terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O intolerável não é um argumento

A propósito de Paris

O terror levou as pessoas a terem de falar, a comentar. O modo rápido e expedito como toda a gente se sentiu na obrigação de falar indicia que se tratou de falatório, porque a rapidez com que se comentou tornou evidente que não houve, verdadeiramente, qualquer reflexão profunda ou séria sobre o assunto. De repente, toda a gente soube qual é o verdadeiro problema e o que há a fazer. Não sei se sabem de facto ou não, mas a rapidez com que se falou mostra que se limitaram a aplicar ao que aconteceu os velhos cânones. Assim, interpreta-se o acontecimento novo com a mesma grelha de chavões e padrões de sempre, não importa o grau de choque que se sofreu. Não é de admirar, por isso, que ainda hoje se possam ouvir as mesmas confusões. A direita tenta compreender o que se passou na mesma lógica de sempre do outro v/s nós, do emigrante/nacional, do fechamento das fronteiras e exclusão. Deixa completamente de lado o facto de os terroristas serem franceses, nacionais franceses. A esquerda tenta compreender tudo na mesma lógica da integração, da falta de condições de vida, da falta de emprego. Fica completamente de fora o facto de este tipo de terrorismo - tal como o do 11 de Setembro - apresentar como traço verdadeiramente distintivo, precisamente, a integração, a capacidade de desaparecer na paisagem - bem como a detenção de capitais, de mão de obra qualificada, de formação académica. A nova estrutura terrorista tem estudos, tem dinheiro, tem até capacidade de manipular os mercados, e sabe usar as suas capacidades, sabe integrar-se, sabe passar despercebida, como um psicopata.

Os mal-entendidos são abstrusos. Perante o atentado, desatou-se a defender a liberdade de expressão, a actividade dos cartonistas, etc. Como se aqueles que morreram tivessem menos direito à vida se, porventura, não se dedicassem a uma actividade nobre em democracia. Ora, discutir a liberdade de expressão no contexto de um atentado terrorista só significa que se considerou o atentado terrorista como um argumento contra a liberdade de expressão.

A violência não é um argumento. Pode ter e tem efeitos reais, mas não porque é um argumento. Aliás, a maioria dos argumentos, como se sabe, não tem efeitos reais - ao contrário da violência. Mas o atentado não é um argumento contra a liberdade de expressão, não há nada para discutir neste aspecto: e se o discutimos só estamos a dar razão aos terroristas, pois estamos a admitir que, perante a violência, levantamos a questão, dando-lhes a sensação de que talvez um dia consigam que nós respondamos de modo diferente. Contudo, não se deve pensar que a "liberdade de expressão" não é discutível. É-o. Porém, não o é devido ao atentado.No contexto do atentado não se deve discutir a liberdade de expressão. A liberdade de expressão deve ser discutida, SIM, mas sempre livre deste tipo de coacção (ou te calas ou mato-te). Podemos discutir se o Charlie deve ferir susceptibilidades da maneira como o faz. Podemos discutir se a lei o deve permitir. Etc. Mas isto deve ser discutido SEM QUALQUER RELAÇÃO e SEM QUALQUER PRESSÃO vinda do terrorismo: o facto de a pessoa ferida na sua susceptibilidade resolver matar não é um argumento contra nem a favor da liberdade de ofender susceptibilidades. Caso contrário, ficaríamos na situação estranha de permitirmos que se ferissem as susceptibilidades de todos aqueles excepto de quem estivesse disposto a matar.

É normal que as pessoas elogiem o trabalho daqueles que morreram. Mas associar o atentado a este elogio, pretendendo mostrar que a grandeza do trabalho daqueles que morreram agrava o acto de violência, é absurdo. Imagine-se que alguém tem crenças fortes contra a prostituição e desata a matar prostitutas. Significa isto que devemos saltar em êxtase a defender a prostituição? Significa isto que o assassínio de prostitutas é menos grave do que o assassínio de cartonistas que pugnam pela liberdade e lutam contra o preconceito? NÃO e NÃO. No entanto, toda a gente desatou a gritar "Je suis Charlie". O que quer isto dizer? Que estamos a defender o que o Charlie faz? Mas nenhum argumento foi dito sobre isso. O que há é um acto de terror que foi praticado e que DEVE SER CONDENADO INDEPENDENTEMENTE de ter sido praticado contra o Charlie ou contra uma prostituta, ou contra um qualquer outro indiscriminado. (Para evitar equívocos, devo dizer que sou totalmente defensor da ironia aguda do Charlie - o ponto é que isto é irrelevante: mesmo que se tratasse da pior espécie de jornalismo, o terrorismo seria condenável. Mas isto também não quer dizer que a liberdade de expressão deva ser absoluta: será que deveríamos tolerar um jornal que defendesse o terrorismo?).

O que nos deveria preocupar é saber em que medida seremos capazes de resistir à tentação de erguer barreiras, de condenar o Islão como um todo, de atacar os islâmicos só por serem islâmicos, de nos tornarmos, nós próprios, naquilo que condenamos. O perigo não é que o ataque terrorista nos leve a reduzir a liberdade dos jornais, mas sim que nos leve a reduzir a liberdade em geral sob a pressão para a segurança. O perigo é que o atentado produza de facto medo e que CEDAMOS ao medo, cortando a liberdade, a democracia, e passemos a discriminar, a controlar abusivamente. O perigo é que o medo nos leve a instalar um estado ditatorial. É aí que o terror vence. Se não resistirmos à tentação de condenar o outro, de erguer fronteiras, de excluir.

Um último ponto: tem-se dito que deve haver colaboração internacional entre serviços de informação, e tem-se insistido na ideia de que deve ser apertado o controlo de informação por parte dos serviços secretos. Ora, aqui está a tendência para ceder ao medo, para criar um estado securitário em detrimento da democracia, para sacrificar a liberdade em nome da segurança. É um facto que se tem de pensar no assunto. Contudo, não é evidente que o problema tenha residido numa falta de informação. Na verdade, parece que os terroristas estavam referenciados e nada se fez. Não faltou informação. Faltou outra coisa. E não foi um problema de fronteiras em si, nem de imigração, nem de integração.

Mas há um aspecto disto que deve ser tido em conta: se alguém decide ir para o Estado Islâmico, lá onde se cortam cabeças e queimam pessoas vivas, e depois regressa, alguma coisa tem de mudar no modo como lhe é permitido estar cá. Quer dizer, isto, pelo menos, deve estar mais ou menos claro: decidir integrar o Estado Islâmico não é o mesmo que decidir jogar PC, ou xadrez. A decisão de integrar o Estado Islâmico não é uma decisão revogável, da qual se possa voltar para trás. Pode acontecer, de facto, que alguém se arrependa, mas isto não impede esta constatação: a decisão de se tornar parte de algo como o Estado Islâmico envolve uma nível de convicção, de esforço, de compromisso com algo que é de tal modo extremo, intolerável, inumano, que tem de ter consequências. Não se pode simplesmente aceitar que alguém que foi para o Estado Islâmico estagiar possa simplesmente voltar como se tudo não tivesse passar de um sonho - pois, caso contrário, arriscamo-nos a ser acordados da pior maneira.










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