A propósito da família no cristianismo original - em particular, nas cartas de Paulo
Se o Novo Testamento estivesse ordenado por ordem cronológica da sua escrita, os primeiros textos a figurar nele seriam as cartas autênticas de Paulo (as “autênticas” porque o cânone do Novo Testamento inclui algumas cartas que reclamam a autoria paulina, mas que não podem ter sido escritas por Paulo). As epístolas paulinas (autênticas) são anteriores aos Evangelhos, e são os documentos cristãos mais antigos que possuímos hoje: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, Carta a Filémon e Carta aos Romanos – por esta ordem. Curiosamente, e segundo a crítica actual, estes são os únicos documentos do Novo Testamento que podemos efectivamente associar a uma biografia pessoal real, a saber, Paulo. Não sabemos quem escreveu qualquer dos outros 20 livros que integram o Novo Testamento (por exemplo, não sabemos quem escreveu os Evangelhos, apesar de cada um deles estar associado a um nome). Quando Paulo morreu, por volta do ano 64, mais nenhum texto cristão canónico havia sido escrito, excepto as suas sete cartas. Paulo terá escrito as cartas em questão na década de 50 (do século I). Por isso, as epístolas paulinas constituem um conjunto de documentos fundamentais para conhecermos o cristianismo dos primeiros tempos – o cristianismo tal como ele existia no tempo em que ainda estavam vivas pessoas que já estavam vivas quando Jesus estava vivo.
Há diversas diferenças entre as cartas autênticas de Paulo e as chamadas pseudo-paulinas. Algumas dessas diferenças são relativas à sexualidade e à relação entre homens e mulheres. As cartas autênticas de Paulo revelam-nos que, para ele, o estado ideal do ser humano, em relação à sexualidade, era a virgindade – ou, caso alguém se tornasse cristão já não sendo virgem, a castidade. Paulo é muito claro quanto a isto (cf. 1 Cor. 7:1-8). Portanto, para Paulo, o estado ideal do homem é a castidade, a ausência de relações sexuais – e é só para evitar o recurso à prostituição que recomenda que aqueles que não sejam capazes de cumprir tal requisito, então, se casem. É só porque está ciente da enorme dificuldade que a exigência de castidade implica, que Paulo aceita o recurso ao casamento. Ainda assim, segundo ele, é preferível que o marido se esforce por não tocar na sua mulher, apesar de casado – e a haver relações sexuais, o sexo entre marido e mulher devem ser isentos de prazer (cf. 1 Tess. 4:3-5). Quer dizer, segundo Paulo, mesmo entre marido e mulher, não deve haver sexo, e a haver sexo, deve ser sexo sem prazer. Paulo considera o prazer sexual um elemento pagão (aparentemente, desconhecendo as diversas correntes filosóficas pagãs que, mesmo antes de Sócrates, já eram adversas ao prazer sexual). Como diz Frederico Lourenço, na sua Nota Introdutória à Carta aos Romanos: para Paulo, “é a sexualidade em si que se tornou obsoleta”.
Curiosamente, os conservadores contemporâneos, por vezes, recorrem a Paulo para defenderem a noção de “família cristã”. Para os conservadores, o ponto de vista de Paulo rejeita o “politicamente correcto” e defende peremptoriamente a “família cristã” tradicional. Ora, é certo que, se há coisa que Paulo não era, é “politicamente correcto”, mas os conservadores actuais falham completamente o ponto ao recorrerem a Paulo para defenderem a suposta noção de “família cristã”. Na verdade, Paulo de modo nenhum defende a família dita cristã – nem, de resto, o próprio Jesus a defendia (cf. Mt. 22:30). Para Paulo, a relação sexual entre pessoas de sexo oposto não era muito melhor do que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo: em ambos os casos, a palavra de ordem era para evitar. Idealmente, para Paulo – tal como para Jesus – nem os homens devem ter mulheres, nem as mulheres devem ter homens. O resto, a família, a suposta “família cristã”, era apenas um expediente para evitar males ainda piores. Ou seja, Paulo só admitia o casamento (e, portanto, a constituição da família) para evitar o mal maior da “fornicação” desregrada. Paulo insiste no valor da virgindade e da castidade, e o casamento só é aceite como mal menor – mas, ainda assim, um mal.
É nas cartas pastorais (as duas epístolas a Timóteo e a epístola a Tito), pseudo-paulinas, escritas já depois da morte de Paulo, que se procura conciliar a vida cristã com o casamento e a família. São as cartas pastorais que defendem o οἶκος (oîkos – de onde veio a nossa palavra “economia”), termo este que designava a estrutura familiar, constituída por marido, mulher, filhos, outros descendentes e ascendentes, e escravos. As cartas pastorais, pseudo-paulinas, colidem directamente com o ideal paulino da castidade. Em vez da apologia da abstinência sexual, as pastorais fazem a apologia da estrutura familiar antiga. A família aparece nelas como a estrutura básica, sobre a qual a ἐκκλησία (ekklêsía – de onde provém o termo “eclésia”), a comunidade, se deveria fundar.
O οἶκος era chefiado pelo οἰκοδεσπότης (oikodespótês), o marido. O marido era, literalmente, o déspota da família, o chefe do lar. Assim, nas cartas pastorais, o autor pseudo-paulino oferece-nos uma visão do mundo impregnada de misoginia. Na sua perspectiva, a mulher só se salvará pela τεκνογονία (teknogonía), pelo acto de dar à luz uma criança (1 Tim. 2:14-15). Assim, as cartas pastorais, não só contrariam o ideal paulino da abstinência sexual, como estabelecem a ideia de que as mulheres têm na parturição de filhos a sua condição de possibilidade de salvação. O seu papel na estrutura familiar (οἶκος) e, por extensão, na comunidade (ἐκκλησία) fica restrito à sua condição biológica de procriação, estando submetida ao seu marido, enquanto chefe de família (οἰκοδεσπότης). O homem é concebido como o déspota ao qual a mulher está submetida, numa condição de silenciamento, reduzida à sua função de procriadora: “Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio. E Adão foi o primeiro a ser formado; depois Eva” (1 Tim. 2:11-13). As cartas pseudo-paulinas serviram para legitimar, durante séculos, a subalternização da mulher em relação ao homem.
Assim, a visão expressa pelo autor pseudo-paulino contraria o respeito pela mulher que Paulo manifesta nas suas cartas (autênticas). Ao procurar enquadrar na vida cristã o casamento e a estrutura familiar tradicional, o autor pseudo-paulino coloca a mulher numa posição subalterna em relação ao homem, rejeitando assim a visão de Paulo, na qual a mulher gozava de um estatuto surpreendentemente generoso.
Portanto, quando os conservadores apelam à posição de Paulo para legitimar a suposta noção de “família cristã”, na verdade, incorrem num equívoco. Ao pretenderem invocar um Paulo politicamente incorrecto pelos padrões de hoje, esquecem que Paulo era politicamente incorrecto, também, no seu próprio tempo. No seu tempo, Paulo – como Jesus já fizera – opõe-se directamente às instituições tradicionais do seu tempo. Inclusivamente, opõe-se à instituição da “família tradicional”. Se, no tempo de Paulo, Paulo defendesse a estrutura familiar tradicional, Paulo não teria sido, como foi, politicamente incorrecto no seu próprio tempo. E, ao pretenderem trazer Paulo para o debate contemporâneo, os conservadores esquecem que Paulo continua politicamente incorrecto no nosso tempo. Continua politicamente incorrecto de tal modo que não se coaduna com a posição que os conservadores pretendem derrubar, mas também continua de tal modo politicamente incorrecto que não se coaduna, sequer, com a posição dos conservadores. A posição de Paulo tanto se opunha aos conservadores do seu tempo, como aos conservadores do nosso tempo – e não se opõe menos à posição dos conservadores do nosso tempo, do que se opõe à posição dos progressistas. Parafraseando o próprio Paulo (cf. 1 Cor. 1:23): o cristianismo original era um escândalo para os do seu tempo, e é uma loucura para nós.
Ao invocarem Paulo, os conservadores dão um tiro nos próprios pés.
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
Da Economia e da Ética
A propósito de servir a dois senhores...
Jesus era um homem de amor. Não era de abominar coisas. Nos evangelhos, a palavra "abominação" (βδέλυγμα) raramente surge na boca de Jesus. Na verdade, para ele, só duas coisas merecem ser consideradas "abominação": a destruição do Templo, e o dinheiro. Para Jesus, o dinheiro é "elevado entre os homens", e uma "abominação diante de Deus" (Lucas 16: 13-15).
"Οὐδεὶς οἰκέτης δύναται δυσὶ κυρίοις δουλεύειν"
Nenhum servo pode servir a dois senhores. (Lucas 16: 13)
Os homens querem servir a Deus. Mas, segundo Jesus, os homens elevam o dinheiro à categoria de "Senhor", e, por isso, procuram naturalmente servir ao dinheiro. Mas, nas suas palavras, não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Os homens julgam que podem, que são capazes de conciliar as exigências destes dois senhores; mas Jesus insiste que não: os homens não são capazes de servir dois senhores, porque acabam sempre ou por odiar um e amar o outro, ou por dedicar-se a um e desprezar o outro. Não é que os homens não queiram, de facto, servir aos dois. Jesus não diz que os homens não querem servir os dois senhores. O que Jesus diz é que não são capazes de o fazer: não é uma possibilidade que lhes assista. Os homens bem querem amar a Deus ao mesmo tempo que servem ao dinheiro, mas Jesus insiste que isso é pura ilusão. Para amar um dos senhores, o servo despreza o outro; e para se dedicar a um, odeia o outro. Servir aos dois é que não pode. É por isso mesmo que o dinheiro, sendo elevado entre os homens à categoria de Senhor, aos olhos de Deus é uma abominação.
Em grego, a palavra usada para dinheiro neste contexto é "μαμωνᾶς" (mamónas). Trata-se, provavelmente, de um termo de origem aramaica, derivado do verbo "confiar" (̓aman). Portanto, "mamónas" é aquilo em que se confia, aquilo em que se deposita confiança. Em inglês: "what is trusted in". De facto, o dinheiro é dinheiro porque os homens confiam nele. O seu valor depende de um sistema fiduciário, em que as pessoas confiam que o dinheiro tem o seu valor garantido. Por isso mesmo, falamos de "moedas fiduciárias".
Portanto, os homens tornam-se servos do dinheiro porque confiam nele. Mas, é aquilo mesmo em que os homens confiam, que Jesus afirma tratar-se de uma abominação: não de uma abominação aos olhos dos homens, como é evidente, porque se esse fosse o caso, os homens não confiariam nele. Os homens não desconfiam que o dinheiro seja uma abominação e elevam-no à categoria de Senhor. É justamente isso que Jesus diz: o dinheiro é elevado à categoria de Senhor entre os homens, mas é uma abominação diante de Deus.
Jesus era um homem de amor. Não era de abominar coisas. Nos evangelhos, a palavra "abominação" (βδέλυγμα) raramente surge na boca de Jesus. Na verdade, para ele, só duas coisas merecem ser consideradas "abominação": a destruição do Templo, e o dinheiro. Para Jesus, o dinheiro é "elevado entre os homens", e uma "abominação diante de Deus" (Lucas 16: 13-15).
"Οὐδεὶς οἰκέτης δύναται δυσὶ κυρίοις δουλεύειν"
Nenhum servo pode servir a dois senhores. (Lucas 16: 13)
Os homens querem servir a Deus. Mas, segundo Jesus, os homens elevam o dinheiro à categoria de "Senhor", e, por isso, procuram naturalmente servir ao dinheiro. Mas, nas suas palavras, não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Os homens julgam que podem, que são capazes de conciliar as exigências destes dois senhores; mas Jesus insiste que não: os homens não são capazes de servir dois senhores, porque acabam sempre ou por odiar um e amar o outro, ou por dedicar-se a um e desprezar o outro. Não é que os homens não queiram, de facto, servir aos dois. Jesus não diz que os homens não querem servir os dois senhores. O que Jesus diz é que não são capazes de o fazer: não é uma possibilidade que lhes assista. Os homens bem querem amar a Deus ao mesmo tempo que servem ao dinheiro, mas Jesus insiste que isso é pura ilusão. Para amar um dos senhores, o servo despreza o outro; e para se dedicar a um, odeia o outro. Servir aos dois é que não pode. É por isso mesmo que o dinheiro, sendo elevado entre os homens à categoria de Senhor, aos olhos de Deus é uma abominação.
Em grego, a palavra usada para dinheiro neste contexto é "μαμωνᾶς" (mamónas). Trata-se, provavelmente, de um termo de origem aramaica, derivado do verbo "confiar" (̓aman). Portanto, "mamónas" é aquilo em que se confia, aquilo em que se deposita confiança. Em inglês: "what is trusted in". De facto, o dinheiro é dinheiro porque os homens confiam nele. O seu valor depende de um sistema fiduciário, em que as pessoas confiam que o dinheiro tem o seu valor garantido. Por isso mesmo, falamos de "moedas fiduciárias".
Portanto, os homens tornam-se servos do dinheiro porque confiam nele. Mas, é aquilo mesmo em que os homens confiam, que Jesus afirma tratar-se de uma abominação: não de uma abominação aos olhos dos homens, como é evidente, porque se esse fosse o caso, os homens não confiariam nele. Os homens não desconfiam que o dinheiro seja uma abominação e elevam-no à categoria de Senhor. É justamente isso que Jesus diz: o dinheiro é elevado à categoria de Senhor entre os homens, mas é uma abominação diante de Deus.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
Os psicopatas e o dever
A propósito do dever de não matar
Por vezes parece que já não nos lembramos da razão por que não se deve matar.
Há muito que dizer quanto a isto.
Lembramo-nos daqueles livros, daqueles filmes ou daquelas séries em que um psicopata, a dado momento, pergunta "Porquê?". Por que razão não se deve matar? O que se torna, então, imediatamente evidente, é que a resposta a esta questão não é tão fácil quanto pareceria antes de ela ser colocada. Sobretudo, porque as supostas respostas que lhe são dadas parecem sempre ser menos evidentes, menos certas e muito menos convincentes para nós mesmos do que o simples "não se deve matar". O "não se deve matar" parece-se muito mais com um ponto de partida do que com um ponto de chegada. O dever de não matar tem mais um aspecto de um fundamento do que de uma conclusão. E, contudo, como justificá-lo se for ele próprio a estar em questão? Por isso, quando levados a sério, os psicopatas são sempre arrepiantes.
E se "ele afirmar que mata para aliviar a pressão demográfica"? Este é um outro ponto. A saber: e se o psicopata não se limita a perguntar "então, porquê?", mas vai ainda mais longe e nos oferece uma justificação para matar? Porque nós, apesar de sabermos que "não se deve matar", também sabemos que admitimos excepções a esta regra: podemos matar em legítima defesa; e permitimos que o Estado mate, ou que as pessoas às ordens do Estado e em seu nome matem outras pessoas, como os soldados na guerra, ou os polícias para salvar reféns; aceitamos que o Estado possa utilizar algumas maneiras de matar, como acontece com a pena de morte; e até aceitamos que o Estado possa legalizar algumas maneiras de matar, seja na forma de eutanásia, ou de aborto, por exemplo. Então, se o "não se deve matar" pode ser suspenso pela justificação, surge o problema de saber como pesar estas justificações, e de como responder às justificações de cada vez apresentadas para matar. Será permitido matar para aliviar a pressão demográfica? Se for apenas para saber onde está uma bomba, não se pode matar? Mas se for para impedir um homicídio, já se pode? E se for para salvar a Humanidade? Como podemos saber se matar para aliviar a pressão demográfica é diferente de matar para salvar a Humanidade? E quem tem a faculdade de julgar sobre tudo isto? A consciência de cada um? O Estado? Os partidos políticos reunidos num hemiciclo?
O problema de saber como pesar estas justificações levanta um outro problema: ao submeter essas justificações a uma medida abrimos a porta à validação de algumas justificações que, segundo essa medida, têm mais peso. É assim que, desprevenidamente, muitas vezes, quando tentamos mostrar a razão pela qual não se deve matar numa certa circunstância, deixamos entrar um cavalo de Troia monstruoso pelas traseiras. Porque um psicopata inteligente imediatamente capta a fragilidade: ok, se a razão para não matar é x, então, segundo essa mesma razão x, posso matar em todas aquelas outras circunstâncias. E se, então, queremos aventar outras razões para que nessas outras circunstâncias também não se possa matar, a nossa argumentação começa a parecer-se mais com uma manta de retalhos, cosida mais ou menos avulso, com a clara intenção de apenas chegar à conclusão de onde, na verdade, já partíramos. Mas nenhum psicopata se deixa convencer por mantas de retalhos.
Há muito que dizer quanto a isto.
Lembramo-nos daqueles livros, daqueles filmes ou daquelas séries em que um psicopata, a dado momento, pergunta "Porquê?". Por que razão não se deve matar? O que se torna, então, imediatamente evidente, é que a resposta a esta questão não é tão fácil quanto pareceria antes de ela ser colocada. Sobretudo, porque as supostas respostas que lhe são dadas parecem sempre ser menos evidentes, menos certas e muito menos convincentes para nós mesmos do que o simples "não se deve matar". O "não se deve matar" parece-se muito mais com um ponto de partida do que com um ponto de chegada. O dever de não matar tem mais um aspecto de um fundamento do que de uma conclusão. E, contudo, como justificá-lo se for ele próprio a estar em questão? Por isso, quando levados a sério, os psicopatas são sempre arrepiantes.
E se "ele afirmar que mata para aliviar a pressão demográfica"? Este é um outro ponto. A saber: e se o psicopata não se limita a perguntar "então, porquê?", mas vai ainda mais longe e nos oferece uma justificação para matar? Porque nós, apesar de sabermos que "não se deve matar", também sabemos que admitimos excepções a esta regra: podemos matar em legítima defesa; e permitimos que o Estado mate, ou que as pessoas às ordens do Estado e em seu nome matem outras pessoas, como os soldados na guerra, ou os polícias para salvar reféns; aceitamos que o Estado possa utilizar algumas maneiras de matar, como acontece com a pena de morte; e até aceitamos que o Estado possa legalizar algumas maneiras de matar, seja na forma de eutanásia, ou de aborto, por exemplo. Então, se o "não se deve matar" pode ser suspenso pela justificação, surge o problema de saber como pesar estas justificações, e de como responder às justificações de cada vez apresentadas para matar. Será permitido matar para aliviar a pressão demográfica? Se for apenas para saber onde está uma bomba, não se pode matar? Mas se for para impedir um homicídio, já se pode? E se for para salvar a Humanidade? Como podemos saber se matar para aliviar a pressão demográfica é diferente de matar para salvar a Humanidade? E quem tem a faculdade de julgar sobre tudo isto? A consciência de cada um? O Estado? Os partidos políticos reunidos num hemiciclo?
O problema de saber como pesar estas justificações levanta um outro problema: ao submeter essas justificações a uma medida abrimos a porta à validação de algumas justificações que, segundo essa medida, têm mais peso. É assim que, desprevenidamente, muitas vezes, quando tentamos mostrar a razão pela qual não se deve matar numa certa circunstância, deixamos entrar um cavalo de Troia monstruoso pelas traseiras. Porque um psicopata inteligente imediatamente capta a fragilidade: ok, se a razão para não matar é x, então, segundo essa mesma razão x, posso matar em todas aquelas outras circunstâncias. E se, então, queremos aventar outras razões para que nessas outras circunstâncias também não se possa matar, a nossa argumentação começa a parecer-se mais com uma manta de retalhos, cosida mais ou menos avulso, com a clara intenção de apenas chegar à conclusão de onde, na verdade, já partíramos. Mas nenhum psicopata se deixa convencer por mantas de retalhos.
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Como se distingue um fanático político?
A propósito do fanatismo em política
Como se distingue um fanático político?
Isto é sempre muito complicado porque toda a gente tem direito à sua opinião e a manter-se nela - portanto, como é que se distingue um fanático?
É difícil, mas tenho notado uma coisa. A maioria de nós não concorda totalmente com nenhum partido, nem com nenhum político. Eu, por exemplo, tenho um partido de que sou mais próximo, porque muitas das suas posições são semelhantes às minhas, sobretudo naquelas áreas que considero mais importantes. Mas mesmo assim, muitas vezes simplesmente não concordo com as suas posições, outras vezes toma posições que considero ridículas. Mesmo os líderes que mais gosto desse partido irritam-me às vezes, ou dizem coisas que abomino. Discordo muitas vezes do partido e dos seus líderes. E muitas vezes faço parte daqueles que os acusam.
Em geral, a maioria das pessoas parece-me fazer o mesmo que eu. Tem um partido, contudo nem sempre concorda com aquilo que os seus líderes dizem.
Mas tenho notado algo naqueles que defendem o Bolsonaro e Trump: é que estão sempre de acordo com eles, defendem-nos sempre, seja o que for que digam, e mesmo quando dizem uma coisa e o seu contrário. Seja o que for que Bolsonaro diga ou faça, eles concordam e defendem-no. Seja o que for que Trump faça ou diga, eles concordam e defendem-no. Haja ou não contradição. Mesmo quando Trump ou Bolsonaro defendem algo que eles próprios não seriam capazes de defender para Portugal, continuam a defender Trump e Bolsonaro.
Eu diria que este é um bom indício de fanatismo. Os apoiantes de Trump e Bolsonaro, se não são, parecem-se muito com fanáticos.
Nenhuma realidade, nenhum facto, nenhuma evidência os fará mudar. São fanáticos! Ou, pelo menos, comportam-se de modo indistinguível dos fanáticos.
Como se distingue um fanático político?
Isto é sempre muito complicado porque toda a gente tem direito à sua opinião e a manter-se nela - portanto, como é que se distingue um fanático?
É difícil, mas tenho notado uma coisa. A maioria de nós não concorda totalmente com nenhum partido, nem com nenhum político. Eu, por exemplo, tenho um partido de que sou mais próximo, porque muitas das suas posições são semelhantes às minhas, sobretudo naquelas áreas que considero mais importantes. Mas mesmo assim, muitas vezes simplesmente não concordo com as suas posições, outras vezes toma posições que considero ridículas. Mesmo os líderes que mais gosto desse partido irritam-me às vezes, ou dizem coisas que abomino. Discordo muitas vezes do partido e dos seus líderes. E muitas vezes faço parte daqueles que os acusam.
Em geral, a maioria das pessoas parece-me fazer o mesmo que eu. Tem um partido, contudo nem sempre concorda com aquilo que os seus líderes dizem.
Mas tenho notado algo naqueles que defendem o Bolsonaro e Trump: é que estão sempre de acordo com eles, defendem-nos sempre, seja o que for que digam, e mesmo quando dizem uma coisa e o seu contrário. Seja o que for que Bolsonaro diga ou faça, eles concordam e defendem-no. Seja o que for que Trump faça ou diga, eles concordam e defendem-no. Haja ou não contradição. Mesmo quando Trump ou Bolsonaro defendem algo que eles próprios não seriam capazes de defender para Portugal, continuam a defender Trump e Bolsonaro.
Eu diria que este é um bom indício de fanatismo. Os apoiantes de Trump e Bolsonaro, se não são, parecem-se muito com fanáticos.
Nenhuma realidade, nenhum facto, nenhuma evidência os fará mudar. São fanáticos! Ou, pelo menos, comportam-se de modo indistinguível dos fanáticos.
A paixão de Cristo
A propósito da Páscoa
Páscoa, Πάσχα (pascha) em grego. "The Pasch", em inglês.
O verbo πάσχω (paschó) significa "sofrer", "padecer" (πάσχειν, paschein, no infinitivo).
Desse verbo veio πάθος (pathos), "sofrimento", que ainda encontramos em patologia.
O termo "Páscoa" quer dizer, portanto, "paixão". A "Páscoa cristã" refere-se, assim, à "paixão", ao "sofrimento" de Cristo.
Mas a Páscoa já existia no tempo de Jesus. Jesus morreu na Páscoa. Tratava-se da festa judaica em comemoração da saída do Egipto. Em rigor eram duas festas: a Páscoa (a "Pesach"), que só durava um dia, e a festa dos pães ázimos, que durava os sete dias seguintes. Na prática, tratava-se de um período festivo ao qual os judeus chamavam, indistintamente, Páscoa ou Festa dos Pães Ázimos. Flávio Josefo, por exemplo, fala da "Festa dos Pães Ázimos, à qual chamamos Páscoa".
A Páscoa judaica, do aramaico "Pesach" - "the Passover", em inglês - celebra a "passagem" do povo hebreu do estado de escravidão, em que se encontravam no Egipto, para o estado de liberdade - ou seja: a "redenção" dos judeus. Mas para os cristãos, o termo "redenção" passou a significar a "libertação" do Homem por meio do sacrifício de Jesus Cristo.
O termo aramaico ("Pesach") refere-se directamente à "passagem" de Deus (e/ou do anjo da morte - esta parte é exegeticamente complicada) em Exodus 12:23:
«Porque Yahweh passará por toda a terra para matar os egípcios; e, quando vir as marcas de sangue sobre a travessa e sobre as duas colunas laterais, Ele PASSARÁ adiante dessa porta e não permitirá que o destruidor entre em vossas casas para vos ferir de morte».
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