terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Nietzsche: Ser = Viver
"O Ser - nós não temos outra representação disso [de ser] que não seja o Viver."
Nietzsche, Edição de Colli, vol. XII, 2
domingo, 9 de dezembro de 2012
Nietzsche - filosofia contra-intuitiva, o problema das categorias vulgares que não se deixam ver
A propósito da dificuldade que há em entrar na filosofia de Nietzsche
Quando estamos a tentar entender autores como Nietzsche (talvez com todos), temos que ter muito cuidado com os comentadores. É que Nietzsche está a tentar fazer um discurso para além das categorias habituais (chamemos-lhe o que quisermos: metafísica tradicional, ontologia canónica, senso comum, Bem e Mal, cristianismo, etc.). Qualquer coisa como a metáfora retirada da Bíblia: colocar o vinho em odres novos. Mas as categorias habituais são, precisamente, habituais. Quando alguém procura apontar para o ar corre o risco de que nós sigamos o seu dedo até à parede e pensemos que estava a apontar para ela. Então nós pensamos que ele simplesmente mudou o nome da "parede" e lhe passou a chamar "ar". Mas não, ele estava mesmo a falar de algo pelo qual nós, de facto, não demos. E a parede que nós pensamos que agora deve receber o nome "ar" era aquilo que para Nietzsche era vazio. Contudo, a nossa tendência é olhar para a parede e não perceber que ela é o vazio. Tal como não vemos o ar e julgamos que ele é simplesmente um vazio, quando Nietzsche tentava mostrar que não é assim.
Por isso, os comentadores normalmente falam de Nietzsche como se ele tivesse desperdiçado o vinho, ou como se ele simplesmente tivesse feito vinho novo: mas ele estava a falar de partir os odres velhos e de pôr vinho novo em odres novos.
O que é normalmente um nietzscheano?
Alguém que simplesmente trocou o vinho, mas manteve a forma.
Eles pensam que Nietzsche simplesmente mudou o nome da parede: antes chamava-se cristianismo, depois passou a chamar-se vontade de poder. Mas Nietzsche não mudou o nome a nada. O que ele mostrou é que, precisamente, havia nomes com grande fama que ocultavam um grande vazio. Não se tratava de colocar outro nome no vazio.
Enfim, por vezes, aqueles que mais defendem Nietzsche são os que parecem menos ter compreendido o fôlego do seu trabalho.
Por exemplo:
Quando Nietzsche fala dos espíritos malignos e da falta que eles fazem para renovar terrenos gastos, ele não está a pedir que nos tornemos todos gangsters, nem está a dizer que defende que nos dediquemos a assaltar bancos, ou que os assassinos em série devem ser galardoados. Nietzsche está a usar uma estratégia de contraste, porque essa é a única forma de apontar para o ar. Se alguém quer ver a dificuldade que aqui está envolvida apenas tem de inventar uma palavra para o ar, e depois ente mostrar a alguém a que é que está a chamar de ar apenas apontando. Vai ver que, quando apontar, ninguém vai pensar que está a apontar para o ar. O mesmo acontece se tentar apontar para uma janela: as pessoas vão pensar que está a apontar para a árvore que está no caminho.
Apontar a falsidade, ou o esquecimento que está subjacente à velha moral não é defender a simples negação dela. Nietzsche não está a dizer para fazermos simplesmente o contrário que a moral manda fazer: porque isso é manter o modelo anterior, o modelo moralista.
Se há coisa de que Nietzsche nos avisa é que os filósofos podem estar tão embrenhados em preconceitos como qualquer outra pessoa (coisa que é óbvia, mas que os filósofos, como todas as outras pessoas, tendem a ignorar). E de facto, nem os filósofos excepcionais são bons comentadores uns dos outros. Por isso, não nos podemos fiar no que um grande filósofo diz de outro.
Quem quiser compreender Nietzsche tem de ler Nietzsche. E em Nietzsche é importante a ordem pela qual as suas obras foram escritas. Portanto, Nietzsche (e, talvez, todos os filósofos) deveria ser lido pela ordem de execução das suas obras: começando pela primeira que ele escreveu e acabando na última. Mas isso nem sempre é possível, e nem todas as obras estão disponíveis em português.
"Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir. Hoje ainda estão nisso." A Gaia Ciência, §11
"és feliz se só tens uma virtude". Assim falava Zaratustra, Das Paixões de Alegria e de Dor
Quando estamos a tentar entender autores como Nietzsche (talvez com todos), temos que ter muito cuidado com os comentadores. É que Nietzsche está a tentar fazer um discurso para além das categorias habituais (chamemos-lhe o que quisermos: metafísica tradicional, ontologia canónica, senso comum, Bem e Mal, cristianismo, etc.). Qualquer coisa como a metáfora retirada da Bíblia: colocar o vinho em odres novos. Mas as categorias habituais são, precisamente, habituais. Quando alguém procura apontar para o ar corre o risco de que nós sigamos o seu dedo até à parede e pensemos que estava a apontar para ela. Então nós pensamos que ele simplesmente mudou o nome da "parede" e lhe passou a chamar "ar". Mas não, ele estava mesmo a falar de algo pelo qual nós, de facto, não demos. E a parede que nós pensamos que agora deve receber o nome "ar" era aquilo que para Nietzsche era vazio. Contudo, a nossa tendência é olhar para a parede e não perceber que ela é o vazio. Tal como não vemos o ar e julgamos que ele é simplesmente um vazio, quando Nietzsche tentava mostrar que não é assim.
Por isso, os comentadores normalmente falam de Nietzsche como se ele tivesse desperdiçado o vinho, ou como se ele simplesmente tivesse feito vinho novo: mas ele estava a falar de partir os odres velhos e de pôr vinho novo em odres novos.
O que é normalmente um nietzscheano?
Alguém que simplesmente trocou o vinho, mas manteve a forma.
Eles pensam que Nietzsche simplesmente mudou o nome da parede: antes chamava-se cristianismo, depois passou a chamar-se vontade de poder. Mas Nietzsche não mudou o nome a nada. O que ele mostrou é que, precisamente, havia nomes com grande fama que ocultavam um grande vazio. Não se tratava de colocar outro nome no vazio.
Enfim, por vezes, aqueles que mais defendem Nietzsche são os que parecem menos ter compreendido o fôlego do seu trabalho.
Por exemplo:
Quando Nietzsche fala dos espíritos malignos e da falta que eles fazem para renovar terrenos gastos, ele não está a pedir que nos tornemos todos gangsters, nem está a dizer que defende que nos dediquemos a assaltar bancos, ou que os assassinos em série devem ser galardoados. Nietzsche está a usar uma estratégia de contraste, porque essa é a única forma de apontar para o ar. Se alguém quer ver a dificuldade que aqui está envolvida apenas tem de inventar uma palavra para o ar, e depois ente mostrar a alguém a que é que está a chamar de ar apenas apontando. Vai ver que, quando apontar, ninguém vai pensar que está a apontar para o ar. O mesmo acontece se tentar apontar para uma janela: as pessoas vão pensar que está a apontar para a árvore que está no caminho.
Apontar a falsidade, ou o esquecimento que está subjacente à velha moral não é defender a simples negação dela. Nietzsche não está a dizer para fazermos simplesmente o contrário que a moral manda fazer: porque isso é manter o modelo anterior, o modelo moralista.
Se há coisa de que Nietzsche nos avisa é que os filósofos podem estar tão embrenhados em preconceitos como qualquer outra pessoa (coisa que é óbvia, mas que os filósofos, como todas as outras pessoas, tendem a ignorar). E de facto, nem os filósofos excepcionais são bons comentadores uns dos outros. Por isso, não nos podemos fiar no que um grande filósofo diz de outro.
Quem quiser compreender Nietzsche tem de ler Nietzsche. E em Nietzsche é importante a ordem pela qual as suas obras foram escritas. Portanto, Nietzsche (e, talvez, todos os filósofos) deveria ser lido pela ordem de execução das suas obras: começando pela primeira que ele escreveu e acabando na última. Mas isso nem sempre é possível, e nem todas as obras estão disponíveis em português.
"Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir. Hoje ainda estão nisso." A Gaia Ciência, §11
"és feliz se só tens uma virtude". Assim falava Zaratustra, Das Paixões de Alegria e de Dor
sábado, 8 de dezembro de 2012
Nietzsche
A propósito de interpretação...
Para
Nietzsche cada interpretação é uma possibilidade.
Todo o sujeito é uma
perspectiva. Cada perspectiva uma interpretação - isto é, uma possibilidade.
Neste sentido, há interpretações católicas, interpretações budistas, etc. Mas o
fenómeno é diferente da interpretação - poderia ser interpretado de outra
forma: o que é um sinal de Deus para o católico, é um acontecimento natural
para o físico.
De forma nenhuma se deve com isso pensar que há uma
"verdade" a que se poderia chegar se nos livrássemos da interpretação.
Porque não é disso que se trata, Nietzsche fala de "fenómenos" (aquilo que aparece), e não de "verdades", nem de "realidade" nem "númeno".
Para Nietzsche há fenómenos e há
interpretações. O que temos são fenómenos, mas nem sequer sabemos o que seria o fenómeno sem a
interpretação. Ou seja, aquilo que temos de facto é uma interpretação. Falar de fenómenos não interpretados é falar de qualquer coisa que nós não sabemos o que é. O que nos aparece, aparece-nos com um sentido. Isto não é uma possibilidade, é uma condição. O que é apenas uma possibilidade é aquele sentido concreto com que as coisas nos aparecem. Os fenómenos poderiam ter outro sentido. Por exemplo, a maioria de nós teme a morte. Isso é um sentido. Para algumas pessoas a morte não é o mais temível. Para algumas não é nada temível. Alguns desejam a morte. Alguns são-lhe indiferentes. Cada um julga que o seu sentido não é apenas uma possibilidade. Aqueles que têm a morte por temível apontam para o que nela lhes mete medo. Mas isso não prova que a morte é, em si mesma, temível: mostra apenas que quem assim aponta teme isso para que aponta.
Nietzsche não apenas nega que possamos sair da nossa perspectiva para aferir o
que é de facto o certo ou o errado - mas afirma também que a própria ideia de que há coisas
certas e coisas erradas já é uma interpretação. Nietzsche não só nega que possamos saber o que é a Verdade - mas afirma também que a própria ideia de que há uma Verdade já é uma interpretação.
Ele tenta mostrar que não só
podemos aplicar mal o nosso modelo da realidade (e enganarmo-nos), como também que pode acontecer que o nosso modelo da realidade esteja errado (e então já "certo" e "errado" serão conceitos desvitalizados, vazios,
sem referente, pois que eles sempre se determinam em função do modelo ou
sistema que os integra e lhes dá significado).
Com isto o que ele quer, antes
de mais, trazer à luz (e isto quer dizer "tornar fenómeno", fazer
aparecer), é que o regime de sentido que habitualmente se encontra a funcionar
em nós é uma possibilidade. Perceber isto é fundamental. E não é nada que o
próprio Jesus não tenha tentado mostrar também. O Cristianismo é, aliás, veemente - atrevo-me a dizer mesmo que - mais veemente que Nietzsche ao chamar a atenção para isso de estarmos lançados num modo previamente dado de abertura ao mundo: mas sublinhando o carácter de possibilidade desse modo.
O que Nietzsche, tal como o Cristianismo, pretende fazer ver é que SE PODE SUSPENDER essa possibilidade.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Ética - medicina e pessoa
A propósito da medicina e da pessoa vista como coisa...
"Parecem ofuscar os horizontes éticos da
ciência médica, que se arrisca a esquecer como a sua vocação é servir cada homem
e todo o homem, nas diversas fases da sua existência."
"Sembrano quindi offuscarsi gli orizzonti etici della scienza medica, che rischia di dimenticare come la sua vocazione sia servire ogni uomo e tutto l’uomo, nelle diverse fasi della sua esistenza."
Papa Bento XVI,
http://press.catholica.va/news_services/bulletin/news/30039.php?index=30039&lang=po
"Sembrano quindi offuscarsi gli orizzonti etici della scienza medica, che rischia di dimenticare come la sua vocazione sia servire ogni uomo e tutto l’uomo, nelle diverse fasi della sua esistenza."
Papa Bento XVI,
http://press.catholica.va/news_services/bulletin/news/30039.php?index=30039&lang=po
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Felicidade - filosofia
A propósito de ser feliz...
Os filósofos preocuparam-se sempre em evidenciar que os humanos desejam sempre ser felizes.
Por outro lado, esforçaram-se por mostrar que nem sempre se é feliz quando se julga ser feliz.
Aldous Huxley tentou mostrar isso mesmo nos seus romances.
No livro O Admirável Mundo Novo, as pessoas são formatadas para quererem ser aquilo que a sociedade estipula que elas devem ser.
Quando lemos este livro somos invadidos por uma sensação de desconforto. Qual o problema com esse mundo? As pessoas nele são todas felizes. Mas não podem ser outra coisa. Reconhecemos que não há liberdade nesse mundo: mas que tipo de liberdade? Será esse mundo realmente tão diferente do nosso mundo?
Se as pessoas são felizes, então qual o problema? Há algum problema com essa felicidade?
Aldous Huxley criou um mundo que grita: estão a ver, pode haver um problema com a felicidade. Não basta ser feliz. Mesmo que ninguém que esteja feliz desejasse outra coisa, na verdade parece que isso não nos basta quando, de fora, julgamos esse mundo: é que a felicidade parece não justificar tudo.
Recomendo vivamente a leitura deste livro - porque hoje parece haver uma completa tirania da busca da felicidade: como se isso fosse tudo. Também a felicidade pode ser aparente, pode ser um engano. Podemos julgar-nos felizes quando, na verdade, somos os mais miseráveis.
E então, quereríamos fazer parte do mundo de Huxley?
Os filósofos preocuparam-se sempre em evidenciar que os humanos desejam sempre ser felizes.
Por outro lado, esforçaram-se por mostrar que nem sempre se é feliz quando se julga ser feliz.
Aldous Huxley tentou mostrar isso mesmo nos seus romances.
No livro O Admirável Mundo Novo, as pessoas são formatadas para quererem ser aquilo que a sociedade estipula que elas devem ser.
Quando lemos este livro somos invadidos por uma sensação de desconforto. Qual o problema com esse mundo? As pessoas nele são todas felizes. Mas não podem ser outra coisa. Reconhecemos que não há liberdade nesse mundo: mas que tipo de liberdade? Será esse mundo realmente tão diferente do nosso mundo?
Se as pessoas são felizes, então qual o problema? Há algum problema com essa felicidade?
Aldous Huxley criou um mundo que grita: estão a ver, pode haver um problema com a felicidade. Não basta ser feliz. Mesmo que ninguém que esteja feliz desejasse outra coisa, na verdade parece que isso não nos basta quando, de fora, julgamos esse mundo: é que a felicidade parece não justificar tudo.
Recomendo vivamente a leitura deste livro - porque hoje parece haver uma completa tirania da busca da felicidade: como se isso fosse tudo. Também a felicidade pode ser aparente, pode ser um engano. Podemos julgar-nos felizes quando, na verdade, somos os mais miseráveis.
E então, quereríamos fazer parte do mundo de Huxley?
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