terça-feira, 5 de julho de 2016

São Lourenço e o fenómeno da resistência

A propósito do fenómeno da resistência





O problema filosófico da resistência ao mal é complexo... desde logo porque não é evidente o que é o "mal". Como não é evidente como é que nós discriminamos o bem do mal. Mas depois há o problema da resistência. A resistência é um problema específico: como é que há homens que, mesmo quando todas as circunstâncias os condicionam para o mal, ainda assim lhe resistem?

Este é um problema eminentemente filosófico. Do ponto de vista científico, o fenómeno da resistência configura uma excepção, uma anomalia: quando todas as supostas "leis" psicológicas, quando todas as determinações nos levariam a prever um certo comportamento o sujeito comporta-se de uma forma contrária. Para a ciência, o fenómeno da resistência não é, de facto, um fenómeno científico, pois, por definição, não pode ser reproduzido: a reprodução das circunstâncias tende a reproduzir o comportamento padrão, previsível, de modo que não é possível estudar cientificamente o fenómeno da resistência: não apresenta um padrão empírico verificável e reproduzível. Portanto, em princípio, o fenómeno da resistência não existe cientificamente. E, no entanto, ele existe porque ocorre de facto: no condicionamento mais extremo há homens que resistem a comportar-se conforme esperado. Como estas ocorrências - estes homens - são extremamente raras, são simplesmente anomalias, conjuntos estatisticamente irrelevantes, percentagens residuais da população.


São Lourenço, responsável pela guarda dos bens materiais da Igreja e respectiva distribuição pelos pobres foi chamado perante o imperador. Este exigiu-lhe que entregasse todo o tesouro da Igreja. São Lourenço reuniu os mais pobres de entre os pobres, os doentes mais enfermos e levou-os à presença do imperador, dizendo: "Aqui está o tesouro da Igreja". Naturalmente, o imperador não ficou contente com aquela falta de respeito e sentenciou-o à morte pelo fogo. Reza a lenda que, enquanto era queimado em lume brando, sobre as brasas, São Lourenço disse: "Este lado já está bem passado, podem virar-me". Parece que a Igreja Católica achou tanta piada ao caso que o fez padroeiro dos cozinheiros!

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