presença do imperador, dizendo: "Aqui está o tesouro da Igreja". Naturalmente, o imperador não ficou contente com aquela falta de respeito e sentenciou-o à morte pelo fogo. Reza a lenda que, enquanto era queimado em lume brando, sobre as brasas, São Lourenço disse: "Este lado já está bem passado, podem virar-me". Parece que a Igreja Católica achou tanta piada ao caso que o fez padroeiro dos cozinheiros!