A propósito da ideia de que o conhecimento evolui num sentido determinado
«Os jónicos não eram senão uma das muitas escolas da filosofia grega antiga, [...]. Infelizmente, a visão da Natureza dos jónicos (a ideia de que a Natureza pode ser explicada através de leis gerais e reduzida a um conjunto de princípios) só exerceu uma influência significativa durante alguns séculos.»
Stephen Hawking, O Grande Desígnio
Que isto nos sirva de aviso. No passado, a ideia naturalista da natureza exerceu influência durante alguns séculos. Depois, desapareceu do mapa durante mais de um milénio.
Lembremo-nos disto sempre que vemos crescer à nossa volta movimentos anti-ciência, anti-vacinas, da terra plana, da pós-verdade, dos factos alternativos, das ciências alternativas, etc...
quarta-feira, 14 de março de 2018
Natureza indiferente
A propósito da indiferença da natureza
«Os sucessores cristãos dos gregos rejeitaram a ideia de que o universo pudesse ser regido por uma lei natural indiferente.»
Stephen Hawking, O Grande Desígnio
Portanto, os pensadores cristãos adoptaram, jubilosamente, o bom princípio pagão de que a natureza tem estados de alma e carácter moral!!! Resta saber como teria sido a história humana dos últimos 2000 anos se a noção jónica não tivesse sido eliminada pelos pensadores cristãos! Provavelmente, a nossa evolução científica e tecnológica teria sido imensamente mais rápida, e hoje estaríamos muito mais frente.
Ou seja, muito provavelmente, por esta altura, já teríamos dado cabo disto tudo e mandado a vida na Terra para o galheto! Quem sabe se a razão pela qual ainda há vida na Terra não é o descrédito em que a ciência/física teórica caiu no período de emancipação cristã?
segunda-feira, 12 de março de 2018
Quem tem cu tem medo
A propósito de como antigamente se pensava de modo tão diferente
"qui potest mori, non potest cogi"
«quem pode morrer, não pode ser coagido»
"qui non potest mori, non potest non cogi"
«quem não pode morrer, não pode evitar ser coagido»
"cogi qui potest nescit mori"...
«aquele que pode ser coagido, não aprendeu a morrer»
Hoje pensa-se que é porque se pode morrer que se pode ser coagido, pois, como se sabe, quem tem cu tem medo.
Mas antigamente pensava-se exactamente o oposto: qui potest mori, non potest cogi...
"qui potest mori, non potest cogi"
«quem pode morrer, não pode ser coagido»
"qui non potest mori, non potest non cogi"
«quem não pode morrer, não pode evitar ser coagido»
"cogi qui potest nescit mori"...
«aquele que pode ser coagido, não aprendeu a morrer»
Hoje pensa-se que é porque se pode morrer que se pode ser coagido, pois, como se sabe, quem tem cu tem medo.
Mas antigamente pensava-se exactamente o oposto: qui potest mori, non potest cogi...
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
Virtude e felicidade
A propósito de virtude e felicidade
«O estóico afirmava que a virtude é todo o soberano bem, e a felicidade constitui apenas a consciência da posse da mesma virtude enquanto inerente ao estado do sujeito. O epicurista alegava que a felicidade é todo o soberano bem, e a virtude é somente a forma da máxima a ela conducente, consistindo no uso racional dos meios para a conseguir»
Kant, Crítica da Razão Prática
Bem, e ainda estamos nisto. Ainda se encontram hoje estas duas perspectivas.
Uns acham que o bem mais alto a alcançar é a felicidade e que, por isso, a virtude é o modo de vida que nos leva à felicidade, ou que nos traz felicidade. Estes são epicuristas, mas acham que têm uma perspectiva muito "moderna" e "revolucionária". Quase se engasgam quando descobrem que esta é uma perspectiva tão antiga como o cagar na história da Filosofia.
Outros acham que o bem mais alto a alcançar é cumprir o dever, é ser-se virtuoso, é fazer-se o bem, e que ter a consciência de que se fez o bem, de que se cumpriu um dever, de que se é virtuoso é a própria felicidade. Quantas vezes ouvimos isto: "ser feliz é ajudar os outros", ou "ajudar os outros torna-nos felizes". E pronto, também estes acham que têm uma perspectiva "revolucionária" e muito "moderna". Mas é mais uma perspectiva tão velha como a fome.
Eu concordo com Kant: tão parvo é achar que "ajudar os outros" nos faz felizes, como é estúpido achar que o Bem é ser feliz. Nem cumprir o dever, fazer o bem ou ser virtuoso é equivalente a sermos felizes; nem sermos felizes é equivalente a fazer o bem, cumprir o dever ou ser virtuoso.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Quais os Requisitos Formais da Noção Kierkegaardiana de Querer Uma Só Coisa?
A propósito de querer uma só coisa...
O autor beneficia de uma bolsa de doutoramento FCT (SFRH/BD/133923/2017)
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