terça-feira, 1 de novembro de 2011

O escaravelho das roseiras, por João dos Santos


A propósito de escaravelhos, piolhos, moral e tempo... Um poema de João dos Santos.

O ESCARAVELHO DAS ROSEIRAS

Era criança pequena quando me mostraram
que havia pessoas más e pessoas boas
e eu senti que se deveriam matar todas as pessoas más.

Era menino crescido quando me disseram
que havia homens bons e homens maus
e eu achei que se deveriam matar todos os homens maus.

Era já grande quando me explicaram que havia os pervertidos e os outros
e eu achei que se deveria matar todos os pervertidos.

Era já homem quando me ensinaram
que se deviam matar todos os descrentes, mas ...
Não cheguei a perceber de que descrentes se tratava.

Ouvi dizer mal dos brancos e dos pretos, dos vermelhos e dos amarelos,
dos sábios e dos ignorantes
dos inteligentes e dos estúpidos.

Por pouco não matei toda a gente para ficar só com: os bons, os sábios e os inteligentes!
Cansado de procurar a verdade, acabei por matar em mim o desejo de matar o medo de ser morto.

Espero que os homens se não matem uns aos outros
só por eu ter deixado de estar alerta e de vigia
aos maus, aos estúpidos, aos mentecapto e aos pervertidos.

Porque, entretanto, nesta Primavera florida, vou passando semanas inteiras a imaginar com prazer, como hei-de matar ao domingo, os piolhos e os escaravelhos das minhas roseiras.


SANTOS, João dos. Ensaios sobre a educação II, O falar das letras. Lisboa: Livros Horizonte, 1991


Nota: espero ter conseguido uma transcrição sem erros, ou com poucos erros, mas se alguém detectar gralhas faça o obséquio de me alertar.

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